Como uma Finlandesa Está Inspirando Brasileiras a Buscar mais Espaço na Cena Eletrônica

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Como uma Finlandesa Está Inspirando Brasileiras a Buscar mais Espaço na Cena Eletrônica

Criadora do blog Visibillity, Antye Greie-Ripatti divulga o trabalho de produtoras ao longo do mundo e influenciou a criação do coletivo Mulheril, em São Paulo.
06 August 2015, 2:00pm

Não é nenhuma novidade que o Brasil entrou na rota dos maiores festivais de música eletrônica no mundo. A primeira edição do Tomorrowland no país reuniu mais de 100 mil pessoas, o EDC que rola em dezembro em São Paulo promete arrastar outra multidão e o Ultra anunciou seu retorno ao país para 2016. O público parece mesmo estar em busca de muitas horas de beats e/ou drops incessantes e, claro, muita diversão.

Pra quem curte música eletrônica, nada mais justo do que rodar a camisa no alto e ser feliz — salvo algumas exceções, como esse vacilão aqui. Mas quando a gente começa a analisar a composição de cada lineup, porém, é inegável que o número de mulheres escaladas é muito inferior ao de homens no comando dos decks. Massivas na plateia, onde estão as mulheres tocando?

Aliás, alguém já parou para contar quantas minas estão no lineup dos maiores festivais do país? Pegando os exemplos mais recentes que rolaram no Brasil, Lollapalooza e Tomorrowland, dá pra ter uma ideia. No "palco do Perry", espaço dedicado à música eletrônica do Lolla, passaram 15 artistas durante os dois dias do festival. Desse total, só dois DJs eram mulheres: Anna e Any Mello (que tocou junto com Victor Ruiz).

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No Tomorrowland Brasil, a nova meca eletrônica brasileira, a coisa fica mais séria: dos 150 artistas escalados para os três dias de festa, apenas nove eram mulheres — quatro delas tocando em bandas ou duplas com outros caras junto. Indo além, a edição de fim de ano do Kaballah no Guarujá, que aconteceu em dezembro de 2014, convocou três minas DJs para o seu lineup composto por dez artistas (o principal era o deadmau5, que adora uma polêmica meio machista). Para finalizar, o Dream Valley 2014 reuniu em Santa Catarina 27 astros da música eletrônica nacional e internacional, porém só dois deles eram mulheres.

Comprovando-se o fato de que as mulheres têm pouco espaço nos lineups de festivais de música eletrônica, tudo vira um círculo vicioso: se as minas não têm visibilidade, elas não são chamadas para os lineups, continuam no ostracismo e ficam sem fãs que possam impulsionar o trabalho delas (o que corta o "motivo" de alguns bookers que dizem que "não tem público pra essas DJs"). Isso fez com que até criassem um blog pra tirar um sarro e dar um pito nos bookers sobre a falta de visibilidade, que se chama Very Male Lineups. Pra piorar, é bem comum ver as produtoras tendo seu trabalho diminuído, se comparado ao trampo dos homens.

FAÇA VOCÊ MESMO

Antye AKA AGF

A produtora finlandesa Antye Greie-Ripatti (que também atende por AGF) e faz música eletrônica há mais de 15 anos, se viu descreditada dos próprios trabalhos toda vez que coproduzia alguma música com um colega homem. Antye só ganhava o título de vocalista, até mesmo quando grande parte da produção era feita por ela mesma. Em um post no seu blog, ela declara que "isso foi tão irritante que eu passei a fazer música solo e parei de cantar. A paranoia chegou ao nível que eu mesma masterizo todas as minhas gravações, assim ninguém vai pôr as mãos no meu produto e tirar meu crédito". Isso aconteceu nos anos 90, época em que Antye era uma das poucas mulheres produzindo música eletrônica na Europa. "Isso poderia fazer com que eu me sentisse especial, mas eu me sentia sozinha", diz ela.

Com o passar dos anos, Antye fez parte de diversos festivais europeus e foi percebendo a imensa discrepância de gênero na formação dos lineups. Foi daí que surgiu seu ativismo feminista na cena: em meados de 2013, o coletivo female:pressure foi criado com a intenção de fazer pesquisas em festivais, baladas e gravadoras de um dos países com a taxa de igualdade de gênero mais alta do mundo, a Finlândia, contabilizando o número de mulheres participando nesses meios. O lance se expandiu, a pesquisa passou a abranger outros países (você pode ver os gráficos aqui) e convenientemente no dia 8 de março de 2015, a produtora tomou a iniciativa de criar um Tumblr chamado Visibility.

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Basicamente, o objetivo do blog é continuar a pesquisa do female:pressure e fazer uma espécie de arquivo com o perfil de produtoras e DJs de todo o mundo, provando que elas existem, sim, como presença forte em variados estilos. Elas mesmas podem mandar seu nome, foto e descrição pra Antye através das submissions. O desejo de tomar essa iniciativa veio da entrevista que a Björk deu à Pitchfork na época do lançamento de Vulnicura, seu novo disco. Na conversa, a cantora e produtora comenta sobre as vezes em que tiraram o crédito de seu trabalho só porque ele era coproduzido com outro cara e sobre a sugestão que ela uma vez deu à M.I.A.: "Tire uma foto sua na frente da mesa de mixagem do estúdio", assim ninguém poderia duvidar da capacidade de uma mulher em produzir suas próprios músicas.

"Finalmente a Björk abriu a boca! Ela já é famosa há mais de 20 anos, sou muito grata por ela ter falado aquilo, mas já estava na hora de ela falar mais sobre esse assunto", disse Antye quando conversamos sobre seu projeto. "A Beyoncé colocou o feminismo na apresentação dela do VMA, então a Björk encontrou uma hora bem oportuna pra falar sobre essa questão."

Quando perguntei a Antye qual era o motivo pelo qual as mulheres não eram escaladas para festivais e festas na mesma frequência que homens, Antye analisa: "Eles [os bookers] sabem que essas mulheres existem, mas eu estou nesse ramo há 15 anos e fico muito chocada em ver que isso ainda não mudou", diz. "No fim, tem muito a ver com dinheiro também, e com a descrença de que as mulheres vão arrastar os caras pra ver um show. Isso funciona com a Beyoncé, mas se for uma DJ... Até tem melhorado, mas eu acho que é sistemático, está em todos os lugares da sociedade, não importa se você é carpinteiro ou arquiteto".

Há cinco meses no ar, o Visibility já contabiliza contribuições vindas de 65 países e uma das principais revindicações do projeto de Antye é que os lineups de festivais e clubes tenham mais igualdade entre os gêneros, e que o ideal é que as escalações fossem compostas 50% por homens e 50% por mulheres. Isso sem falar que uma das funções da página é alertar produtores, donos de gravadoras e bookers de que existem, sim, mulheres produzindo boa música.

E NO BRASIL?

A produtora Érica Alves. Foto por Pablo Escajedo

Com o alcance que o Visibility ganhou, uma produtora brasileira acabou descobrindo o blog e tomou a iniciativa de mandar seu perfil pra lá. Érica Alves, integrante do The Drone Lovers e que recentemente foi selecionada para participar da classe 2015 do Red Bull Music Academy, é professora e tem um trabalho solo de música eletrônica, disse que já passou por situações bem incômodas como produtora. "Muitas vezes as pessoas ficam surpresas quando eu ligo as máquinas, é meio que um choque", ri. "Há uma certa condescendência na hora, por exemplo, de montar equipamento. Geralmente vem uns três caras querendo me ajudar e eu falo 'não gente, eu sei como fazer, eu tenho meu esquema já, não preciso de ajuda'."

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Ela também toca num ponto que incomoda muita mulher nesse meio: a cobrança por beleza. "Engraçado é que quando eu leio matérias sobre a Nina Kravitz ou a Nastia, que são produtoras, e também sobre DJs que estão se destacando, há sempre um comentário sobre a beleza delas, sobre a graça delas", diz. "Acho isso completamente irrelevante, quando tem um DJ masculino tocando nunca tem um comentário assim, por mais que o cara seja gato pra caralho (risos)", compara. "De repente a performance fica importante porque o DJ que faz o trabalho dele de cara fechada é só um cara sério, focado, aí se uma mulher não tem interesse em fazer uma performance ou interagir muito pode ser tachada de antipática."

"É muito comum ver referências à figura do DJ como o DJ, e a mulher é a groupie do DJ, a namorada. A presença do corpo feminino no mundo na música eletrônica é normalmente associada só ao poder sexual, ela está ali pra agregar valor ao camarote". Essa limitação da imagem da produtora e da DJ, explica Érica, acaba sendo um fator determinante para ser chamada ou não para lineups de festivais ou clubes. "Percebe-se muito que, em festas, o lineup é quase 100% masculino, o espaço nas picapes é bem restrito", diz a produtora.

FEMALE:PRESSURE À BRASILEIRA

Inspiradas no trabalho de Antye, Daniella Pimenta, Débora Schuw, Milena Camilotti e Margô Pasheco mantém no Brasil o Tumblr Mulheril que também mapeia as produtoras no país. A reunião das meninas, antes mesmo da página na internet, culminou na criação do coletivo paulista Mulheril, que realiza festas com discotecagem e bate-papos organizados e protagonizados pelas minas e suas convidadas.

Num papo com a Daniella, ela conta que a ideia do coletivo nasceu de uma espécie de enquete no Facebook querendo saber quantas mulheres produtoras haviam na cena paulistana. "Fiz a pergunta no meu Facebook e apareceu um monte de gente indicando mais gente, falando de gente". Foi então que Daniella se juntou à Débora com a ideia de fazer uma festa só com mulheres no lineup.

A primeira edição da festa Mulheril aconteceu em dezembro de 2014 com participação de Tatá Ogan e outras DJs paulistas. Deu certo e em maio deste ano o Tumblr do projeto acabou por tomar forma. As funções das amigas DJs também ficaram mais definidas: Débora e Daniela tocam (Débora é DJ de música brasileira, Daniela é DJ de reggae e ambas discotecam com vinil), Margô cuida da parte de organização da festa e Milena é encarregada da identidade visual, dos flyers das festas e das fotos. Com essa verdadeira força-tarefa, a festa Mulheril vai para sua quarta edição em setembro, intitulada Primavera Mulheril.

O foco do tumblr Mulheril está na busca por maior representação das mulheres na cena. "A gente ouviu muito 'não adianta ser legal e não ter técnica', ou 'não adianta ouvir música e tocar a mesma coisa que toca sempre'", fala Daniella. "Víamos que em algumas festas os caras tinham muita boa vontade e nem tinham muito conhecimento, mas não eram julgados. A gente era. Até hoje não cobram tanto deles quanto cobram da gente", conta Daniella ao explicar que ela e sua amiga Débora estão sempre preocupadas em se tornar melhores DJs. "Quando percebemos que há uma dificuldade, seja para demonstrar o que fazemos ou seja pra conquistar espaços, não nos fragilizamos ou nos assustamos, e sim procuramos vencer esse desafio da melhor forma, buscando nosso espaço e abrindo espaço para mais mulheres".

"O que me incomoda bastante é [a questão do] espaço mesmo. Ou a gente faz o nosso espaço, ou realmente é difícil conseguir se estabelecer num meio tão masculino", fala Daniella.

E AGORA?
Depois de ouvir Antye, Érica e Daniella, qual a solução para as mulheres DJs conquistarem mais espaço na cena? Nas palavras da Daniella: "Acho que a solução é justamente de onde vem o problema: temos que insistentemente abrir o nosso espaço", diz ela. "Ao mesmo tempo em que hoje isso é uma dificuldade, tem mina que não vai ficar caçando casa pra tocar. Mas eu acho que essa é a solução, a mulherada tem mais é que criar uma rede e abrir o próprio caminho".

Érica engrossa o coro: "Eu acredito muito no poder da ocupação. Tem muita mulher produtora, feminista e consciente em São Paulo, e várias vezes quando saem os lineups das festas a gente vai lá e reclama 'olha, só tem homem nessa festa!'", conta. "Temos que ocupar os espaços, ousar pôr a cara no mundo, fazer show, se apresentar. Se ninguém vai botar a gente na festa deles a gente faz a nossa própria festa".

Antye, por sua vez, lembra que uma divulgação feita de maneira mais consciente ajudaria a propagar a produção feminina: "A mídia poderia não só falar sobre aparência e roupas das mulheres DJs", manda. "Se escrevessem mais matérias falando sobre produção e perguntar pras mulheres como elas trabalham ia ajudar bastante". Nós apoiamos, e com toda a iniciativa vinda de cantos diferentes desse mundão, tomara que as coisas comecem a mudar pra valer.

Nota da edição: A pedido de Daniella Pimenta integrante do coletivo Mulheril, mudamos pontualmente duas aspas de seu depoimento nesta matéria diante de uma ambiguidade cometida na edição final do texto. Pelo vacilo, pedimos desculpa. Texto corrigido, segue o baile.