Outra Chernobyl poderia acontecer hoje? Com certeza

'Chernobyl' da HBO é infernal. Mas com energia renovável amplamente disponível ainda distante de ser realidade, energia nuclear ainda é nossa melhor esperança para diminuir as emissões de carbono num futuro próximo.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
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Imagem: HBO.

Ninguém na União Soviética achava que era possível. Mas o maior desastre de energia nuclear da história da humanidade parecia profetizado no Novo Testamento da Bíblia.

O Apocalipse diz que uma estrela cairá do céu, envenenando os rios e fontes do mundo abaixo. “Muitas pessoas vão morrer”, diz o texto. A Bíblia chama a estrela de Absinto, que se traduz em ucraniano para “Chornobyl”.

Chernobyl é a catástrofe que paira sobre cada pedido por um futuro sustentável ambientalmente. Como podemos fornecer a sete bilhões de humanos, muitos deles ainda vivendo na pobreza, energia e as fontes que precisam para viver uma vida digna, ao mesmo tempo reduzindo nossa dependência de combustíveis fósseis? Podemos fornecer as enormes quantidades de energia que a humanidade precisa através de fontes renováveis?

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Essa conversa ganhou urgência graças à popularidade da série Chernobyl da HBO.

A minissérie de cinco partes nos leva para a cidade de Pripyat, Ucrânia, nas primeiras horas da manhã de 26 de abril de 1986. Ela mostra os moradores da cidade acordando com uma explosão repentina do Reator 4 da usina próxima de Chernobyl. Ela mostra os primeiros bombeiros que tentaram domar o fogo do centro do reator, e que depois são vistos apodrecendo em camas de hospital enquanto a usina em chamas cospe uma nuvem venenosa sobre toda a região. Ela acompanha os cientistas que tentam convencer a cadeia de comando em Moscou de que, se os outros sete reatores de Chernobyl também explodirem, todo o Leste Europeu se tornará inabitável pelos próximos 20 mil anos. A série mostra os milhares de cidadãos soviéticos que foram recrutados, sob um enorme risco pessoal, para a operação de limpeza.

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Imagem: HBO

Felizmente, segundo especialistas, Chernobyl foi culpa da União Soviética, onde mentiras descaradas eram até esperadas nos níveis mais altos de liderança. Onde as autoridades foram abusadas pelas elites governantes. Onde a mídia independente foi afogada por propaganda e disseminação de informação falsa. E onde pesquisa científica era ignorada ou reprimida quando não se encaixava nas necessidades e vontades das pessoas no poder.

Aqueles que argumentam que Chernobyl nunca acontecerá novamente também se voltam para a engenharia. O reator era fatalmente defeituoso desde o começo, eles dizem. Ele era baseado em ciência ruim. E mais, a União Soviética vinha falsificando os relatórios há décadas. Além dos erros humanos na sala de controle, a usina estava num estado de deterioração endêmica – nenhuma usina nuclear moderna teria permissão para seguir pelo mesmo caminho sem supervisão internacional.

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Argumentar que Chernobyl nunca mais vai acontecer se tornou lugar-comum no Ocidente. Enquanto as pesquisas no Google sobre Chernobyl atingiam um pico com o sucesso da série (que é a mais bem votada no IMDB na história da televisão), o Nuclear Energy Institute – um ramo político da indústria de tecnologia nuclear dos EUA – divulgou fichas técnicas garantindo aos americanos que seus reatores são muito mais seguros que Chernobyl. Eles até colocaram uma propaganda nas buscas do Google para Chernobyl, afirmando: “Precisamos de energia nuclear”.

Mas claro que Chernobyl poderia acontecer de novo. As leis de probabilidade quase ditam que algo assim vai acabar acontecendo outra vez.

Reatores nucleares são, por definição, imensamente difíceis de controlar. Eles são complexos e exigem manutenção constante. Eles frequentemente são alvos de terroristas. E são vulneráveis aos eventos climáticos e mudanças sísmicas que, graças ao aquecimento global, estão cada vez mais regulares e fortes.

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Imagem: HBO

Achar que podemos exercer nossa vontade sobre algo tão poderoso e imprevisível quanto o centro do sol é arrogância. Como a série da HBO dramatizou brilhantemente, os oficiais da sala de controle de Chernobyl não conseguiam aceitar o fato de que seu reator tinha explodido direto para o céu noturno. Quando um tsunami atingiu a usina de Fukushima no Japão em março de 2011, investigações encontraram regulamentações relaxadas e uma empresa que foi lenta para fazer melhoras de segurança, o que tornou a usina particularmente vulnerável. Alguns dos mesmos problemas sistêmicos que assolavam Chernobyl – arrogância e complacência, captura regulatória e interesse próprio em minimizar a atenção para o desastre – continuam presentes na sociedade moderna.

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O caso de Fukushima e a lembrança de Chernobyl não impediram governos do mundo todo de investir em energia nuclear. Usinas nucleares estão sendo construídas atualmente em todos os continentes do mundo. Em Murmansk, Rússia, a primeira usina nuclear flutuante está em construção no oceano. Cinquenta e quatro usinas estão em construção no momento em 16 países, com 454 usinas ativas no mundo. (Nos EUA, a taxa de construção de novas usinas nucleares perdeu velocidade, e depois que a muito criticada usina Vogtle na Georgia entrar em operação, pode levar muitos anos para vermos uma nova usina.) Esta é uma época de crescimento do autoritarismo nacionalista e subsequente enfraquecimento de acordos bilaterais pensados para manter os reatores seguros, transparentes e sob a égide da cooperação internacional.

Não há dúvidas que a reação soviética a Chernobyl foi cínica. Moscou se manteve em silêncio até 28 de abril, quando o politburo fez um anúncio de 15 segundos no noticiário da noite: “Houve um acidente na usina nuclear de Chernobyl”. Ele apontavam que “ajuda foi providenciada” para os afetados e que “uma comissão de investigação foi criada”.

Alguns dias depois, o Moscow News, uma publicação autorizada pelo politburo, publicou uma matéria com a manchete: “Uma Nuvem Venenosa de Sentimento Anti-Soviético”. O artigo criticava “uma campanha premeditada e bem orquestrada” tentando “acobertar os atos criminosos de militarismo dos EUA e OTAN contra a paz e a segurança”. E pouco mudou desde então. Recentemente, a RT, a rede de TV de propaganda russa, rejeitou a série da HBO como “fundamentalmente falsa”.

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Ainda assim, além da negligência governamental, a série também conta uma história de esperança. A operação de limpeza ao redor de Chernobyl envolveu mais de 600 mil pessoas: algumas delas, mesmo nunca tendo sido nomeadas ou reconhecidas, foram responsáveis por salvar milhões de vidas.

Por mais bizarro que pareça, a série da HBO portanto dramatiza uma história de sucesso. Com um vasto e trágico custo humano, pessoas comuns da União Soviética conseguiram em grande parte mitigar as consequências a um grande custo pessoal. Apesar das gerações subsequentes de pessoas inocentes na Ucrânia e Bielorrússia terem sofrido de maneiras inimagináveis, a série demonstra quão perto Chernobyl trouxe a Europa da total devastação, e como heróis desconhecidos a tiraram de lá.

Chernobyl também é uma história da natureza. Em novembro passado, fiquei frente a frente com o reator sem roupas de proteção para uma matéria da VICE. Na verdade, numa viagem financiada pela Fundação Cultural Ucraniana, participei de uma rave em Pripyat.

Para quem se interessa pela recuperação da natureza, a zona de exclusão é como a prova número um. Nos meses depois da explosão, todo animal à vista foi morto e toda árvore ressecada derrubada. Mas, sem a interferência humana, o que já foi o lugar mais perigoso da Terra começou a se recuperar. Os meses de verão ganham vida com o canto dos pássaros. Lobos, ursos, linces e javalis, livres de predadores humanos, vagam pelas matas. Mesmo a menos seis graus e com neve grossa, como quando estive lá, as raízes e galhos das árvores vão abrindo seu caminho através de casas abandonadas. Em apenas 33 anos, Chernobyl foi dramaticamente retomada pela natureza.

A série Chernobyl da HBO trouxe a energia nuclear de volta à consciência mundial ao mesmo tempo que protestos ambientais como o Extinction Rebellion, e os protestos estudantis de Greta Thunberg, colocam as mudanças climáticas na agenda da imprensa.

Mas quais alternativas esses movimentos defendem? Nos EUA, combustíveis fósseis fornecem 78% da energia da nação. No Reino Unido, o número é de 52%, com 18% vindo das usinas nucleares já existentes. Chernobyl, Fukushima e o movimento antinuclear resultaram num encolhimento do investimento em energia nuclear nos EUA; enquanto isso, a rede elétrica continua a ser dominada por combustíveis fósseis, não energia renovável. No momento, energia nuclear ainda é de longe a solução de geração de energia de baixo carbono mais eficiente. Se você quer imaginar um futuro sem combustíveis fósseis, então a proliferação de energia nuclear precisa continuar, no norte e no sul, junto e em parceria com a revolução da energia renovável.

Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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