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Edição Uganda

Uma Entrevista com o Homem por Trás das Fotos “Difíceis de Guardar”

O projeto em andamento do artista Jason Lazarus consiste em pedir que pessoas enviem fotos que contenham uma carga emocional tão forte para elas que já não possam mais guardar.
9.4.15

Recentemente, publicamos uma série de fotos intitulada "Fotos Difíceis de Guardar" ". As imagens eram de um projeto em andamento do artista Jason Lazarus em que ele pede que pessoas enviem fotos que contenham uma carga emocional tão forte para elas que já não possam mais guardar. Por isso, o nome do projeto é Too Hard to Keep (THTK).

Muitas das imagens parecem inócuas, mas o conceito desse trabalho dá a elas o peso de um pathos sombrio, e é tentador imaginar uma história por trás delas e formar uma narrativa. Mas essas histórias vêm de uma projeção de nossa própria vida e de experiências individuais.

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A resposta para o portfólio foi enorme; então, decidimos falar com o Lazarus por e-mail sobre o arquivo e apresentar uma nova seleção de imagens do projeto.

VICE: Por que você começou o THTK? Qual foi a primeira foto do arquivo?
Jason Lazarus: Não me lembro da primeira imagem do THTK. Comecei sentindo o mesmo dilema que acho que muitos dos participantes do projeto compartilham: como posso achar significado nessa imagem?

Sei que você tenta não ter uma abordagem muito meticulosa do arquivo, frequentemente fotografando seu conteúdo casualmente em casa. Por que isso? E como isso muda a maneira como você apresenta o arquivo em público?
Instituições têm muitos protocolos para lidar com imagens. Elas geralmente usam práticas de arquivamento que documentam condição e proveniência. Quando estão num repositório formal, imagens ficam num compartimento oficial de um arquivo, geralmente com muitas marcas de busca através das quais podemos acessá-las. Para mim, isso é análogo a Humanidades no geral, que empregam formatos padronizados para gerar e atribuir conhecimento e fontes. Artistas, às vezes, imitam essas práticas e juntam suas posses, as colocam atrás de um vidro, monitoram suas condições, documentam fielmente todas as experimentações, etc. Mas acho que os artistas são melhores quando contrariam essa forma de fazer conhecimento, quando empregam probabilidades, intuição, sensibilidade e, em alguns casos, ficção. Os artistas estão numa posição única para distorcer essa padronização e conhecimento em geral.

Quando uma foto chega, às vezes aplico um texto ou numeral aleatório atrás dela para combiná-la hipoteticamente com o mesmo grupo no futuro, mas frequentemente não faço isso. Geralmente, quando uma contribuição de fotos chega, essa é a única hora em que essas imagens ficarão juntas. Depois de instalar esse trabalho algumas vezes e não estar presente para desinstalar, descobri que isso volta para mim totalmente fora de ordem. Decidi abraçar essa aleatoriedade como parte do projeto, o que chamo de "deslizamento de arquivo". Isso significa que estou constantemente encontrando imagens que foram separadas de suas camaradas originais e achando novo contexto para entendê-las.

Dessa maneira, o arquivo está sempre se renovando e apresentando novas redes de entendimento. Instalações se tornam manifestações dessas renovações, problematizando ainda mais o entendimento linear e a catarse… quero engendrar prolongamento nas instalações: envolvimentos altamente pessoais na leitura do material que desacelerem o tempo e façam surgir leituras sutis e envolvimento. Respeito a habilidade do público de encontrar seu próprio significado em sua própria linha do tempo, dando às fotos suas próprias histórias idiossincráticas.

A imagem da garota com o olho roxo se tornou icônica ou emblemática desse projeto. Na sua opinião, por que as pessoas se conectam a essa imagem? Sei que você a conhece. Como ela se sente sobre isso?
A garota com o olho roxo (uma velha amiga, vamos chamá-la de "Sue") foi uma contribuição que recebi logo no começo do projeto e foi algo revelador em vários níveis. Isso me fez perceber que o projeto tinha a possibilidade de uma significância real – não só para mim, mas para outros. O nível de confiança que eu estava pedindo implicitamente estava sendo recíproco com cada contribuição, fosse violenta ou banal. Além disso, a foto imediatamente me lembrou de Nan One Month After Being Battered, 1984, de Nan Goldin, uma das imagens mais icônicas dela: uma foto que se sobressai, mas que ainda tem um papel importante em sua narrativa estendida, [que é] The Ballad of Sexual Dependency. Quando você não é Nan Goldin, esses momentos icônicos e narrativas estendidas frequentemente acabam no seu éter pessoal – cortantes, potentes, mudam de forma: nublados, refeitos na sua narrativa, drenados, decompostos e difíceis de se reconhecer com o tempo. O arquivo é um corpo invisível, as contribuições são discretos pontos de entrada.

De volta a Sue: pedi permissão a ela quando usei a imagem para promover o projeto. Tive sorte de ela estar disposta a colaborar com o crescimento do projeto e tenho diminuído o uso dessa imagem com o tempo (mas a internet tem sua própria lógica de imagem, e ela frequentemente emerge fora do meu controle). Não acho que seja fácil para a Sue ver essa imagem online quando ela não está esperando. Mas, quando ela aparece em instalações e publicações cuidadosamente editadas, ela brilha e tem uma generosidade incrível para com as imagens ao seu redor e o público em si. Sinto que esse é o objetivo maior para Sue e para mim.

Numa postagem anterior da VICE sobre o arquivo, uma pessoa comentou que uma das fotos era do último show do Guitar Wolf antes da morte de Billy (o baixista), alguns dias depois. Quais respostas interessantes você tem recebido quando o arquivo é exibido? As pessoas identificam coisas nas fotos com frequência?
É raro que os espectadores identifiquem momentos específicos e os nomeiem, mas isso acontece às vezes online, e é interessante ver uma narrativa aberta recalibrada e definida pelo público.

Too Hard To Keep é um arquivo criado por Jason Lazarus aberto a contribuições. Para participar, indique onde as fotos enviadas podem ser exibidas no futuro ou se há fotos particulares que devem ser exibidas com a face para baixo. Você pode enviar fotos, álbuns, objetos fotográficos ou qualquer grande contribuição para o repositório:

Jason Lazarus THTK
1516 N Kedzie Ave, #3
Chicago, IL 60651

Tradução: Marina Schnoor