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finanças

Passei uma semana a comer com um euro por dia

Os golfinhos não são peixes, a madeira arde e o homem foi feito para sofrer.
1.11.14
homem com pacote de bolachas na mão

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

O Euro, esse amigo fugaz. Não faças confusão, não estou a falar do euro como unidade monetária. Mas sim como objecto circular, esse representante do valor mínimo (que me desculpem as minhas queridas moedas acobreadas). O euro como unidade básica, como a promoção do supermercado, o euro como miséria e o euro como forma de vida. Amigos, estamos encalhados na cultura da pobreza, presos às costas de uma serpente que se come a si própria. Pobres, que compram coisas pobres e enriquecem um sistema de pobres.

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Mas é que os golfinhos não são peixes, a madeira arde e o homem foi feito para sofrer. É por isso que o euro nos define, faz parte da nossa tese existencial. Agarramo-nos a esta moeda como se ela fosse o único ramo que nos impede de cair no vazio. Será possível na nossa sociedade viver com o valor mínimo? A partir da VICE - mais concretamente a partir da nossa sede de marfim edificada na cidade portuária de Barcelona - decidimos encomendar a um redactor a difícil tarefa de sobreviver, durante uma semana, usando só um euro por dia.

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Estas eram as regras do jogo:

1) Um euro por dia como limite máximo (pode ser menos, mas não mais).

2) O dinheiro deve consumir-se nesse mesmo dia. Não é o mesmo ter um euro por dia que sete euros por semana (assim era fácil).

3) A comida não é acumulável. Cada dia há produtos novos. Não vale comprar um pacote de arroz e aproveitá-lo o resto da semana. No caso de quereres arroz teria de comprar um pacote novo todos os dias.

4) Variedade é na boa.

5) O troco de cada dia não se pode aproveitar. O dinheiro caduca, morre no dia seguinte.

6) Podes investir o teu euro onde melhor te aprouver e qualquer mercado é lícito.

7) É permitido o uso de açúcar, sal, azeite e esse tipo de complementos. Também podes usar o fogão e electrodomésticos. E pronto vá, pratos, facas, mesa, etc. Também não é preciso comer com as mãos, sentado no chão.

A dificuldade consiste em almoçar e jantar com aquilo que uma simpática moeda de um euro providencia. No meu caso, o pequeno almoço e, claro, o lanche, foram extintos da dieta há muitíssimo tempo, por isso foi super fácil ignorá-los para poder adaptar-me a estas novas normas. Dizem que o pequeno almoço é a refeição mais importante do dia. Mas, se é assim tão importante, porque é que só comemos uma tacinha de cereais e um café, em vez de uma bela dourada no forno, ou uma jardineira? Esta teoria não tem pernas para andar. Ainda por cima, nunca acordo antes do meio-dia, portanto problema resolvido.

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Dia #1

Um gajo acorda animado, com muita vontade de começar este "projecto", porque no fundo a vida está cheia destes pequenos objectivos a curto prazo. Os resultados imediatos não são tão efectivos como os que vamos forjando ao longo dos anos, mas são altamente gratificantes, sobretudo para alguém cujo único objectivo é ser enterrado com roupa.

Desde o momento em que o meu patrão - D. Juanjo, o do escritório lá de cima, que tem ar condicionado e duas lareiras (?) - me disse para escrever este artigo, comecei a pensar em menus compatíveis com a minha nova economia. Devido ao meu passado de extrema pobreza considero-me um pro do low budget (*durante anos chamei-lhe "o jogo do euro", era mais fácil de explicar à minha filha, como naquele filme, "A vida é bela"), no entanto nunca me tinha deparado com um orçamento tão limitado, nem com estas regras tão cruéis.

No primeiro dia dirigi-me ao meu supermercado de confiança, o mais barato, claro, e fui directamente a um dos produtos que tantas vezes me salvou nos momentos mais "delicados", sobretudo depois do divórcio. O menu do primeiro dia foi uma apetitosa sopa de pacote, de "aves com aletria" (0,45 €) e uma beringela (0,28 €). O preço total foi de 0,73 €. Foda-se, era só o primeiro dia e já tinha excedente, a coisa ia de vento em popa. Mas pronto, as regras dizem que o que sobra não conta. A melhor opção é tentar aproximar-me ao máximo de 1 €, qual bola de petanca.

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Vê também: "Como fazer um molho para saladas que te vai deixar muito feliz"


O mais importante é pensar em produtos que possam dar para duas refeições. Deste pacote de sopa em pó pode sacar-se um litro de líquido (ou mais, dependendo da água), o equivalente a dois pratos de sopa bem servidos. Tinha duas opções, ou esta de aves, ou outra de "caldo de galinha com aletria", mas preferi a primeira, pareceu-me mais sofisticada e saudável. Consumir tantos líquidos num só dia hidrata-te, nota-se na tua pele. E, embora não valha nada (é um caldo salgado transformado em pó), o meu estômago não se queixou. Digamos que, como bom exemplar humano do século XXI, estou totalmente preparado para absorver este tipo de comida desconstruída.

A beringela - e as verduras, no geral - é o melhor amigo do homem pobre. Com esta merda podes dar de comer aos sete filhos que tens na Eslovénia e que nem sabes que existem. Fiz beringela grelhada (sem azeite nem nada), comida saudável e sem gorduras. A linha agradece. Não fiquei com fome. Na verdade foi bastante parecido ao que como normalmente. Vou tentar ser mais rápido nas explicações dos próximos dias. Peço desculpa, é a emoção.

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Dia #2

Menu A casa do Rodellar

Primeiro prato: Lentilhas com azeite e sal.

Segundo prato: Futebolas.

Sobremesa ou café: Não.

Água da torneira.

Preço: 0,79 €

No segundo dia tudo ok. As expectativas eram altas, depois de um primeiro dia glorioso. Portanto voltei ao supermercado barato. Como sabem, um dos clássicos das pessoas sem dinheiro são os legumes e toda uma panóplia de possibilidades entusiasmava os meus olhos esbugalhados de morto de fome: lentilhas, grão de bico, feijão e sonhos, muitos sonhos. Trouxe as lentilhas pré-cozinhadas (0,49 €) porque o meu orçamento não dava para as cruas. (Um tempo depois fui a outro supermercado também barato e vi uma promoção de 0,36 € o frasco, fui-me um bocado a baixo). Mas precisava de um acompanhamento e recorrer novamente às verduras seria demasiado fácil.

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Meti-me nisto pela emoção do desafio, não podia render-me a esse tipo de comodidades. Procurei em todas as prateleiras e corredores e confesso que foi difícil encontrar um alimento que custasse 0,51 € ou menos. Vinte minutos depois, e com o frasco das lentilhas na mão, decidi-me pelo elemento que me ajudou a criar um dos pratos mais incríveis deste artigo: um pacote de Futebolas. Esta bolsa contém uma quantidade generosa de snacks salgados, a um preço muito acessível (dos mais baratos da sua gama). E, sim, acabei de usar a palavra snack.

O primeiro dia correu melhor, mas pronto, sobrevivi. Um frasco de lentilhas não tem a quantidade ideal para duas refeições, mas as Futebolas deram conta do recado, com os seus corantes, conservantes, açúcares e gorduras saturadas.

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Dia #3

Os dados estavam lançados, o jogo tinha começado. Mas faltava saber o resultado. Podia continuar a arriscar-me assim no jogo da vida? Claro que sim! No terceiro dia quis ser positivo, dar a volta à coisa, ver o lado bom. Quis dar uma lição (simbólica) ao meu patrão. Fui a uma frutaria e comprei batatas, cenouras e cebolas e, por menos de um euro (0,97 €), fabriquei uma fantástica sopa de verduras.

A quantidade foi espectacular, podia ter vivido vários dias à base daquilo, podia, inclusive, ter tomado banho em sopa. Podia ter pintado o meu apartamento. Depois de comê-la pela segunda vez disse basta. São verduras e o corpo agradece, mas é uma seca de comida. Quem é que raio adora sopa?

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Dia #4

Pronto, o dia da linguiça. Por 0,99 € comprei uma linguiça de um metro e tal. O meu corpo pedia carne e não podia negar-me a esta promoção. O resultado foi épico e mau. Enquanto a fritava, começou a formar-se uma espécie de teia de aranha à volta. Era a pele que estava a despegar-se da carne. O cheiro que emanava daquilo impregnou a minha casa durante um dia inteiro. Mas nada demasiado rocambolesco para alguém que aos 33 anos acabava de descobrir o significado da palavra "gentílico".

Pela primeira vez esta semana um prato soube-me a pouco. A intensidade e o terror do momento não camuflaram o pouco que havia para comer. Deitei-me na cama e senti que o meu corpo pedia mais alimento. Ali estendido, perguntei-me o que é que andava a fazer à minha vida. Não tinha a ver com este artigo em especial, ou com esta cena de comer por um euro. Mas o que é um gajo da minha idade (provavelmente, a meio da sua existência) faz em Barcelona, em vez de estar em Hollywood rodeado de garrafas de Moët & Chandon, enquanto envia whatsapps "picantes" a uma Natalie Portman um bocadinho fora de prazo.

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Dia #5

Tive um dia de loucos (papéis, facturas, tatuar uma mancha negra nessa parte do braço onde em tempos tatuei "Ariadna",…) e não quis complicar mais as coisas. Tinha noodles de gambas (o mais perto que alguma vez estive do oceano) mas uma colega de trabalho recomendou-me uns croquetes de frango de um supermercado barato (0,99 €). A embalagem tinha imensos - 18 exemplares - por isso pude almoçar e jantar sem o menor dos problemas. Uma coisa é certa, estas filhas da mãe chupam azeite comó camandro, o que te deixa um bocado triste e cansado. Mas fome, nível zero. O dia transformou-se em noite, a noite transformou-se em dia e eu continuava vivo.

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Dia #6

Era sábado e eu ia passar o dia fora de casa. Chamam-lhe vida social. Para evitar andar pela vida com um tupperware cheio de arroz cometi o erro mais básico desta pequena aventura culinária. Fui ao supermercado do costume e comprei umas bolachas chamadas "Relieve" (0,99 €). Adoro a sinceridade com que nos trata este franchising alemão. Realmente a porra das bolachas tinham um relevo impressionante. Na embalagem estava escrito que contêm "a energia necessária para começar bem o dia" e que me caia um raio na cabeça se isso não era o que eu precisava: começar e terminar BEM o dia.

Tinha a intenção de aguentar-me com um pacote, mas a verdade é que à hora de almoço já deitava bolachinhas pelos olhos (a ideia era ir "picando" e desprender-me dessa ideia ancestral e caduca de dependência dos rituais gastronómicos que regem a nossa agenda). Durante este sexto dia cometi aquilo que se pode considerar a única "batota" deste projecto, pois esperei que chegasse a meia-noite para poder comer um pouco do manjar que me esperava no dia seguinte. Acho que me entendem. Oficialmente já era o dia seguinte e eu estava a morrer de fome. Temos de ser conscientes dos nossos limites. Somos seres mortais, esta é a nossa benção e o nosso inferno.

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Dia #7

Já estamos a chegar ao fim da nossa viagem. Terá valido a pena? É mais importante o caminho ou o destino? Isso, amigo leitor, vamos descobri-lo já a seguir.

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A comida que tinha preparada para o domingo era uma barra de pão tipo "baguette" (0,35 €) e um pacote de salsichas com queijo (0,59 €), tudo do supermercado mais barato. Já não tinha o pão inteiro nem todos os cilindros de carne, dado que a fome do dia anterior me tinha obrigado a roubar ao meu "eu" do futuro um pouco de comida. De qualquer forma, havia suficiente matéria-prima para me sentir satisfeito. Para lhe dar um toque mais alegre utilizei - com a vossa devida autorização - uns pacotes de ketchup e mostarda que adquiri gratuitamente no dia anterior, no McDonalds (o meu "eu" do passado a pensar no meu "eu" do futuro, bem jogado).

Desde que deixou de trabalhar com a Heinz, esta empresa de fast food perdeu pontos. Foi um grave erro deixar que o Burger King ficasse com a exclusividade desta marca de molhos.

Terminada a semana, estas são as contas:

Segunda: 0,73 €.

Terça: 0,79 €

Quarta: 0,97 €

Quinta: 0,99 €

Sexta: 0,99 €

Sábado: 0,99 €

Domingo: 0,94 €

Excedente: 0,60 €

Se é importante ter em consideração que vivemos num País em crise, onde existe uma taxa alarmante de desnutrição infantil e muitas famílias têm de desenrascar-se com muito menos que um euro por dia, o mais triste de tudo é ver como estamos imersos na cultura do euro, que o único que faz é tolerar e aceitar este nível de pobreza das famílias.

Em vez de tentar solucionar os problemas de raiz, louvamos e apoiamos a cultura da pobreza. Temos a moeda como um totem messiânico que nos guia e nos deixa viver. É o peso de uma espiral infinita que não nos permitirá nunca abandonar este sistema de escravidão. Tanto é assim que, sim, é possível viver com um euro por dia e tudo aponta para que no futura o seja ainda mais. Que seja algo saudável e nos permita viver decentemente, isso já é uma coisa completamente diferente.

*É brincadeira pá. Mas o que é que vocês pensam?".


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