chernobyl

Poderia acontecer outro Chernobyl hoje em dia? Claro que sim

"Chernobyl" da HBO é infernal. Mas, com as energias renováveis ainda muito atrasadas, a energia nuclear continua a ser, a curto prazo, a nossa melhor esperança para gerar energia com baixas emissões de carbono.

Por Tom Seymour; Traduzido por Madalena Maltez
05 Junho 2019, 1:02pm

Imagem: HBO.

Este artigo foi originalmente publicado na Motherboard - Tech by VICE.

Ninguém na União Soviética achava possível. Mas, a maior libertação de detritos nucleares na história da Humanidade parecia estar profetizada no Novo Testamento da Bíblia. O Livro das Revelações diz-nos que uma estrela cairá do céu, envenenando os rios e nascentes no Mundo abaixo. "Muitas pessoas morrerão", pode ler-se. A Bíblia chama à estrela de Wormwood, que se traduz em ucraniano como "Chornobyl".

Chernobyl é a catástrofe que paira sobre todos os apelos por um futuro ambientalmente sustentável. Como podemos abastecer quase sete mil milhões de seres humanos, muitos dos quais ainda vivem na pobreza, com a energia e os recursos necessários para viverem uma vida digna, ao mesmo tempo que tentamos evitar a dependência de combustíveis fósseis? Podemos fornecer as enormes quantidades de energia que a humanidade precisa apenas através de energias renováveis? A urgências do debate destas questões parece ter aumentado graças à popularidade da série da HBO, Chernobyl.

A mini-série em cinco partes leva-nos de volta à cidade de Pripyat, na Ucrânia e à madrugada de 26 de Abril de 1986. Mostra-nos os habitantes a serem acordados por uma explosão repentina no reactor número quatro da central de Chernobyl, nas proximidades. Mostra-nos os primeiros socorristas que tentam dominar o fogo no núcleo do reactor e que acabam, depois, em decomposição em camas de hospital escondidas da vista de todos, enquanto a central continua a expele uma nuvem venenosa sobre toda a região. A série segue também os cientistas que têm como missão tentar convencer a cadeia de comando de Moscovo que, se acontecer o mesmo aos outros sete reactores de Chernobyl, toda a Europa de Leste se tornará um deserto nuclear inabitável durante, aproximadamente, os seguintes 20 mil anos. Mostra-nos ainda os muitos milhares de cidadãos soviéticos que foram convocados, com enorme risco pessoal, para a operação de limpeza.

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Imagem: HBO

Felizmente, asseguram-nos os especialistas, Chernobyl foi culpa da União Soviética, onde a mentira descarada era dominante nos mais altos níveis de liderança. Onde essa elite governante praticava sistematicamente o abuso de autoridade. Onde os meios de comunicação independentes eram abafados pela propaganda e disseminação intencional de informações falsas. E onde a investigação científica era descartada ou suprimida, quando não se encaixava nas necessidades e desejos daqueles responsáveis.

Aqueles que argumentam que Chernobyl nunca mais irá acontecer também recorrem à engenharia. O reactor estava fatalmente defeituoso desde a fase de projecto, dizem. Foi fundamentado em má ciência. Além do mais, a União Soviética andava há décadas a manipular os livros. Muito além dos erros humanos na sala de controlo, a central estava num estado de deterioração endémica - nenhuma central nuclear moderna alguma vez seria autorizada a seguir o mesmo caminho sob supervisão internacional.


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Argumentar que Chernobyl nunca poderia voltar a acontecer tornou-se comum no Ocidente. Como sugerem as pesquisas do Google sobre Chernobyl, que subiram em flecha depois do sucesso da série de televisão (que é a série melhor classificada no IMDB na história do pequeno ecrã), o Instituto de Energia Nuclear - a polícia da indústria de tecnologia nuclear dos Estados Unidos da América - publicou uma fact sheet que garantia ao povo norte-americano a segurança rigorosa dos seus reactores em comparação com Chernobyl. Até publicaram anúncios nas buscas do Google por Chernobyl, garantindo que "precisamos de energia nuclear".

Mas, é claro que um Chernobyl poderia voltar a acontecer. As leis da probabilidade quase que ditam que algo parecido voltará mesmo a acontecer. Os reactores nucleares são, por definição, imensamente difíceis de controlar. São complexos e exigem manutenção constante. São frequentemente alvo de ameaças terroristas. E são vulneráveis aos freak weather events e a mudanças sísmicas que, graças ao aquecimento global, estão a aumentar rapidamente, quer em regularidade quer em escala.

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Imagem: HBO

Pensar que podemos exercer a nossa vontade sobre algo tão poderoso e imprevisível como o núcleo do sol é pura arrogância. Como a série da HBO brilhantemente dramatiza, os funcionários da sala de controlo de Chernobyl não conseguiram entender o porquê de o seu reactor ter explodido. Quando um tsunami atingiu a central de Fukushima, no Japão, em Março de 2011, as investigações encontraram regulamentações negligentes e uma empresa que demorou a fazer melhorias de segurança, tornando a central particularmente vulnerável. Alguns dos mesmos problemas sistémicos que assolaram Chernobyl - arrogância e complacência humanas, problemas nas regulações e interesse próprio em minimizar a atenção sobre um desastre - ainda atormentam a sociedade moderna.

No entanto, Fukushima e a memória de Chernobyl não impediram governos em várias partes do Mundo de investirem no nuclear. Há actualmente centrais nucleares em construção em quase todos os continentes. Em Murmansk, Rússia, está ser construída a primeira central nuclear flutuante. Há 54 centrais em construção em 16 países e 454 activas no Planeta (Nos Estados Unidos, todavia, o ritmo de construção de novas centrais nucleares diminuiu e, depois da central Vogtle, no estado da Georgia, estar terminada, deverá tardar até que surja outra).

Vivemos um tempo de crescimento do autoritarismo nacionalista e, como tal, de um subsequente enfraquecimento dos acordos bilaterais desenhados para manter os reactores em segurança, com transparência e debaixo da alçada da cooperação internacional.

Há poucas dúvidas de que a reacção soviética a Chernobyl foi cínica. Houve um silêncio absoluto de Moscovo até ao dia 28 de Abril, quando o Politburo fez uma declaração de 15 segundos no noticiário da noite: "Houve um acidente na estação nuclear de Chernobyl". Realçou-se que a "assistência foi prestada" àqueles afectados e que “uma comissão de investigação foi criada”.

Poucos dias depois, o Moscow News, uma publicação autorizada pelo Politburo, publicou um artigo com a manchete: “Uma nuvem anti-soviética envenenada”. O artigo criticava “uma campanha premeditada e bem orquestrada” que pretendia “cobrir” os actos criminosos militares dos EUA e da NATO contra a paz e a segurança. ”Pouco mudou. Recentemente, a RT, a cadeia televisiva russa, definiu a série da HBO como “fundamentalmente falsa”.

Ainda assim, mais além da negligência do governo, a série também encontra e conta uma história mais esperançosa. A operação de limpeza de Chernobyl envolveu mais de 600 mil pessoas: algumas, que nunca foram nomeadas ou reconhecidas, podem agora ser legitimamente reconhecidas por terem salvo milhões de vidas.

Por mais irreverente que possa parecer, a série da HBO dramatiza, portanto, uma história de sucesso. Com um vasto e trágico custo humano, cidadãos comuns da União Soviética conseguiram, em grande parte, mitigar as consequências com grande sacrifício pessoal. Embora gerações seguintes de inocentes da Ucrânia e da Bielorrússia tenham sofrido de maneiras inimagináveis, a série demonstra habilmente o quão perto Chernobyl levou a Europa à beira da quase total devastação e como esses heróis desconhecidos nos impediram de cair definitivamente nesse precipício.


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Mas, Chernobyl é também uma história sobre a Natureza. Em Novembro passado, estive em frente ao reactor, sem nenhuma roupa de protecção, em reportagem para a VICE. De facto, numa viagem financiada pela Fundação Cultural Ucraniana, fui a uma rave em Pripyat.

Para qualquer pessoa interessada em rewilding, a zona de exclusão deveria servir como prova número um. Nos meses após a explosão, todos os animais à vista foram mortos e todas as árvores murchas foram arrasadas. Todavia, sem a interferência humana, o que era o lugar mais perigoso da Terra começou a recuperar-se. O canto dos pássaros ecoa nos meses de Verão. Lobos, ursos, linces e javalis, livres da acção predatória humana, deambulam pelos bosques. Mesmo com menos de seis graus e neve espessa, como quando eu lá estive, as raízes e galhos das árvores ainda serpenteiam e abrem caminho pelas casas abandonadas. Em apenas 33 anos, Chernobyl foi dramática e alegremente recuperada pela Natureza.

A série Chernobyl da HBO trouxe de novo a energia nuclear para a consciência social, tal como os protestos ambientais contínuos, como os do Exctinction Rebellion e as greves estudantis lideradas por Greta Thunberg estão a instalar com sucesso o aquecimento global na agenda mediática.

Mas qual é a alternativa que estes movimentos estão a defender? Nos Estados Unidos, os combustíveis fósseis fornecem 78 por cento da energia do país. No Reino Unido, o número é de 52 por cento, com 18 por cento das centrais nucleares ainda de pé. Chernobyl, Fukushima e movimentos activistas anti-nucleares resultaram numa desaceleração do investimento nuclear nos Estados Unidos. Contudo, a rede eléctrica continua a ser dominada por combustíveis fósseis, não por energia renovável. De momento, a energia nuclear ainda é a mais eficiente solução para gerar energia de baixo carbono. Se quisermos imaginar um futuro sem combustíveis fósseis, a proliferação da energia nuclear deve continuar, no norte global e no sul global, paralelamente e em parceria com uma revolução comparável das energias renováveis.


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