Um comparativo entre a Terra e Vênus, por vezes chamado de "gêmeo da Terra" por conta da semelhança em tamanho. Crédito: NASA
Na NASA, a ideia de enviar humanos à Marte e Vênus foi proposta pela primeira vez logo após à histórica caminhada na Lua de Neil Armstrong, durante o programa Apollo, quando a agência espacial era um tanto quanto leviana quanto à exploração e riquíssima. O apoio público para com a agência seguia rumo a alturas que jamais atingiria. Ela havia começado a enviar sondas para Vênus em 1961, como parte do projeto Mariner. Já nas propostas de enviar humanos para Vênus, que reaproveitariam o hardware do programa Apollo, os engenheiros determinaram que os três astronautas a bordo teriam entre 45 minutos e dois dias para observações em campo. Mesmo com motores nucleares (também teóricos) isso não seria o suficiente para fazer com que a viagem de 400 dias valesse o esforço. Ir até Marte, enquanto isso, era um feito considerado praticamente impossível. Para a exploração destes planetas, robôs teriam que bastar.A gravidade de Vênus equivale a 90% da terrestre, e o planeta é mais acessível que Marte, alcançável em apenas cinco meses, enquanto uma viagem a Marte dura nove.
O Argumento em Prol de Vênus
Uma imagem do estudo de Landis de 2003
Os vértices duplos no Polo Sul de Vênus. Crédito: Agência Espacial Europeia
Uma foto da superfície tirade pela sonda Vanera 13 soviética em 1981. Ela sobreviveu 127 minutos
Landis remonta sua própria busca de Vênus a um texto publicado em 1961 – o ano em que os soviéticos deram início ao projeto Vanera – de autoria de outro cientista e ficcionista. Naquele ano, o jovem astrônomo planetário Carl Sagan, então um estudante de doutorado trabalhando no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, onde colaborou com as primeiras missões do Mariner rumo à Vênus, publicou um artigo na Science intitulado "The Planet Venus". Nele, Carl delineava a primeira proposta séria de colonização do gêmeo terrestre.Para início de conversa, Sagan defendia o bombardeio da atmosfera superior venusiana com algas geneticamente modificadas. A ideia era reduzir os níveis de dióxido de carbono na atmosfera de forma a servir como suporte para a vida terrestre. De acordo com Sagan, as algas (especificamente colhidas da família Nostocacae) eram conhecidas por sobreviverem a imersão em nitrogênio líquido e também às altas temperaturas em fontes termais que excediam os 80 graus Celsius, tornando-as candidatas ideais para aguentarem as condições atmosféricas extremas de Vênus. Estas algas também são conhecidas por sua capacidade de fotossintetizar "oxigênio molecular em evolução, sugerindo que poderiam desempenhar a tarefa crucial de dissociar o dióxido de carbono, transformando-o em oxigênio e carbono elementar, diminuindo significativamente a temperatura planetária e permitindo a fotossíntese de plantas verdes."O clima na superfície de Vênus é um aviso", escreveu Carl Sagan. "Algo desastroso pode acontecer com um planeta bastante parecido com o nosso."
AS OPÇÕES DE TERRAFORMAÇÃO
Em 2010, o químico atmosférico vencedor do prêmio Nobel Paul Crutzen sugeriu a liberação de quantidades gigantescas de dióxido de enxofre na atmosfera venusiana, o que de acordo com ele poderia diminuir a temperatura na superfície e frear o efeito estufa ao recriar condições similares a de uma erupção vulcânica terrestre. A ideia ecoou sua agora famosa proposta para a Terra: bombear gás na atmosfera para combater os efeitos do aquecimento global – uma espécie de Plano B para o clima que ajudou a dar fôlego para o surto de geoengenharia.Em visões mais expansivas, encher Vênus de dióxido de enxofre ou hidrogênio – ou cobrir o planeta com protetores solares – poderia levar seu clima à submissão.
AS OPÇÕES COM NUVENS
Na proposta do HAVOC, dirigíveis com 129 metros de comprimento seriam lançados após a entrada na atmosfera venusiana, servindo de base para habitats maiores flutuantes. Crédito: NASA
Mas e a possibilidade de colônias inteiras caírem dezenas de quilômetros em direção à superfície enquanto queimam em nuvens de ácido sulfúrico? Landis não pareceu muito abalado."É claro que tudo que os humanos fazem tem algum risco", disse. "Mas você gostaria de fazer suas cidades bem robustas. Lógico que quanto maior o balão, mais tempo você terá para lidar com o vazamento. Se é um balão pequeno, de criança, ele estoura na hora. Você precisaria de um balão enorme com várias câmaras [nestas cidades flutuantes]. Seria gigantesco comparado com qualquer outro balão terrestre. Com certeza faria o Hindenburg parecer um anão.""Você teria mesmo que fazer isso em prol exploração espacial à longo prazo. É lá que está o futuro. Estamos nos mudando para o sistema solar." – Dale Arney
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