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Cultura

Joana Ribeiro conta como foi rodar "O Homem que Matou Dom Quixote" com Terry Gilliam

A actriz portuguesa integrou o elenco daquele que é, provavelmente, o filme mais amaldiçoado da história do cinema. A obra deverá estrear (finalmente!) ainda este ano em Portugal e em breve poderemos também vê-la na série da Amazon "The Dark Tower".

Por Madalena Maltez
23 Maio 2019, 10:17am

Chamam-lhe o filme amaldiçoado. E não é para menos. Terry Gilliam teve a ideia de adaptar o clássico de Miguel de Cervantes há 30 anos, tendo demorado quase 10 até conseguir financiamento, em 1998. Quando finalmente começou a rodar The Man Who Killed Don Quixote, os desastres sucederam-se: de tempestades e outras catástrofes naturais que arruinaram equipamentos e levaram ao cancelamento das filmagens, passando por financiadores gananciosos e problemas com seguradoras, até à morte de actores e à desistência de outros.

Durante três décadas, porém, este sonho aparentemente impossível nunca deixou de remoer a cabeça de Gilliam. Conta Tony Grisoni, que escreveu com ele o guião, que, ao longo principalmente dos últimos 20 anos, Terry lhe ligava de vez em quando, entre projectos, a querer marcar encontros para trabalhar no seu sonho maldito. O financiamento foi mudando, tal como as expectativas, o elenco... - como dizia a crítica do New York Times, Gilliam anda às voltas com este filme desde que aquele que acabou por ser o seu protagonista, Adam Driver, andava na escola primária.

Até que, finalmente, em 2018 a maldição parecia ter chegado ao fim. Depois de mais uma polémica, desta vez relacionada com as gravações em 2017 no Convento de Cristo em Tomar e após uma disputa legal contra o produtor português Paulo Branco que ainda não está totalmente resolvida, O Homem que Matou D. Quixote estreou em Cannes. Logo depois haveria de chegar às salas de cinema de França, Bélgica e Espanha e já este ano, em Abril último foi exibido uma única noite em 700 salas dos Estados Unidos da América. Em Portugal, a estreia chegou a estar agendada para 9 de Maio último, mas, ainda com réstias de maldição emaranhadas no legado, a chegada às salas nacionais foi - como não - adiada... não se sabe até quando.

De qualquer maneira, o filme EXISTE e nele estreou-se internacionalmente a actriz portuguesa de 27 anos, Joana Ribeiro, no papel de Angelica. Depois de ter contracenado com estrelas de renome, trabalhado com um dos realizadores de culto mais importantes da actualidade, ter estado com parte do elenco a representar a obra num dos - se não O - festivais de cinema mais importantes do Mundo e prestes a fazer parte do elenco da nova série da Amazon Prime, The Dark Tower, conversámos com Joana para saber como foi dar este salto e sair deste país dito pequenino, para regressar com a certeza de que, afinal, de pequeno temos pouco, porque o que interessa é chegarmos onde merecemos estar - venhamos de onde venhamos.

VICE: Com que idade começaste a tua carreira de actriz e o que te fez dar esse passo?
Joana Ribeiro: Há sete anos, tinha 20 anos. Estudei arquitectura - nada a ver - e, antes, nunca tinha feito nada em representação. Mas, uma vez tomada a decisão, nestes sete anos foi tudo a abrir, umas coisas atrás das outras. Dei o salto, porque tive uns pais muito fixes. Foi uma decisão difícil e não é uma indústria fácil. A sorte é uma parte muito importante, de uma maneira que talvez não seja noutras áreas. Na maioria das áreas de estudo, se fores bom aluno, andares numa boa escola, fores esforçado, à partida consegues um trabalho. Nesta indústria, é crucial estar no sítio certo à hora certa - o que é completamente relativo.


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O Homem que Matou D. Quixote foi a tua primeira produção internacional?
Sim, foi a primeira, se bem que parte da produção é portuguesa, com a Ukbar. Depois disso entrei no Fatima, que é também uma co-produção [filme que deverá estrear em Portugal em Dezembro próximo, realizado pelo italiano Marco Pontecorvo]. Ultimamente têm-se feito várias co-produções, porque fiscalmente compensa filmar em Portugal. Eu tive a sorte de entrar em duas.

Imagino que a dimensão de uma produção internacional deste nível seja completamente diferente daquilo a que estavas habituada. O Terry Gilliam é um realizador de culto... deve ser um grande salto...
Sim, para mim a dimensão foi muito diferente, não tem nada a ver. Mas, esse salto não é assim tão visível aos olhos da nossa geração. Sinto que muitas pessoas da nossa idade não conhecem o trabalho do Terry. Não é como fazer um filme da Marvel, infelizmente. Se calhar, se tivesse entrado num Avengers já todos saberiam exactamente o importante que é dar este salto. É uma pena.

Pensas em fazer mais coisas fora de Portugal?
Vai sempre depender do projecto. Nunca fui apologista de me mandar para Los Angeles e ficar lá a viver e a procurar trabalho. Ainda por cima porque, hoje em dia, com o fenómeno das self tapes, tens a possibilidade de fazer audições para o Mundo inteiro. Não preciso de estar nos Estados Unidos para conseguir um projecto lá, ou em França. Posso fazer uma self tape e, se gostarem de mim, voltam a chamar-me. Já me aconteceu passar, não passar, mas a diferença agora é esta: podes chegar a qualquer canto do Planeta sem sair da tua sala.

Em Portugal é que não estamos muito habituados a fazer castings. Hoje em dia já se começam a fazer mais, mas não é ainda a regra geral. Cá, o comum é um realizador trabalhar com os actores de quem gosta, ou então também há muitos realizadores que gostam de trabalhar com não actores. Lá fora, toda a gente faz castings. A Amy Adams, a Natalie Portman, fazem todas castings. O que eu acho muito bom, assim estás sempre a trabalhar a máquina e a experimentar papéis diferentes. E também porque - e contra mim falo - o facto de um realizador gostar de uma actriz, não quer dizer que ela seja a indicada para aquele papel específico. Acho que fazer audições ajuda muito ao sucesso da personagem.

Em O Homem que Matou D. Quixote, a língua foi, de alguma forma, uma barreira?
Foi, mas porque tive de falar um inglês pior do que falo na realidade. A minha mãe viu o filme e comentou comigo que lhe fez confusão, porque não me tinha reconhecido, porque aquilo não era o meu sotaque. Por isso, a barreira foi exactamente essa, ter que fazer um sotaque pior, já que a personagem era espanhola - e, mesmo assim, não fiz um sotaque completamente espanhol, ficou ali no intermédio.

Foi um grande desafio, porque tens que articular a representação, o que está a acontecer e o texto, com o sotaque. Não podes nunca desligar do sotaque, que acaba por ser mais um desafio a acrescentar a todos os já existentes. Lembro-me que a primeira cena que filmei foi numa cascata, estavam dois graus e eu tinha que estar a dançar como se estivesse relaxada, sem frio nenhum. Entre o ‘Acção!’ e o ‘Corta!’ consegues, mas estás ali a forçar todos os músculos do corpo para o teu cérebro acreditar que não está frio. Isso, a juntar ao sotaque e aos nervos, foi um bocado complicado.

Como é que treinaste esse sotaque? Tinhas aulas, ou foi sozinha em frente ao espelho?
Muito na base do sozinha em frente ao espelho. Vi muitos filmes da Penelope Cruz, até o Jamón Jamón. E tínhamos actores espanhóis no set, por isso pedi a uma delas, a Laura Galán, que me gravasse as falas e eu depois ouvia-as em loop.

Mas, no Fatima, por exemplo, já tive a sorte de ter uma dialect coach, o que foi espetacular. Notei imensa diferença, só pensava que me teria dado imenso jeito no filme do Terry. Porque, o mais difícil nem é o sotaque em si, é a musicalidade da língua. Ao ser uma personagem espanhola a falar inglês, o que realmente muda é que os espanhóis usam uma musicalidade em inglês diferente da que têm a falar espanhol e da que nós faríamos. Damos incidência a partes diferentes da fala. Foi nisso que trabalhámos mais. No meu caso, como interpretava a Virgem Maria, ela queria que fosse muito suave, com um sotaque mediterrâneo, que fosse como uma onda que envolve toda a gente. E a personagem existe graças a ela, à minha professora de dialecto.


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O facto de estares a trabalhar com o Terry Gilliam deixou-te mais nervosa que o normal?
Sim. É um cineasta de culto, daqueles realizadores que ou se adora ou se odeia - eu faço parte do primeiro grupo. Fez os filmes dos Monthy Phython, que marcaram uma geração. No primeiro dia estava muito nervosa. Não tanto no primeiro dia de filmagens, mas no dia em que conheci toda a gente pela primeira vez. Eu era fã do trabalho de todos eles, do Jonathan Pryce, do Adam Driver… e conheci-os aos dois num dia em que estava a experimentar uma peruca. Ou seja, estava eu, literalmente, com uma meia na cabeça, quando o Terry me aparece a dizer “Quero que conheças o Adam!”. Ele impecável, eu de meia na cabeça. Foi dos momentos mais fora que tive na vida. Acho que gostaram mais de mim quando me viram sem a meia [risos]. Mas, o Terry tem estas coisas... ele sabia que eu era fã deles e, portanto, pensou ‘agora vou envergonhá-la e apresentá-los na pior altura possível’.

Qual foi a melhor e a pior parte de trabalhar com ele? Nas entrevistas que deram em conjunto em Cannes, ele parece ter uma boa dinâmica com o elenco e aparenta ser bastante divertido.
Sim, bastante relaxado. O Terry é uma pessoa muito inteligente e culta, sabe falar sobre tudo. Lembro-me que em Cannes tínhamos entrevistas com pessoas de todo o mundo e ele comentava sempre o estado da política no país do entrevistador, ou dizia uma palavra na língua, ou falava sobre um filme que adorava desse país. Aquilo extasiava-me.

Quanto à melhor parte e o maior desafio, acho que foram a mesma coisa: o facto de o Terry me dar liberdade total para explorar a personagem e experimentar coisas diferentes. Eu gosto que me digam exactamente o que tenho que fazer mas, para o Terry, assim que ele entrega a personagem a um actor, esta pertence-lhe. Ele passa a estar completamente disponível para ouvir o que cada actor tem para acrescentar à personagem e está, aliás, a contar connosco para isso. O que é óptimo, mas também complicado, és mais responsável por aquilo que fazes. Houve momentos em que me senti insegura, porque me punha a pensar que não tinha experiência suficiente, que só tinha feito duas novelas e um filme, que nunca tinha estudado… Todas aquelas coisas que te metem na cabeça quando és português... essa mentalidade tão portuguesa de que somos pequeninos, coitadinhos de nós, nunca vamos chegar a lado nenhum.

E o Terry vive as cenas. Quando não gosta percebe-se logo, vê-se na cara, na forma como nos diz para experimentar outra coisa. Quando gosta, também é o maior entusiasta, feliz por ter ficado melhor do que estava no guião. Dá muita abertura a mudanças. Por exemplo, na cena final - acho que posso contar isto, porque o Terry já contou numa entrevista - estávamos a fazer a leitura e, no fim, o Toby transforma-se no Dom Quixote. E, quando estávamos a ler a cena, o Jonathan Pryce, por pura brincadeira de também querer estar na cena final, começou a dizer as falas por cima. E o Jonathan Pryce é que é o Dom Quixote. E, de repente, tudo aquilo fez sentido: o Dom Quixote somos todos. O Dom Quixote nunca morre e está presente em todos nós. Foi um momento tão comovente e bonito, ficámos todos emocionados.

Tenho que perguntar isto, porque sou grande fã: como é que foi conhecer o Adam Driver e a Rossy de Palma?
Eles são super fixes, normais. Eu a Rossi só conheci em Cannes, não filmámos juntas. Conheci-a estava ela a chegar atrasada às fotografias, com um vestido completamente às cores, os fotógrafos malucos.... Ela entra e chama a atenção de qualquer um, emana uma energia espetacular. Gostei muito de a conhecer, ainda que tenha sido pouco tempo.

O Adam, apesar de o ter conhecido de meia na cabeça [risos], foi sempre muito generoso comigo. Antes de filmarmos juntos perguntava-me se eu queria passar a cena, para me sentir mais confortável com o quer que fosse que íamos gravar nesse dia. Demo-nos muito bem nesse aspecto. Ele tem uma característica de que gosto muito: não está nisto para fazer amigos. É trabalho e, quando acaba, cada um vai à sua vida. Eles lá fora são muito assim. Durante os meses de filmagens somos os melhores amigos, bebemos copos e trabalhamos juntos, ajudamo-nos, mas é trabalho e, quando acaba, voltamos todos para a nossa vida real.

Foi assim tanto com o Adam, como com o Jonathan. Três meses muito intensos, depois um ano sem falarmos e, no reencontro em Cannes, foi como se nos tivéssemos visto no dia anterior. São pessoas normais, porreiras. Se o Adam Driver não tivesse dois metros, passava na rua e ninguém daria por ele ser a estrela que é. Se calhar nem sequer o reconhecerias. E isso era das coisas que o Terry mais comentava nele, que não parece um actor, não anda pela vida em modo de celebridade. É só um homem porreiro, com um talento incrível.

Sentes que aprendeste muito?
Muito, muito. Não só como actriz, mas também como pessoa. E não só com a rodagem do filme, mas com todo o alarido à volta dessa rodagem. Não saber se ia estrear ou se não, o processo em tribunal, tudo isto… Deu-me uma calma. Se tiver que acontecer, acontece. Aprendi que não vale a pena entrar em stress. E, claro, só de os observar, vê-los a trabalhar e aprender como trabalham. É completamente diferente. Lembro-me de ter leituras de mesa como nunca tinha visto, a lerem com as intenções todas, a irem experimentando e a arriscarem - a fazerem mal. Cá em Portugal, temos muito medo do fazer mal. Do errar. Já eles, mandam-se de cabeça, fazem a mais, depois a menos, acrescentam coisas… experimentam! É uma genica diferente. Mas, a verdade é que chegam a fazer seis filmes por ano… Que se calhar é o total de filmes que fazemos cá. É outra escala.


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E como foi Cannes, em particular?
Foi muito intenso e não estava à espera de tanta intensidade. Foram dois dias sem parar, perdi quatro quilos nesses dois dias, uma loucura. O tempo todo contado, sempre a dar entrevistas, a andar de um lado para o outro, a vida agendada ao minuto. Entras numa sala e tens 200 fotógrafos com máquinas na tua cara e eu não sou uma pessoa com muito à vontade neste tipo de coisas. Revista, jornais e críticos de cinema do Mundo inteiro... é assustador. Mas pronto, é chegar lá e ligar o chip.

Aconteceu uma coisa engraçada, quando nos apresentaram para entrar na sala da conferência de imprensa, a apresentadora esqueceu-se de dizer o meu nome. O que por mim foi óptimo, já que estava nervosíssima. Mas, o Terry avisou-a, “esqueceste-te da Joana!”. E ela, para se redimir, pediu desculpa e disse, “então a primeira pergunta é para a Joana!”. Tudo o que eu não queria [risos]. Mas, foi fixe. Foi giro estar com eles todos passado um ano e a melhor parte foi ver o filme, depois de toda a polémica e indecisão quanto a se estreava ou não. O ponto alto de Cannes foi, sem dúvida, ver a felicidade do Terry ao ver o filme a ser estreado depois de 30 anos de tentativas e a ser recebido com uma ovação de 20 minutos.

Como é que foi veres-te no ecrã?
Horrível. O ecrã de Cannes é enorme, foi a maior sala de cinema em que já estive na vida. Rodeada de pessoas como a Kate Blanchet e o Benicio del Toro, o director de Cannes, todas aquelas estrelas e pessoas importantes a verem-me em filme. É intenso, porque enquanto estava a assistir ia repensando em toda a minha representação, só porque aquele momento parece crucial, com tanta gente que eu admiro a assistir ao meu trabalho.

Que tipo de filme gostarias de experimentar um dia?
Um filme mudo, a preto e branco. O texto pode muitas vezes ser uma armadilha, ou uma ferramenta facilitadora. Um filme mudo é um desafio completamente diferente. Adorava. Mas, na verdade alinharia em tudo, se a personagem for boa e a equipa também, tenho ainda muito por experimentar.

Se pudesses escolher, com que realizador é que gostarias de trabalhar?
Ui, tantos. Mas, para preferidos teria que escolher Yorgos lanthimos, Jim Jarmush e Wim Wenders. Há todo um rol de pessoas com quem gostava de trabalhar. Ainda hoje estava a falar disto: adoraria fazer cinema em Portugal. Há muitas coisas que gostava de experimentar e de fazer, acho que se a equipa for boa seriam muito poucos os projectos a que diria que não e, entre as coisas que mais gostava de fazer, está o cinema português. Temos tantos cineastas, equipas e actores incríveis! Só nos falta gostarmos um bocadinho mais de nós próprios, deixar esta mentalidade de que o estrangeiro é que é bom, de que nós somos demasiado pequeninos, uns pobres coitados no cu da Europa. Não é verdade! Temos muito para dar e precisamos de dar valor ao que fazemos.


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