Um fim-de-semana de swing nas Cataratas do Niágara

A VICE teve acesso exclusivo à decima edição da festa para swingers mais mítica do Canadá.

|
out 9 2017, 6:53pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Estou sentada nos "calabouços" de um hotel em Niagara Falls, Canadá. Na verdade, é apenas uma sala de conferências normal, com paredes cinzentas e beges, mas agora ninguém aqui está propriamente a pensar no cenário.

À minha frente, uma mulher com uma moicana turquesa e que dá pelo nome QueenEh, chicoteia o seu sub - um homem vendado, amarrado a um varão de striptease - com um chicote de cabedal encarnado. A pele do homem fica vermelha e depois incha a cada chicotada. Directamente à minha esquerda, Lindsey*, uma loura com uma tiara na cabeça, está de joelhos a fazer sexo oral ao seu parceiro; os seus braços e mãos estão amarrados atrás das costas com uma corda cor-de-rosa. Ao fundo da sala, estão a lançar laca de cabelo para partes do corpo de uma mulher deitada numa mesa e depois a atear-lhefogo. À minha direita há uma mulher suspensa no ar por um arnês vermelho.

"A isto é que eu chamo swing", sussurra um espectador.

QueenEh. Todas as fotos por Melissa Renwick

O hotel, absolutamente normal em todas as coisas, foi transformado num antro de hedonismo para o Niagara Falls Lifestyles Convention, um evento de Dia dos Namorados dedicado a swingers e que já vai na sua décima edição. Organizado por uma empresa chamada TABOTA, que também está aos comandos do The O Zone Swingers Club, em Toronto, atraiu este ano 400 pessoas.

Ao entrar, vemos imediatamente todos os elementos kitsch que seriam de esperar: rosas artificiais, corações de renda, preservativos, esponjas menstruais e doces em formato de coração espalham-se pelos corredores. Para evitar que pessoas de fora consigam ver o que aqui acontece, as portas de entrada foram cobertas com papel. Eu e a minha fotógrafa - as duas virgens neste "estilo de vida", como dizem os swingers - tivemos acesso total para documentar os trabalhos dofim-de-semana. Como parte do acordo, não podemos identificar em que hotel o evento acontece.

Chegamos e vamos para o salão da piscina, que tem uma vibração bastante inclusiva - há um buffet, um bar e até um professor de salsa - só que algumas pessoas estão nuas. Os trajes de quem está vestido variam entre camisas havaianas e vestidos de Verão a macacões e roupas de vinil preto.

O primeiro casal com quem falamos, Kevin, 49 anos, e Morgan, 50, fazem swing há décadas; levam-nos ao seu quarto para nos darem uma perspectiva histórica e dizerem-nos o que devemos esperar. As regras não mudaram muito com os anos, como sublinham. Primeiro: não, significa não, pede antes de tocares e pratica sexo seguro.

"Há muita gente que chega ao clube e pensa que é só foder", diz Morgan, que tem cabelo louro claro até aos ombros e está recostada na cabeceira da cama com um biquíni vestido. E acrescenta: "No entanto, as pessoas têm de estabelecer ligações".

O casal está a comemorar 14 anos de união e diz que só começou a fazer swing depois de namorarem há um ano e meio. Morgan, que é bissexual, diz que as coisas não resultaram com o seu ex, porque não tinham uma relação boa. "Gostávamos de brincar, mas separados", diz, recordando que, antes de se juntar a este estilo de vida, o seu marido a traía.

"Muitos casais pensam 'ok, vamos tentar o swing e isso vai resolver os nossos problemas' e não vai, só os vai piorar", acrescenta Kevin, que veste uma t-shirt com letras viradas de lado que diz "Se virares a cabeça para leres a minha t-shirt, deves-me um broche".

Lindsey amarrada

O casal "brinca" sempre junto, muitas vezes em busca de outros casais, o que, na verdade, parece ser complicado. "Procuramos uma química entre todos os quatro", garantem. Dizem ainda que não sentem pressão para se envolverem com alguém aqui; vieram relaxar e, se acabarem "na brincadeira" com outros, será um bónus. Dito isto, os dois estão mais que dispostos a pinar. "Queres saber com quantas pessoas já fiz sexo? Não tenho ideia", diz Morgan. E explica: "Se fodi com o marido, também fodi com a esposa. Centenas".

Com isto em mente, dirigimo-nos à zona da piscina para o concurso de t-shirt molhada, ao estilo swing. "Vamos lá ver algumas mamas a abanar!", grita um tipo atrás de mim. O seu desejo é imediatamente atendido. A coisa começa com 15 miúdas de manga cavada branca e 10 gajos de cuecas boxer pretas (o que não parece justo), que, depois de molhados com um canhão de água, rodopiam, fazem striptease e esfregam-se nas escadas da piscina. Um dos homens começa a fazer flexões e a encostar a pila ao chão de cada vez que desce.

Com base na reacção da plateia, são apurados cinco casais e o apresentador pergunta: "Já ouviram falar em sundae humano? Parece ser delicioso". As mulheres deitam-se no chão, enquanto os parceiros cobrem os seus corpos com gelado e coberturas de sundae. O gajo das flexões coloca chantilly na vagina da parceira e parece fazer-lhe sexo oral, enquanto outro mete uma banana em cima das partes íntimas da companheira. Pensei que o primeiro casal ia ganhar, mas o prémio vai para o que fez a maior javardeira, que inclui Lindsey, a sub que mais tarde vejo a fazer um broche com a sua tiara de vencedora.

Lindsey leva a coroa do concurso de t-shirt molhada.

Nesta altura, estamos com fome e vamos ao restaurante do hotel. Um casal norte-americano que está ao nosso lado no bar pergunta porque é que estamos a fotografar. Quando dizemos que trabalhamos para a VICE, a esposa, Tracy*, fica super entusiasmada.

"[O meu marido] está sempre a dizer que eu devia ser actriz porno", conta, com um sotaque do norte do Estado de Nova Iorque. Tracy é uma morena baixinha, que ganha a vida a passear cães e parece muito mais jovem - tem 40 anos -, principalmente com o cabelo apanhado em totós. O marido, Craig*, bancário, é meio atarracado e fala com uma certa rouquidão.

Tracy é uma doçura e, honestamente, não é alguém que esperaria encontrar numa festa de swing. Talvez seja só por causa do penteado, mas parece muito inocente. As suas palavras, porém, revelam o contrário.

Tracy, uma mãe do norte do Estado de Nova Iorque.

"Fiz sexo oral a uma mulher ontem à noite pela primeira vez", diz entre risos. E garante: "Foi incrível". O casal, namorados de liceu e casados há 22 anos, está num site para swingers, que custa cerca de 150 dólares por ano e foi lá que ficaram a saber do evento em Niágara. Têm dois filhos, de 18 e 22 anos, e dizem que a família e amigos não podem saber sobre este passatempo.

Descobriram este estilo de vida há apenas um ano; o interesse começou quando fizeram sexo numa praia em Aruba, na Venezuela, ao lado de outro casal. "Conversámos, mas não nos tocámos... Foi muito sensual", diz Tracy. Craig é hétero e curte ver Tracy a envolver-se com mulheres e homens tanto quanto gosta de também ele se envolver. Quanto às preferências de Tracy, diz que se sente muito atraída por "pilas negras".

Craig diz que o casal aproveita estas viagens de swing como uma desculpa para escapadinhas de fim-de-semana, o que também permite que evitem apegar-se muito a algumas pessoas. Depois de escapadinhas destas "ficas meio atordoado durante três dias".

Jason, veterano do exército americano.

De regresso ao hotel, cruzamo-nos com o tipo das flexões, um veterano do exército norte-americano chamado Jason. Está claramente bêbado e leva-nos imediatamente para o seu quarto, dá-nos beijos molhados e encoraja-me a tocar-lhe nos testículos. Eu concordo (em Roma, sê romano e essas cenas...).

Jason, 36 anos, é um rapaz charmoso e parece inofensivo, mas também faz o tipo "bro universitário" - o seu tom provocador destaca-se na multidão. A sua mulher, que usa o pseudónimo Jessie Jewel, entra no quarto para ver o que se está a passar e sinto-me imediatamente constrangida, especialmente porque ele continua a dar-me beijos atrás da orelha e a tentar tocar-me no rabo.

A esposa parece acostumada. "Ele é um maníaco. Acha que acabou, mas nunca acaba", revela. Acontece que ela é médica e oferece-me amostras de uma bebida com óxido nítrico que supostamente "estimula os teus órgão sexuais" ( fiquei com algumas, mas ainda não experimentei).

Jessi Jewel conta-nos sobre o quarto de um gajo que tem um baú de brinquedos BDSM, incluindo varinhas que dão choques. Saímos imediatamente para o procurar. E não ficamos desapontadas. Liam*, o mestre dos brinquedos, mostra-nos cada um dos apetrechos - chicotes, vibradores, palmatórias.

Liam mostra-nos os seus brinquedos e cobre QueenEh com pingos de cera de uma vela

"Este chama-se evil motherfucker", diz, referindo-se a um chicote de cavalo. E aqui encontramos QueenEh, a mulher da moicana azul, e Lindsey, a vencedora do concurso de t-shirt molhada. São ambas subs de Liam.

QueenEh tira a roupa e deita-se na cama, enquanto Liam lhe bate com um chicote de cabedal. Pergunto-lhe se dói muito e ela responde: "O meu parto foi sem anestesia, isto é 20 por cento do que senti dessa vez". Depois, ele acende duas velas e deixa cair pingos de cera azul sobre o corpo de QueenEh. Mais tarde, o seu parceiro, que observa tudo, retira-lhe a cera e estimula-a com a mão até ela ter um squirting, gemendo alto.

Revelo a QueenEh que não sei onde fica o meu ponto G e comparo o meu pequeno vibrador (que trouxe na carteira) com o vibrador gigante dela. "Agora, até fiquei com vergonha", digo-lhe. "Ah, minha querida", responde-me ela com um ar de quem ficou um bocadinho triste por mim.

Em seguida, Liam dá-nos um curso rápido sobre brincadeiras eléctricas. Basicamente, ele tem um gerador eléctrico portátil que liga ao seu corpo, depois a corrente passa através dele e, usando acessórios, consegue transferir a electricidade para outra pessoa (até mesmo ao clitóris). Sobre os pompons carregados electricamente, explica: "Alguém uma vez descreveu isto como ser picado por mil mosquitos".

Com uma voltagem baixa, Liam testa alguns acessórios de vidro nos nossos braços. Pica um pouco e faz zumbido, mas não é algo intenso. Então, Lindsey, que acabou de ter os braços amarrados nas costas por outra mulher, curva-se na cama e ele demonstra algumas das voltagens mais fortes.

Liam dá choques a Lindsey com o seu pompom eléctrico.

"Querem ver uma cena fixe? Apaga a luz", pede. Alguém apaga a luz do quarto e tudo o que se consegue ver é o brilho roxo do brinquedo eléctrico e ouvir Lindsey a gritar de dor (e prazer?).

À medida que a noite passa, encontramos pais que tinham acabado de ter um bebé, um jovem casal que diz estar aqui principalmente para "namoriscar" e passamos por uma gincana de perguntas, um karaoke e um baile em que só passam sucessos dos anos 2000, como "Hot in Herre", de Nelly.

O baile
Pessoas em acção

Também há muita gente a pinar, obviamente. A pinar na piscina, a pinar nas mesas de piquenique, a pinar num quarto no segundo andar onde há três câmeras para acomodar um gang bang. Mesmo as pessoas dentro dos quartos deixam as cortinas abertas para que toda a gente possa dar uma espreitadela.

Essa abertura ao voyeurismo parece ser tão atractiva como o sexo. Morgan, a cam girl com quem começámos a noite, é uma das únicas que diz que podemos usar o seu nome real. Mesmo assim, ela acredita que os seus amigos a tratariam como uma "leprosa" se descobrissem sobre o swing.

"Não somos diferentes, é só algo que gostamos de fazer com outros adultos e com consentimento", sublinha. E conclui: "Um dia vou ter de usar aqueles andarilhos e ainda vou dizer 'querido, dá-me por trás'".

*Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.

Segue Manisha Krishnan no Twitter.

Segue Melissa Renwick no Instagram.

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.

Mais da VICE
Canais VICE