Ambiente

A internet polui muitíssimo mais do que achamos

Como era de esperar, a coisa é pior do que imaginas.

Por Antonella Di Biase; Traduzido por Madalena Maltez
27 Setembro 2019, 9:33am

Ilustración por Davide Bart

Este artigo faz parte da Covering Climate Now, uma colaboração internacional entre mais de 250 meios de comunicação para dar maior cobertura a notícias sobre o meio-ambiente.

Alguém que esteja mais ou menos a par do que está a acontecer no mundo podia pensar que a humanidade não sai de uma catástrofe ecológica para se meter noutra. Já se falou muito sobre os agentes mais poluentes do planeta, como as indústrias de aviação e transporte, gado intensivo ou ganância política e corporativa. Mas também há outros poluentes importantes que passaram despercebidos. Por exemplo: a Internet pode ser o meio através do qual te manténs informado sobre todas essas catástrofes ecológicas, mas também tem um impacto tremendo no meio ambiente. Existem inúmeros estudos sobre isso e, no entanto, não se ouve falar tanto do tema. Ninguém nos diz que devíamos usar menos o Netflix ou o Spotify como nos dizem que não devíamos usar palhinhas ou garrafas de plástico.

O sector de TIC em geral - das redes móveis à televisão que tens em casa - está ao mesmo nível de emissões que o sector da aviação, ou seja, é responsável por mais de 2 por cento do total de emissões de gases com efeito de estufa.


VÊ:


Não é fácil calcular de maneira exacta o impacto ambiental de um sector inteiro, já que existem factores complexos que alguns estudos tomam em consideração e outros não. A televisão deve ser incluída? E o impacto da extracção do coltan, um componente indispensável para a produção de microchips? Mas como exemplo representativo da indústria como um todo, só precisas de olhar para o objecto que tens agora na mão.

"Os nossos telemóveis e outros dispositivos digitais têm um impacto considerável no meio-ambiente durante todo o seu ciclo de vida útil, a partir do momento em que são fabricados", explicou-me por e-mail Gary Cook, porta-voz e chefe do departamento de pesquisa de TI do Greenpeace em São Francisco. "As empresas de TI precisam de limpar a cadeia de resíduos e começar a desenhar produtos que permitam que esse investimento desproporcional dos recursos da Terra dure o máximo de tempo possível e, finalmente, que possam ser reutilizados, em vez de descartados", acrescentou Cook. Por outras palavras: devemos evitar livrar-no do telemóvel apenas porque um novo modelo foi lançado ou por ser mais caro arranjar do que comprar um novo.

Além do ciclo de vida dos dispositivos eletrónicos, outro agente altamente poluente do sector são os data centers que oferecem serviços de hosting em nuvem, plataformas sociais e motores de busca. Nesses casos, o impacto ambiental está vinculado às fontes que fornecem a energia necessária para resfriar os servidores. Para evitar o problema, o Facebook transferiu vários dos seus servidores para latitudes polares, enquanto a Microsoft testou enterrar os seus nas profundezas do mar na costa escocesa. Na Apple, afirmam que para as suas operações internacionais usam cem por cento de energia renovável, graças à construção, entre outras coisas, de um império de painéis solares em Cupertino.

Em Fevereiro deste ano, um grupo de pesquisa do Greenpeace, liderado por Gary Cook, publicou um relatório sobre o Alley Data Center, no norte da Virgínia, zona em que se concentra o maior número de centros de recolha de dados do mundo. Também conhecida como o Silicon Valley da costa este, essa área consome uma enorme quantidade de energia, 95 por cento da qual é obtida a partir de hidrocarbonetos. O Alley Data Center alberga 70 por cento dos endereços IP do gigante da computação em nuvem Amazon Web Service (AWS), que oferece serviços a um grande número de empresas e plataformas que usamos todos os dias.

"No geral, o acesso a energia renovável varia de acordo com a empresa e a localização dos seus data centers", diz Cook. “Mas a Amazon e especificamente a AWS, que é o mecanismo de lucro de toda a empresa, não tem limitações geográficas ou de recursos. O ordem foi crescer o mais rápido possível e não pagar por nada que não seja absolutamente necessário ”, acrescentou. "No começo, a Amazon / AWS estava relutante em assinar qualquer compromisso de mudar para energia renovável, embora finalmente o tenha feito em 2014". Cook garante que a empresa de tecnologia abandonou o seu compromisso. "Na Virgínia e noutros sítios, eles passaram por um período de rápida expansão em que não usaram energia renovável".

Gary Cook é um dos investigadores da ClickClean, um site no qual grandes empresas da Internet são avaliadas com base no uso de fontes de energia renováveis e outros factores, como transparência, eficiência e apoio a diversas causas. Segundo dados de 2017, as aplicações vinculadas à Apple, Facebook e Google têm as melhores pontuações. Amazon, Netflix, Twitter e Soundcloud, por outro lado, continuam a usar energia proveniente, principalmente, de hidrocarbonetos. Segundo o relatório, têm também sérios problemas de transparência.

Em 2011, a Google divulgou os dados da sua pegada de carbono, algo que outras empresas do sector não fizeram. Muitas vezes é difícil fazer estimativas fiáveis. "As empresas devem fornecer essas informações aos utilizadores", diz Cook. “Sobre a Netflix, por exemplo, temos dados de streaming de vídeo no nosso relatório ClickClean de 2017 e iremos corrigir a nossa percepção da empresa quando publicarmos os dados actualizados neste Outono. Eles trabalham com a AWS. ”

O streaming de vídeo representa uma parte considerável do tráfego de dados e pode ser regulado com mais cuidado. A Netflix, especificamente, abrange 15 por cento do tráfego total, de acordo com um relatório da Sandvine, que são mais quatro pontos percentuais do que o YouTube. É por isso que o Greenpeace lançou a petição “Tell Netflix to go green” e se converter às energias renováveis.

Portanto, mesmo que quisesses parar de andar de avião, que passasses a ir sempre de bicicleta para o trabalho e te tornasses vegan, estarias, ainda assim, a contribuir para a deterioração do meio ambiente simplesmente por ler este artigo no teu telemóvel ou computador. Uma solução óbvia seria não nos conectarmos tanto e apagarmos as aplicações que não fazem esforços ambientais e cancelar a subscrição de e-mails desnecessários -surpreendentemente, ao que parece são muito prejudiciais para o meio ambiente- e passarmos a usar motores de pesquisa que ajudam a reflorestar o planeta, como o Ecosia. No fundo, trata-se de tentar usar mais a Internet para fazer boas acções, como assinar petições e apoiar a luta de grupos activistas pelo direito à reparação, por exemplo. E, claro, chatearmo-nos com os nossos líderes políticos.


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