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Ciências Sociais É a Única Área Sem Disparidade de Grana Entre Homens e Mulheres

Quer dizer, quase: os homens ainda ocupam a maior parte das posições acadêmicas mais elevadas.
Crédito: Photographee.e/Shutterstock

Nos últimos anos, muitos estudos revelaram a disparidade nos investimentos entre as pesquisas científicas lideradas por homens e por mulheres. Não chega a ser surpresa. É apenas um sintoma das notórias desigualdades existentes no campo acadêmico-científico: o maior número de publicações de autores homens, a presença ínfima das mulheres nos campos de conhecimento STEM e o preconceito de gênero direcionado às poucas mulheres que ousam entrar nesse meio.

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Mas um novo estudo publicado na revista Nature revelou uma área na qual a distribuição de financiamento não é tão injusta: as ciências sociais. Pesquisadores da Universidade de Leicester, na Inglaterra, liderados pelo presidente e vice-chanceler da universidade, Paul Boyle, descobriram que há uma diferença mínima entre os números de homens e mulheres que concorreram e obteram bolsas de pesquisa do Conselho de Pesquisa Ecoonômica e Social do Reino Unido (ESRC, na sigla original) — instituição que financia pesquisas na área das ciências sociais — entre 2008 e 2013. O valor das bolsas dadas para homens e mulheres também não variava muito.

Boyle, que também foi diretor executivo do ESRC de 2010 a 2014, explicou por telefone que os objetos da pesquisa foram selecionados com base na posição acadêmica e em outras características. "Depois de fazer isso, descobrimos que as mulheres são tão bem-sucedidas quanto os homens; as bolsas ofertadas eram de valor semelhante. Na verdade, se olharmos bem, as mulheres abaixo dos 40 anos são levemente mais bem-sucedidas e recebem financiamentos maiores do que os homens, embora essa diferença não seja muito signficativa", disse Boyle.

"Os cientistas sociais estão há muito tempo associados à práticas de pesquisa feminista… Isso causou uma ruptura na hierarquia masculina."

E o que faz as ciências sociais estarem tão à frente na questão da igualdade de gênero? Os pesquisadores sugerem alguns motivos. Um deles seria a maior incidência de mulheres nas ciências sociais, que incluem áreas como economia, ciência política e sociologia. Mas o estudo também oferece uma explicação um pouco mais intrigante: os cientistas sociais sacam mais de feminismo do que os outros cientistas.

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"Os cientistas sociais estão há muito tempo associados às práticas de pesquisa feminista, guiadas pelos princípios da consulta, da colaboração e da igualdade social, o que causou uma ruptura na hierarquia masculina", escrevem os pesquisadores.

"Cremos que as ciências sociais estão, há muito tempo, inseridas nas questões de gênero e no pensamento feminista", disse Boyle. "É claro que muitas das pesquisas voltadas para esses temas ocorrem dentro das ciências sociais, o que já ocorre há anos". Portanto, talvez os cientistas sociais, tanto homens quanto mulheres, sejam mais sensíveis aos problemas de gênero que afligem seu próprio meio.

Essa pesquisa está ligada ao comprometimento da Universidade de Leicester com a igualdade de gênero; a universidade é uma das dez instituições mundiais envolvidas no movemento "HeForShe" das Nações Unidas, que tem como objetivo envolver homens no movimento dos direitos das mulheres, e do qual Boyle é um "representante" oficial.

Mas embora esse seja uma das raras notícias felizes sobre o espaço feminino na academia, nem tudo são rosas, risadas e igualdade. O novo estudo também mostra que, embora homens e mulheres na mesma posição acadêmica recebam financiamentos de valor semelhante, os homens ainda recebem 59% do valor tota. Eles aindam ocupam a maior parte das posições acadêmicas mais elevadas.

Por mais que a força de trabalho do meio acadêmico seja equilibrada, 76% dos cargos mais importantes são ocupados por homens. A dificuldade de acesso das mulheres às posições seniores ainda é um grande problema. Os pesquisadores escrevem que as mulheres "só continuarão a competir com os homens caso as universidades e agências de financiamento passem por profundas mudanças estruturais" e que, no Reino Unido, as mulheres só ocuparão metade das cadeiras do ensino superior daqui a 39 anos.

Boyle acrescenta que isso não é nenhuma novidade e que as mulheres estão cada vez mais interessadas pela carreira acadêmica. Segundo ele, uma das formas de estabelecer esse equilíbrio seria reconsiderando os critérios do processo de promoção dentro do meio acadêmico, tornando-o mais permissivo em relação às candidatas que passaram algum tempo fora do mercado (as mulheres, como se sabe, estão mais propensas a se afastar do mercado de trabalho para ter filhos, por exemplo). "Uma das recomendações seria focar mais em qualidade, não quantidade", disse.

"Queremos favorecer os melhores profissionais, e estes nem sempre são aqueles que publicaram mais artigos ou receberam mais bolsas", finalizou.

XX é uma série sobre as mulheres nos campos de tecnologia, da ciência e da internet. Nela, cobrimos todas as novidades do mundo da Motherboard, sejam elas boas, más ou interessantes.

Tradução: Ananda Pieratti