Enquanto eu escrevia este texto, fiz cinco começos falsos, entrei no Twitter oito vezes, recarreguei a página do meu e-mail outras quatro, troquei mensagens no celular com dois amigos fique no chat com um terceiro, fiquei sem café quatro vezes e me masturbei – duas vezes. Todas essas são formas de procrastinação. Mas só uma é uma forma de procrasturbação.Procrasturbação, diz o Urban Dictionay, é "procrastinar se masturbando". Um pouco mais obscuro é um artigo do Psychology Today destacando que "adiar a realização de uma tarefa é tão bom que isso resulta em… euforia", uma definição que me levou a imaginar se o autor algum dia se masturbou direito. Em abril de 2013, Jon Stewart sugeriu que isso é "usar da masturbação para se ocupar enquanto questões mais importantes esperam".
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Pode parecer simplesmente uma questão de por que deixar para depois se você pode acariciar a gatinha agora, mas procrasturbação é muito mais que isso. É substituir tormentos – ou pelo menos tédio – por prazer. E, como o nome sugere, isso é um pouco ofensivo. Procrasturbação é um ato juvenil num mundo adulto. É rabiscar fisicamente os muros do mundo corporativo, pichando com tinta que só pode ser lida com Luminol. Mais pertinente, procrasturbação é algo que você, eu e todo mundo aprendemos a fazer quando éramos adolescentes.Como você, eu já fui uma adolescente com todo o tempo do mundo. Minha adolescência foi bem escrota: parte disso por motivo particular para mim, mas muito não. Ser adolescente é perturbador e difícil: é atravessar uma nova paisagem num corpo sempre em mutação que atira pelos e hormônios, e é tentar estabelecer sua maturidade enquanto luta com o abraço persistente da infância. Espinhas, raiva. Menstruação, confusão, ereções inesperadas e alienação. A adolescência é horrível.A única coisa que se salva nessa idade é a masturbação. Orgasmos curam muitos males: a eu de 11 anos aprendeu lendo Meu Jardim Secreto, de Nancy Friday, e O Relatório Hite, dos meus pais. Esses dois livros seminais dos anos 70 me ensinaram a me tocar. Por mais ocupada que eu esteja agora, ao espremer orgasmos apressados entre o final de um longo dia de trabalho e a maratona de Arrow no Netflix, penso naqueles tempos tranquilos quando eu era uma adolescente e tinha muito tempo para gozar.
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Aprender a se masturbar transforma seu corpo adolescente de um aparelho de tortura para um playground, mas isso também demarca seu corpo como seu. Masturbação é algo divertido porque você faz isso em segredo, como roubar cigarro e cabular aulas, e você faz isso porque é a melhor maneira de mostrar que você é sua própria pessoa. É a primeira vez que o humano faz do prazer um ato político – mas não é a última.Assista a nosso documentário sobre a indústria do amor digital:
Aos 12 anos, eu achava que a vida adulta seria o fim da encheção de saco, do tédio e da supervisão. Eu nem conseguia imaginar cubículos, prazos, executivos de microgerenciamento e listas. Como adulta, no entanto, me reconciliei com o fato de que, de algumas maneiras, nunca vou deixar a adolescência para trás, e uma dessas maneiras é a masturbação. Especificamente a procrasturbação, um ato possível unicamente graças à tecnologia de hoje.Trabalho em casa, assim como certa parte da população – algo entre 2,5% e 30% dos trabalhadores dos EUA trabalha em casa pelo menos uma vez por semana, dependendo da estatística que você encontrar. Acrescente estudantes a esse grupo, e o número de procrasturbadores em potencial decola. A internet de banda larga permite trabalhar em casa, mas também que você leia aquele artigo, e aquele artigo te faz considerar a ideia de se tocar. Não minta.Apesar de permitir trabalhar mais, mais rápido e melhor do que antes, a internet também foi feita para a pornografia, e a pornografia leva à masturbação. Humanos são animais astutos na busca do prazer. Alguns (de nós) adiam a gratificação para conseguir dois marshmallows depois, mas a maioria enfia aquele único marshmallow inteiro na boca agora. É um passo curto ir do trabalho para a punheta quando seu navegador completa "Y" com "YouPorn".
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Os smartfones encurtaram ainda mais essa distância. Por um momento, vamos remover o ato físico de esfregar ou acariciar da equação masturbatória. Vamos considerar apenas devaneios eróticos como um ato de procrasturbação. Quantos não pararam no meio de uma tarefa para olhar o Tinder, o Grindr ou o seja-lá-que-aplicativo-você-usa? Quantos não passaram pelo fluxo do Instagram atrás de armadilhas como as aves de rapina sedentas e excitadas que somos? Quem nunca mandou mensagens eróticas durante o horário de trabalho que jogue a primeira pedra.A possibilidade de procrasturbação mostra quão difusa nossa divisão entre trabalho e prazer se tornou. Se o e-mail da sua firma pode ser baixado no celular, você nunca mais sai do trabalho. A tecnologia corroeu as barreiras entre trabalho e vida privada, apagando a divisão 8-8-8 entre trabalho, lazer e sono. Sim, vivemos numa realidade em que o Grande Irmão está sempre te observando, mas também vivemos num mundo em que os chefes substituíram nossos pais. Nesse contexto, argumento que a procrasturbação é mais do que uma perda de tempo. É tanto um ponto de prazer quanto de resistência. Em termos marxistas, quando somos alienados pelo nosso próprio trabalho – e quem não é? –, masturbação no expediente é um ato político. É tomar de volta seu tempo vendido e tornar isso seu de novo, é reivindicar essa elisão entre trabalhador e indivíduo da maneira mais primitiva e prazerosa possível.Como camadas geológicas cravejadas de fósseis e escombros de civilizações passadas, adultos carregam em si os vestígios de seus antigos eus. Nem sempre sabemos disso: não podemos sempre ver, mas nossa história está lá. Aquela pessoa de 11 ou 12 anos que se tranca no quarto com uma revista Playboy e papel higiênico pode estar escondida, mas não desapareceu. Assim como o autoprazer definiu a identidade adolescente como sua, pois era separada dos seus pais, da sua família, da sua fé e da sua escola, assim também a procrasturbação marca território como seu. Naqueles minutos doces de diversão, você não é seu emprego. Você não é suas obrigações. Você não é seus ressentimentos, suas listas, sua roupa suja ou seu tédio. Você tem 12 anos e ainda é livre.Faça isso agora como você fazia antes. E agora – como na época – tente não ser pego no flagra.Chelsea G. Summers escreve para a Adult Magazine e muitas outras publicações. Siga-a noTwitter.Tradução: Marina Schnoor