Quem Você Pode Ser na Night? Um Perfil da Dani Glamour
Guilherme Santana

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Quem Você Pode Ser na Night? Um Perfil da Dani Glamour

Uma breve história de como a noite paulistana acolheu uma transexual e o quanto esse circuito ajudou na sua busca por identidade.
21 September 2015, 6:00pm

Da coluna 'Reduzindo Desigualdades'

Recentemente, a ONU anunciou 17 metas globais para os próximos 15 anos. A meta pro Brasil é Redução das Desigualdades. Inspirados por isso, pensamos numa série de matérias pra VICE, Noisey, Thump e Motherboard. Clique no link acima pra sacar todas.

Era um sábado de festa na cidade de Marília, no interior de São Paulo. Estudantes se reuniram nos emblemáticos anos 2000 pra uma daquelas clássicas cervejadas. Daniela, uma garota de 12 anos, que ainda não se chamava Daniela, queria se divertir com suas amigas mais velhas de vinte, vinte e poucos anos. Foi aí que a ainda menina resolveu mostrar para todos que se vestia de mulher. "Entrei na festa toda gostosona, sainha curta preta, blusa apertada rosa, me senti bem, me senti feliz", diz ela sobre a primeira experiência marcante no seu processo de transexualidade. "Me deu uma força que eu não conhecia. Foi quando eu procurei entender que essa força [da transexualidade] poderia ser importante e poderia se perpetuar".

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Aos 11 anos, a Daniela do parágrafo acima já vestia roupas de menina em sua casa, brincava de boneca e na parede do quarto tinha pôsteres da Naomi Campbell e da revista Capricho. Era o início dos anos 1990, e no Brasil o máximo que havia de discussão pública sobre transexualidade era a Roberta Close, daquele jeito bem Casseta & Planeta. Outra garota que nasceu no corpo de um garoto e se sentia inadequada com seu gênero.

Na sua pré-adolescência, era comum se vestir de menina, embora "eu não fosse pra escola montada", diz a bailarina, modelo e performer de 27 anos Daniela Glamour Garcia. E foi com a ajuda da internet que ela teve seu primeiro contato com a transexualidade e as coisas começaram a clarear na sua cabeça. "Aos 11 anos eu já era mais feminina e ia para escola com roupas de menina na bolsa", relembra. "Afinal, depois da aula, eu podia viver a minha vida, né?".

Todas as fotos por Guilherme Santana.

Hoje estudante do curso de Artes do Corpo em uma universidade de São Paulo, Daniela Garcia atua no teatro, no cinema e tem fervido na noite paulistana, especialmente em festas de rua da cena eletrônica paulistana. Nascida em Marília, interior de São Paulo, no fim da década de 80, Glamour cresceu entre o ambiente rural da cidadezinha de Sarutaia e Marília. A mulher transgênero que ficou conhecida na noite e nos palcos de São Paulo, conta que passou por um lento e longo processo de descoberta do que queria ser e de como queria que a identificassem.

"Comi o pão que o diabo amassou — e sozinha", relembra Glamour. "Eu tinha um temperamento muito forte, já arranjei muita briga com professor, as pessoas eram irônicas comigo", conta ela ao se lembrar da pré-adolescência como um período solitário e cheio de dúvidas. "Tinha muitos questionamentos e não tinha ninguém pra me responder".

Aos 11 anos eu já era mais feminina e ia para escola com roupas de menina na bolsa.

"Minha mãe é uma mulher cultíssima, mas era a primeira vez que convivia com alguém com uma expressão de vida como a minha", conta. "Eu a julguei muito, fui muito revoltada, mas hoje eu não a julgo", lembra-se ela fazendo questão de frisar que não eram só os pais que não possuíam informação. "Nenhum de nós tinha referência de nada".

A convivência com o pai rendeu algumas lembranças dolorosas da infância. "Perto dos dez anos de idade, eu colocava roupa de menina, pedia brinquedos de menina e meu pai, durante muitos anos, quis me dizer como eu devia me comportar", relembra Glamour. "Quantas vezes eu tive ódio...", lembra. "Hoje eu me arrependo amargamente. Graças a Deus eu tive a oportunidade de ver que o mundo dá muito mais do que voltas".

Glamour, mesmo muito jovem, já parecia buscar ambientes nos quais poderia transitar longe de julgamentos. Foi assim que, motivada pela entrada de uma nova professora no colégio, entrou para o teatro no início da adolescência. A professora, Glamour e seus amigos acabaram montando o primeiro grupo de artes cênicas da escola.

"Quando eu era criança, arte era coisa de vagabundo", conta Glamour sobre a preocupação/preconceito da família em que ela seguisse carreira como atriz. "Só a minha mãe me incentivava a ser criativa", relembra a performer. "Demorei um tempo pra entender que eu poderia usar isso [a criatividade] a favor da minha vida".

A VIRADA

Foi aos 12 anos, época importante para Glamour, que ela reuniu os pais em seu quarto cheio de pôsteres nas paredes e anunciou: "Gosto de meninos". Os pais tomaram um susto — não pela informação, mas sim pela coragem. "Meu pai chorava, mas ficou feliz por eu confiar nele", conta sobre o episódio.

Ainda assim, somente no final da adolescência, Daniela passa a se chamar Daniela. "No começo da minha fase adulta, já me vestia e me montava, mas ainda tinha muita cautela, tinha medo dos riscos que podia correr", conta sobre o processo de assumir sua identidade. "Eu sabia que não tinha forças o suficiente pra segurar sozinha essa questão, então me restringia a situações em que eu estivesse com pessoas que sabia que iam conseguir lidar [com isso]".

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O processo da própria Glamour assumir sua identidade aconteceu em fases, nas quais experimentava sua imagem como mulher. "Vivi várias experiências", conta. "Me sentia trans, mas já fui mais dyke [lésbica], mais comportada, mais nerd...", enumera. "E tive um determinado tempo pra conseguir ter certeza de que as pessoas que mais amava seriam capazes de viver felizes comigo também".

A questão do processo de transexualização, conta Glamour, foi algo que aconteceu com o passar dos anos. "Perto dos meus 20 anos, meu pai sugeriu a cirurgia", diz. "A ficha tinha caído pra ele, ele sabia que eu teria que trilhar esse caminho". E foi assim que a artista passou a ter os pais como aliados.

Meu pai se tornou o meu maior aliado.

"Meu pai se tornou o meu maior aliado, por incrível que pareça", rememora Daniela sobre a transformação do próprio pai, então com 40 anos, que havia decidido encarar a vida de outra maneira, uma maneira mais leve. "Eu vejo que ele quis ser feliz porque na medida em que decidiu se livrar da teimosia e do machismo, a vida dele ficou tão melhor...".

A mãe de Glamour, que é psiquiatra, também voltou sua atenção e parte dos seus estudos para a causa trans. Glamour diz que ainda na sua pré-adolescência já via a mãe procurar pesquisas sobre o tema em universidades dos Estados Unidos e Europa. Atualmente, conta a performer, a mãe chega a dar palestras sobre a transexualidade.

Hoje, Glamour tem o acompanhamento de um endócrino e um psiquiatra, faz tratamentos hormonais e conta que conseguiu juntar o dinheiro pra fazer a cirurgia de redesignação sexual, marcada pra em janeiro de 2016. "Estou apenas decidindo quem será meu cirurgião e a equipe que irá acompanhar meu repouso no pós-operatório", diz.

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GENTE GRANDE

Depois de atingir a maioridade e ter se assumido como trans, em 2007 Glamour se mudou pra Londrina, no Paraná, onde passou a cursar Artes Cênicas na universidade pública local. Porém, depois de mergulhar na farra dos calouros universitários, as coisas saíram do prumo. "Entrei num círculo vicioso muito forte", lembra. "A vida na cidade era tão chata que eu acabei indo até o talo nas festas de república, então estava um pouco perdida. Passava mais tempo nas festas do que dando um jeito na minha vida".

Deprimida, Glamour recebeu o apoio da mãe que lhe indicou o curso de Artes do Corpo. Ainda que sem a certeza de que conseguiria enfrentar outro vestibular, Daniela se mudou para a capital paulista procurando um recomeço. "A maior mudança depois que eu vim pra São Paulo foi a minha confiança", relembra. E foi essa confiança que fez Glamour entrar no circuito de boates paulistanas, iniciando a carreira como dançarina e performer na extinta boate Torre, na Vila Madalena, e logo em seguida se apresentando naVoodoohop. Mas a festa na qual ganhou mais espaço foi aCarlos Capslock, organizada pelo produtor Paulo Tessuto.

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"O Paulo é uma das pessoas mais importantes da minha carreira", conta Glamour. "A gente se conheceu numa festa de rua, quando ele estava começando a criar o [personagem] Carlos Capslock". Desenvolvi muito da minha linguagem artística nessa festa, vendo os outros shows maravilhosos e me apresentando também". Daniela diz que frequenta festas como a Carlos Capslock por conta do "refinamento, não no sentido clássico da palavra, mas no sentido de que existe uma arte naquilo", explica. "[É] quando você vê o artista, o DJ, dando o seu toque, criando ou fazendo [o set] na hora".

Além de Tessuto, Glamour cita Márcio Vermelho e o DJ Hubert como três figuras da noite que marcaram sua vida. Ela mesma explica: "O Hubert tem muita referência do passado e ele remaneja isso de um jeito tão moderno, algo que eu nunca vi. Acho que o Márcio Vermelho é um dos maiores exemplos do refinamento que eu falei. O Paulo tem uma loucura, um beat mais pesadão do techno. Ele pode até ficar bravo que eu falei isso, mas eu sei que vem do techno (risos)".

Foi o pessoal [da noite] que me acolheu, foi com essa turma toda que eu criei a minha referência.

O espaço livre de julgamentos que a garota Daniela de 11 tinha encontrado no teatro ganhou novos contornos, cores e muita expressão na cultura clube paulistana. Foi na noite que Glamour se sentiu livre e aceita. "Não seria nada sem todos os DJs e VJs que eu conheci na noite", disse entre lágrimas. "Acho que muito do que eu levo do [meu] trabalho foi porque eu conheci o trabalho dessas pessoas, muito mais até do que [de] diretores de teatro, cinema, bailarinos. Foi o pessoal [da noite] que me acolheu, foi com essa turma toda que eu criei a minha referência e até hoje eu sou Glamour Garcia".

O acolhimento fez com que Glamour se apresentasse em todos os tipos de festas e boates, inclusive em baladas de sertanejo. Entretanto, sua performance encontrou mais espaço na cena eletrônica alternativa. "Posso dizer que já aprendi coisas maravilhosas em boates gays, mas confesso que essas festas alternativas têm um gás que é mais legal de trabalhar, envolve mais a criatividade, a música cria uma coisa muito mais legal pra personagem", explica.

PÉ QUE DÁ FRUTA, LEVA PEDRA

O outro lado dessa história, no entanto, é que com a notoriedade, maldosas fofocas começaram a surgir. "Acho que é uma faca de dois gumes, porque a noite também tem muito o lado da inveja, do ciúme, do 'querer aparecer', puxar o tapete [dos outros]", acredita. Houve boatos de que Daniela teria tentado se matar, que teria sofrido uma overdose e estaria internada no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo. Em 2014, correu a história de que ela estaria tendo um caso com políticos e também que ela seria prostituta de luxo. "Já dei muito? Já. Nunca me prostituí."

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Era dito também que Glamour teria feito filmes pornôs. A atriz, por sua vez, conta que a performance Porn Blush, feita anos atrás como crítica a temas relacionados à sexualidade, foi mal interpretada por muita gente. "Tinha uma hora que eu jogava leite condensado por tudo, como se um cara estivesse gozando em mim, tinha imagens de filmes pornôs...", conta. "No passado, muita gente ligou meus trabalhos à pornografia por causa da nudez, da sensualidade, e eu fui muito julgada".

MASCULINO X FEMININO

Atualmente, suas performances estão mais focadas na atividade teatral. A razão, conta, é que ela quer "se encontrar como artista-criadora" e não esconde que a decisão também leva em consideração o ciúme de seu atual marido. "Casei com um homem muito ciumento", diz Daniela. "A gente se conheceu na D-EDGE, pra você ver como o mundo da noite é importante pra mim — ele estava lá com amigos, lutadores, advogados, engenheiros, esse mundo machista e heterossexual (risos), totalmente 'coisa de homem', no sentido mais pejorativo que tem".

Glamour e o atual marido são donos de personalidades opostas. "Eu sempre fui uma onça selvagem", diz ela. "E os homens, principalmente os mais masculinos, gostam disso. Eles pensam 'eu vou domar essa onça'. Mas eu sou um espírito indomável, não tem jeito", argumenta. Segundo Glamour seu parceiro não lida bem com sua liberdade. "Por ele, eu ficava em casa todos os dias", fala. "Ele quer me domar, mas não adianta (risos) e tem um pouco desse joguinho sexual, digamos assim".

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Com essa nova vida mais distante das festas (mas ela jura que está arquitetando sua volta!), Glamour se debruçou sobre a carreira de performer em outras instâncias. "O tipo mais legal [de performance] é aquele em que eu posso questionar [o que está] à minha volta, independentemente de qual seja o meio, e criticar veementemente os limites da mediocridade das coisas". Glamour provoca e gosta de convidar quem está assistindo pra entrar na brincadeira, como aconteceu na performance Loucomia Made in Brazil, aato criado em 2011, quando ela ainda morava no Paraná.

Vídeo da performance Loucomia Made in Brazil.

"Em Loucomia, a crítica maior é a relação das pessoas com o tédio, da falta de vontade de viver, de ficar sujo, de virar líquido", conta ao dizer que o mote da performance só lhe ocorreu anos mais tarde: "Na época foi só o 'VOU CAUSAR!'".

Outras vezes, no entanto, rolam propostas de fazer o bom e velho fervo, com direito a bate-cabelo. Um exemplo é a sua coreografia de "Girl Gone Wild", da Madonna, que ela fez na Alôca, em São Paulo, três anos atrás. "Às vezes, na boate gay, eu tentava sair um pouco daquele lugar da diva que coreografa e que quer imitar outra diva", explica. "Então eu fui mais pro lado da 'maluca'. Tinha a parte de dança, da coreografia, mas também o lado da louca".

"Girl Gone Wild" na Alôca

E qual a justificativa pra essas apresentações? Simples: "A criatividade não tem que ter nexo ou ter uma estrutura rígida como qualquer coisa da nossa vida, mas ao mesmo tempo ela tem um papel importante de comunicação".

SEM AMARRAS

Apesar de todos os avanços sociais e legais, ser transgênero ainda é um problema no Brasil. Para quem alia a própria identidade à arte ou à música, se apresentar é como levantar uma bandeira política. Ao falar sobre ativismo político, garante que não pertence a uma única causa. "Não sou de uma militância específica... Eu sou da militância gay, da trans, da feminista, eu me considero de todas".

O movimento estudantil universitário introduziu Glamour a participar e se posicionar politicamente e hoje ela pensa em se filiar ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). Mas com a intenção de concorrer a algum cargo? "Até tenho a pretensão de me candidatar mais pra frente, mas tem muita coisa pra se resolver", responde. "Se algum dia rolar, quero começar como vereadora". Em 2014, inclusive, ela apoiou Todd Tomorrow , o jovem candidato do PSOL ao cargo de Deputado Estadual ao cargo por São Paulo.

Além de toda essa vida agitada na noite, nos palcos e nos movimentos sociais, Glamour arrumou espaço até pra se destacar nas telas. Em 2013 ela gravou o filme O Ano Branco, que passou em circuito internacional, e o reconhecimento veio com O Amor que Não Ousa Dizer Seu Nome, de Bárbara Roma, que lhe rendeu o prêmio MixBrasil de Melhor Atriz em 2013.

Agora ela conta que está se preparando pra fazer um papel ainda maior: um filme que será gravado em novembro no Rio de Janeiro, com participações dos atores globais Marcio Rosário e Vanessa Gerbelli. Glamour vai interpretar uma mulher transexual carioca que tenta fazer a cirurgia de transgenitalização, morre e é enterrada como homem.

A jogada mais próxima, no entanto, é destinada ao teatro: a adaptação do conto Tigrela, escrito por Lygia Fagundes Telles e publicado no livro Seminário dos Ratos. A performance estreia em outubro, no Itaú Cultural, em São Paulo, e uma pré-apresentação foi feita em junho, no Tucarena, pra convidados.

Depois de dois encontros com Glamour, a atriz e performer me falou sobre o que, pra ela, significa ser mulher: "[Ser mulher é] se mostrar verdadeira e intensa e, acima de tudo, se abrir pra bondade", define. E arremata: "Pra mim as mulheres parecem ter uma facilidade natural pra serem benevolentes, é aí que está a chave de uma poderosa mudança na sociedade", indica enquanto nos ensina: "Eu quero viver num mundo que seja confortável não só pra mim, mas pra todas as pessoas".

Glamour Garcia está no Facebook

*Colaborou Carla Castellotti