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A melhor francesinha de Lisboa é tão boa como algumas míticas do Porto

O tema é polémico. Pode até ser, literalmente, "fracturante". Sabemo-lo bem. Mas está dito e não mexe mais. Nesta lanchonete é tudo à moda do Porto... e nota-se.

Por João Brilhante
13 Abril 2016, 9:35am

Tenho um amigo que é doido por francesinhas. Doente. O homem transforma uma refeição de francesinhas num ritual, que só visto. Quando vai ao Porto, ao chegar aos Carvalhos, já deve ir a salivar que nem um cão danado. Só pensa no momento em que se vai sentar numa mesa do Café Pontual e dar cabo de uma francesinha ultra picante e empinar uns 20 finos.

Se estiver acompanhado, espera que toda a gente coma e só depois é que se atira ao bicho. Está ali o tempo que for preciso. No final da cerimónia pede ao empregado para encher um tupperware de molho para levar para casa. E mais um fino. Mal ele sabe que em Lisboa também há disto e como deve ser.

Cheira a Porto, sabe a Porto e até se vê o Porto (carago)! Todas as fotos pelo autor.

A francesinha do Dom Tacho, entre o Campo Pequeno e a Avenida de Roma, já não é segredo para ninguém, até porque, segundo Joaquim Valente, um dos sócios, "a Benfica TV já cá andou a fazer uma reportagem...dizem eles que é um dos melhores sítios em Lisboa para comer uma francesinha e ver a bola".

Não é todos os dias que concordo com a BTV, mas lá que desta vez têm razão, têm.

O Joaquim não é só Valente de nome e arrefinfa-lhe no picante em modo categoria máxima.

Não sei se estás a ver o que é uma lanchonete, mas o Dom Tacho está nessa categoria. Ou seja, do meio-dia à meia-noite há petiscos e refeições variadas a sair da cozinha, tudo à moda do Porto, e não pagas mais de 10 euros em média. Até o Leitão da Bairrada, dá-me ideia que vai ao Porto ganhar balanço antes de aterrar em Lisboa. Aqui a cerveja é lá de cima: Sovina. Mas se for too much o alfacinha pode sempre pedir uma Sagres para não se sentir tão longe na própria casa.

Nestes últimos tempos tenho sido tratado como um rei pelo Joaquim Valente. Bastou dizer-lhe que precisava de tirar umas fotos à francesinha para a VICE e não descansou enquanto eu não provei as especialidades da casa. A saber: Bifanas à Moda do Porto, Tripas à Moda do Porto, Pica-Pau à Moda do Porto e Francesinhas. Já te disse que aqui é tudo à Moda do Porto, não já? Portanto, estás a ver bem a dieta aqui do rapazinho nos últimos dias...

Isto é um Pica-Pau. Tem tostas e molho de francesinha à parte. Chora.

Nem sei por onde começar, mas as bifanas são do melhor que já trinquei e, malta, eu sei bem do que falo: tenho percorrido muitos quilómetros neste País em busca da bifana perfeita e se a do Bigodes na Venda das Raparigas (Benedita) podia ter três estrelas Michelin ou lá o que é, esta aqui do Dom Tacho não lhe fica nada atrás. Para quem não está muito familiarizado com estes assuntos, Bifana à Moda do Porto quer dizer que a carne é cortada às tiras muito finas e cheia de molhenga picante... Diz o Joaquim: "Ainda deviam ser mais finas, mas o nosso talhante não consegue melhor...". Cheira-me a boca...

Num outro dia fui lá experimentar as Tripas e só de ver a cor fiquei logo a suar. Carregadas de sabor, mas nada de abusar nos cominhos, hábito também ele muito tripeiro, que às vezes causa alguns transtornos gastro-coisos.

Antes de irmos ao Pica-Pau e à Francesinha, posso já avançar que no Dom Tacho não são nada meigos com o picante. Ali a comida é boa é à "leixonense", ou seja: muito picante. Se fores "menino", quando lá fores, o melhor é avisares as tropas para pôr travão na malagueta.

Em relação ao Pica-Pau nunca tinha visto nada assim: misto de carne de vaca e porco, pedaços de linguiça e salsicha fresca, em amena cavaqueira com um molho especial, picles e azeitonas. A acompanhar? Molho de francesinha e tostas. É verdade. Um luxo.

Todo um universo tripeiro entre quatro paredes alfacinhas.

Para terminar este roteiro gastronómico, sem sair do mesmo sítio, falemos então da Francesinha. Pode não ser a melhor do Mundo, entenda-se Porto e arredores, mas é tão boa como em muitos sítios míticos lá de cima. O Joaquim atira que "é no Requinte, em Matosinhos, que se come a melhor francesinha; e a da Cufra também é bem boa". Já em Lisboa não temos dúvidas: a do Dom Tacho é mesmo a melhor.

E, para mim, que percebo pouco destas merdas, o segredo está mesmo na qualidade dos ingredientes. Querem melhor cliché? Mas é verdade, carago. O queijo é bom, o fiambre é bom, a salsicha é boa, a linguiça é boa, o ovo é bom, as batatas são boas. O molho é bom e, como não podia deixar de ser, é segredo. Só não é segredo que a receita foi gamada ao Café Mucaba, através de um funcionário dissidente. Um clássico.

Para rematar, se pensares em lá ir ver a bola, não vás sem reservar mesa. E se fores com a matilha toda, o melhor é reservares a sala ao lado e ficas com um Pub só para a malta. A sério.

O autor é promotor cultural e gosta de comer bitoques, feijoadas, francesinhas em Lisboa, cozido ao domingo, bifanas em roulotes e brunch no Ritz quando o rei faz anos. Acompanha as suas trips gastronómicas na VICE Portugal.


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