reportagem

Vai ser difícil achar café decente em 2050

Estudos mostram como as mudanças climáticas vão dificultar a produção do grão no futuro.
Lia Kantrowitz
ilustração por Lia Kantrowitz
MS
Traduzido por Marina Schnoor

Esta matéria é parte de uma investigação da VICE sobre como as mudanças climáticas vão mudar o mundo até o ano 2050. Leia mais sobre esse projeto aqui .

Enquanto escrevo isto, estou bebendo minha quarta xícara de café hoje. Não porque adoro torrar US$3 (cerca de R$ 9) mais gorjeta a cada duas horas por uma infusão de grãos amargos e água, mas porque sou desesperadamente viciado (e sim, OK, eu curto o ritual). Se você não é viciado como eu, a bebida pela qual todo mundo é obcecado oferece vantagens impossíveis de medir em níveis de atenção e energia. Nós, os zumbis clichês que insistem que ninguém fale com a gente antes de queimarmos a língua com líquido marrom quente pela manhã, atribuímos à bebida uma tarefa sísifica: evitar os sintomas horríveis de abstinência de café (que incluem prisão de ventre). Fora isso, o maior efeito do Grão do Capeta é causar insônia — o que às vezes queremos, às vezes não.

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Beleza então, porque parece que vamos ter que nos contentar com bem menos café até o ano 2050 — pelo menos do bom.

Nas palavras do meu amigo e ex-colega de trampo Drew Millard: "Por causa de sua onipresença, café é algo que as pessoas gostam de pesquisar, e depois publicar os resultados da dita pesquisa". Drew falava sobre pesquisas que medem os efeitos da bebida na saúde, mas um número cada vez maior de estudos acerca dos efeitos do aquecimento global provocado pelo homem na agricultura de café, pintam o retrato de um futuro onde essa onipresença será seriamente questionada.

Se você gosta de generalizar (e eu gosto muito, dentro do razoável), o mecanismo básico que faz os pés de café serem sensíveis às mudanças climáticas envolve temperatura e altitude correspondente. "Café arábica é altamente sensível a mudanças de temperatura, já que isso afeta a fisiologia da planta, e enquanto as temperaturas forem subindo no futuro, áreas adequadas para a plantação de café devem subir de altitude", me disse Pablo Imbach, do Centro Internacional de Agricultura Tropical, por e-mail. "Como resultado, terras baixas mais quentes se tornam impraticáveis para o café."

A cepa arábica, que ama terrenos altos, corresponde a 60% do café consumido. Enquanto isso, as fazendas mais baixas que produzem o primo do café arábica, o robusta, rendem um produto menos popular que serve principalmente para ser transformado em café instantâneo. O arábica está encrencado, segundo um estudo publicado pelo jornal Nature's Plants em junho, de autoria de uma equipe que inclui o pesquisador de biodiversidade Justin Moat do Royal Botanic Gardens, Kew. O estudo, desenvolvido na Etiópia — o berço da agricultura de café arábica —, diz que 60% da agricultura de café da Etiópia será impossível até 2100. O cientista botânico Sebsebe Demissew, da Universidade de Addis Ababa, Etiópia, e coautor do estudo, lamentou para o Quartz que o arábica esteja desaparecendo, já que a cepa já foi considerada o "presente para o mundo" da Etiópia.

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Metade das terras apropriadas para produção de café podem desaparecer até 2050.

O que acontece quando há uma safra ruim de café? No passado, escassez significou preços mais altos para o café arábica. Escassez no futuro provavelmente vai significar preços mais e mais altos para o arábica, e é razoável acreditar que a qualidade acabará do grão ficará comprometida. Mas como Taylor Ricketts, do Instituto Gund de Meio Ambiente da Universidade de Vermont, disse ao NPR no começo do mês: "Tem muito mais em jogo aqui do que 'Meu espresso vai ficar mais caro?' As mudanças climáticas vão ameaçar o meio de vida de milhões de pessoas em comunidade vulneráveis de todo o mundo".

Mas não é só os grãos arábica que estão em perigo. O café como um todo está ameaçado. Um pouco mais de dois anos atrás, saiu um estudo de autoria de Christian Bunn, também do Centro de Agricultura Tropical (que me informou que não está envolvido com a companhia de café Bunn). O estudo dizia que metade das terras apropriadas para produção de café podem desaparecer até 2050. Para deixar claro, as terras apropriadas não somem do mapa. Em vez disso, as terras onde o café pode ser cultivado hoje deixam de ser apropriadas para a produção, me explicou Imbach. Tudo por causa de "uma combinação de efeitos resultantes do aumento de temperatura (no futuro) e mudanças nos padrões de chuva".

Porto Rico é um caso ilustrativo de "desaparecimento" de fazendas de café devido a temperaturas mais altas e chuvas tropicais extremas. Em 1899, Porto Rico era o sexto maior produtor de café do mundo, mas Stephen Fain, coautor de um estudo do começo do ano para o Departamento de Agricultura dos EUA, disse em seu relatório que "Cenários de emissões mais altas de gases-estufa projetam aumentos de temperatura, sem adaptação, que vão tornar o cultivo de variedades tradicionais como o arábica um desafio". Estima-se que Porto Rico tinha 770 quilômetros quadrados de terras cafeeiras em 1899, mas naquele ano o Furacão San Ciriaco destruiu toda a safra de café. Terras aptas para o plantio de café declinaram desde então. Segundo o relatório de Fain, aqueles 770 quilômetros quadrados de 1899 vão despencar para estimados 24 quilômetros quadrados entre 2071 e 2099.

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As mudanças climáticas farão as terras onde café pode ser plantado na América Latina serem reduzidos de 73 a 88% até 2050.

O último estudo do Centro Internacional de Agricultura Tropical, publicado em agosto, vem de uma equipe de pesquisadores que inclui Imbach, e pinta outro retrato sombrio: as mudanças climáticas farão as terras onde café pode ser plantado na América Latina serem reduzidos de 73 a 88% até 2050, dependendo do modelo de aquecimento aplicado. (Como você já deve saber por ler matérias sobre mudanças climáticas, modelos climáticos levam em conta a taxa em que a humanidade pode diminuir as emissões de gases-estufa, e essa taxa continua uma questão em aberto.)

Para tornar a questão ainda mais assustadora para viciados em café, o efeito não está limitado apenas a América Latina — essa era só a área sendo estudada nesse caso. "Estudos globais indicam tendências similares com grande perda de terras no Brasil e no Sudeste Asiático, e padrões variados nessas regiões seguem a tendência das áreas apropriadas para o plantio indo para altitudes cada vez maiores", me disse Imbach.

Segundo pesquisador, esse dano pode ser mitigado se prestarmos atenção em, bom, abelhas. Há uma relação complicada entre mudanças climáticas, café e abelhas. Diferentes espécies de abelhas são prejudicadas por mudanças climáticas em taxas diferentes, e enquanto isso, sua polinização tem impactos diferentes em plantações de café. O relatório de Imbach explora essa complexidade profundamente. "Avaliar os efeitos ligados das mudanças climáticas e sustentabilidade de plantações e polinização pode ajudar a encontrar as práticas de gerenciamento apropriadas, incluindo conservação de florestas, ajuste de sombra, rotação de plantio ou status quo, em diferentes regiões", diz o relatório.

"Nosso estudo mostra diferentes tipos de mudanças ligadas entre abelhas e café", ele me disse. Consequentemente, ele aconselha os agricultores a prestar atenção nessas mudanças. De maneira mais geral, ele diz que eles devem considerar diminuir o uso de pesticidas e cultivar plantas que atraem abelhas perto das plantações de café. Ele acrescentou que "abelhas podem continuar a prestar um serviço aos agricultores mesmo sob as mudanças climáticas".

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