Vem Por AquiOptimus DiscosNão são precisas muitas audições deVem Por Aqui para nos consciencializarmos de que este constitui não só um dos melhores discos do ano que terminou há meros dias, como também irá manter-se em rotação constante ao longo deste novo 2014 que agora arrancou. Sim, é assim tão bom. Nele, elementos de uma electrónica selvagem e absolutamente consistente trazem, de forma exímia, vozes que ilustram um magnífico exemplo de como escrever canções em português sem enveredar por todos aqueles lugares comuns dos quais estamos mais que fartos há tantos anos. Ouça-se, como mero exemplo, "Correspondência" onde tamanha mestria e habilidade verbal só faz com que nos apeteça carregar no rewind para ouvirmos de novo aquelas estonteantes e memoráveis linhas, ou "Pangloss", onde o visceral "CALA-TE E COME!" nos faz sentir genuinamente revoltados. Nestas linhas do disco canta-se Portugal, num tom urgente, ríspido e incessante. E é esta aura de determinação, resultado e resposta ao contexto que o país tem atravessado nos últimos anos, que confere ao disco esta identidade tão única e pertinente.Vem por aqui, mais do que um conjunto de músicas, é um documento quase irrepreensível do que vivemos, um combate à resignação e um soco no estômago para nos levar a dar um passo em frente.Que nada disto se confunda com mera e enfadonha música de intervenção, e claro que não faria sentido sequer discutir desta forma o disco se não fosse composto por boas canções. Mas são sete as óptimas malhas as que preenchem o primeiro disco do duo bracarense formado por António Costa e Bernardo Barbosa. "Porque é que queremos ser pequenos?", perguntam-nos a meio do disco, sabendo que à partida até temos medo de encontrar a resposta a isto. A nossa melancolia é previsível e inevitável, mas a vontade e a coragem são inesgotáveis. E o caminho, esse, faz-se de olhos no futuro, sem medo e com este disco na mão.