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Caçando Skinheads Fascistas com os Black Dragons na Paris dos Anos 80

Muito parecida com sua fonte de inspiração, os Panteras Negras americanos, a atividade do grupo concentrava-se na autodefesa militante de comunidades de minorias.
6.8.15

Reagindo à perigosa ascensão da extrema direita na França no começo dos anos 80, um grupo de jovens de Nanterre se reuniu ao redor de uma figura carismática chamada Yves Le Vent para formar os Black Dragons. Muito parecida com sua fonte de inspiração, os Panteras Negras americanos, a atividade do grupo concentrava-se na autodefesa militante de comunidades de minorias.

Patrick Lonoh foi um dos primeiros Black Dragons. Ele estava presente na primeira reunião e permaneceu membro da agremiação até o fim, que veio no começo dos anos 90, quando o lendário grupo antifascista começou a lutar contra seus aliados no que ele chama de "a guerra de gangues de Paris". Lonoh acabou de lançar um livro: J'étais Black Dragon conta a história esquecida do movimento antifascista francês e das pessoas que deram vida a ele. Eu me encontrei com Lonoh para conversar sobre isso.

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VICE: O que significava ser um Black Dragon?
Patrick Lonoh: No começo, éramos caçadores de skinheads. O grupo foi criado em 1983 por Yves Madichon, também conhecido como Yves Le Vent. Queríamos passar a mensagem de que éramos iguais a todo mundo e não deveríamos apanhar só por causa da nossa cor. Mas os Black Dragons também eram uma comunidade – cuidávamos uns dos outros, não importava qual fosse nossa religião.

Os Dragons eram uma gangue ou um coletivo?
Os Black Dragons eram principalmente uma filosofia, que tomavam emprestadas características de certas disciplinas de artes marciais. Queríamos poder andar nas ruas de cabeça erguida, nos recusávamos a sermos pisados. As gerações anteriores eram mais dóceis a ataques racistas, já que estavam mais preocupadas em sobreviver num país estrangeiro. Além disso, se os skinheads nunca tivessem existido, os Black Dragons também não surgiriam. Era uma guerra liderada por jovens que fizeram o possível para moldar o mundo em que viviam.

A noção de gangue foi criada com o tempo. A guerra de gangues no começo dos anos 90 era muito mais violenta que a guerra contra os skinheads – era como dois irmãos brigando. Isso impediu a transmissão da filosofia dos Black Dragons.

Os Black Dragons em Châtelet-les-Halles, Paris, final dos anos 80. Patrick Lonoh está abaixo, à esquerda.

O movimento foi inspirado nos Panteras Negras americanos?
Sim. Compartilhávamos as mesmas ambições básicas: estávamos lutando por autoafirmação. Mas nossa história não é a mesma. Na França, não vemos a escravidão da mesma maneira; também não enfrentamos o mesmo tipo de repressão. Não estávamos em guerra com a polícia – nossos inimigos eram os skinheads.

Você foi atacado por um grupo de skinheads logo antes de entrar para o grupo. Você pode falar mais sobre isso?
Eu tinha acabado de sair da escola com dois amigos, um branco e o outro árabe. Pegamos o trem a fim de voltar para casa e, quando passamos pela porta, notamos alguns skinheads no vagão. As portas se fecharam, e eles começaram a nos insultar – eles diziam coisas como "crioulo sujo" e "maldito árabe". Eles não paravam. Saímos do vagão na estação seguinte, logo antes de eles avançarem para tentar bater na gente. Foi meu primeiro encontro com skinheads.

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Seus pais moravam no Congo na época. O que eles achavam do seu envolvimento com os Black Dragons?
Tenho uma história sobre isso. Um dia, um jornalista apareceu para tirar fotos do grupo para uma matéria sobre a guerra de gangues. A maioria dos meus amigos recusou, mas fiquei feliz em fazer isso: posei vestido de preto, com uma boina militar na cabeça e uma corrente dourada. Quando a matéria saiu, algumas pessoas mandaram o jornal para meus pais, em Kinshasa.

Minha mãe ficou furiosa: ela escreveu várias cartas pedindo explicação, ela não entendeu o que estava acontecendo. Mas meu pai sabia o que era racismo. Escrevi meu livro para ele. Meu pai teve muita influência sobre mim: ele me trouxe para a França, me ensinou sobre arte e cultura, além de passar seus valores humanistas para mim.

Um mapa de Paris mostrando os territórios das gangues dos anos 80.

Os Black Dragons eram rígidos. No livro, você diz que dois membros foram expulsos – um por ficar bêbado e outro por atacar uma mulher.
Um Black Dragon atacou uma mulher e se gabou disso – isso era inaceitável. Quando se trata de álcool, tínhamos de ser rígidos por causa da nossa atividade geral. Éramos jovens, atléticos e operávamos sem supervisão de adultos; por isso, uma certa quantidade de disciplina era necessária.


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Quantas pessoas eram parte do grupo?
Éramos entre 900 e mil pessoas, mas não dava para contar todo mundo. Tínhamos uns 100 membros permanentes e fazíamos recrutamentos em massa de vez em quando. Geralmente, recrutávamos 40 pessoas por vez, como quando uma gangue inteira queria se tornar parte dos Black Dragons. Explicávamos nossa filosofia a eles, testávamos sua força física e comportamento de briga – e, no final, cerca de metade deles se juntavam a nós.

Você também escreveu sobre a gangue Miss Black Dragons, que tinha muita influência sobre o clã. Você pode explicar o papel delas?
Yves Le Vent criou o grupo porque queria representantes mulheres. Elas atuavam como intermediárias entre nós e a comunidade feminina negra, mas também eram guerreiras. Elas eram garotas independentes, vivendo a vida delas. Claro, algumas histórias de amor floresceram dentro do clã, porém, na maior parte, elas eram como nossas irmãs.

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Quando e por que a guerra de gangues começou?
A guerra de gangues teve início no começo dos anos 90, mas as primeiras tensões nasceram bem antes disso. A maioria dessas tensões estava relacionada a festas e garotas.

Os Black Dragons hoje.

O que você diria que foi o gatilho?
Membros de outra gangue – The Requins Juniors (Tubarões Juniores) – e os Dragons se encontraram numa festa, e houve uma briga. No dia seguinte, os Requins Juniors fizeram uma expedição punitiva em La Défense, o ponto de encontro dos Black Dragons. Os Black Dragons responderam mandando um grupo até Gare du Nord, que ficava no território dos Requins. Isso acabou se espalhando para a maioria das gangues de Paris: os Black Dragons, a Mendy Force, o CKC, os Requins Vicieux (Tubarões Cruéis) e os Requins Juniors – todos lutamos uns contra os outros.

O que aconteceu no final?
A guerra de gangues tomou tudo. Isso destruiu a herança e a filosofia dos Dragons. Muitos de nós foram presos, mas o principal problema é que a própria guerra contradizia nossa razão de existir. Acabamos lutando contra as pessoas que deveríamos defender.

Como está o grupo hoje?
A luta antifascista continua, mas as regras do jogo mudaram. Tenho mais de 40 anos, assim como muitos dos meus colegas – não passamos mais os dias perseguindo skinheads. No entanto, observamos a evolução da nossa sociedade e encontramos muitas similaridades. Ouço coisas na TV: o racismo está mais proeminente do que nunca e é amplamente aceito. Isso se escondeu à vista de todos. Os skinheads contra quem costumávamos lutar se tornaram adultos e hoje usam gravatas.

Mazdak e Alice são membros do coletivo francês Pepper. Siga o Mazdak no Twitter.

Tradução do inglês por Marina Schnoor.