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As ressacas de domingo podem ser poéticas

Toda a gente tem aquela tia que prefeririam que desaparecesse do mapa.

Não há nada mais terrível do que acordar de manhã, num domingo, depois de uma daquelas festas que resultam numa ressaca tremenda, e ter de lidar com um almoço de família, onde tios e primos se juntam todos por volta do meio-dia e comem e bebem e falam alto até não poderem mais. A família é daquelas coisas que não se escolhe. A única coisa que te está nas mãos é saber evitá-la, com classe, e fazer com que eles pensem que aquela cara de cu que trazes não se deve à quantidade de merdas que tomaste na noite anterior, nem às duas horas de sono que levas no bucho. Tem a ver com a preocupação com a instabilidade profissional que te consome. Isto sempre te tornará uma pessoa mais digna.

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Ter de levar com a tia Céu a perguntar "quando te casas?" e ter de lhe responder com um sorriso “um dia destes”, quando na verdade me apetece dizer: "Nunca! Não tenho paciência, nem dinheiro para essas merdas, ó chata.” Ou ter de ouvir a prima Fernanda a dizer que o melhor espetáculo que viu na Capital da Cultura foi o do Michel Teló e que o Morangos com Açúcar é dos melhores filmes portugueses que já viu porque tem personagens muito “alternativas” — é uma cena que dá vontade de despejar, num jacto, todo o whisky que bebeste na noite anterior. Mas, há que fazer um esforço e pensar que são apenas umas horas por semana, que garantem uma vida familiar pacífica durante toda a vida. E depois há gajos que conseguem fazer dos domingos em casa, e em família, uma cena altamente poética. É o caso de Milo Montelli, que esteve em Guimarães esta semana a mostrar o seu trabalho fotográfico intitulado “Sunday, Back Home”. Neste projecto, o fotógrafo italiano abre-nos uma porta ao seu mundo familiar. Um ambiente poético e iluminado, feito de retalhos do quotidiano. Duas salas da sede do Cineclube de Guimarães estão cobertas da narrativa desta jovem promessa italiana da fotografia, que nos fazem deslizar num fluxo contínuo de harmonia. Em miúdos: fotografa cenas do dia-a-dia que, na maior parte das vezes, nos passam ao lado, e torna-as em algo que vale a pena pendurar na parede de tão fofinhas que são. A acompanhar a inauguração estavam dezenas de pessoas, críticos de todo o mundo, o crème de la crème da fotografia, acabadinhos de chegar dos Encontros de Imagem, que entre um copo de Porto e um cigarro no belo terraço do espaço, em modo Torre de Babel, comentavam que parecia que o próprio espaço — uma casa antiga, cheia de madeiras e ambiente familiar — tinha sido feito à medida do trabalho de Milo. Vale a pena espreitar a exposição, nem que seja para perceber que há domingos mais tranquilos e serenos que o teu. Ou, pelo menos, parecem. E em que não existe meia família a questionar-te, semana após semana, o porquê daquele piercing ou da tatuagem, quando obtêm como resposta, sempre e invariavelmente, um sorriso amarelo e um encolher de ombros. Na verdade, o que apetece perguntar como resposta, nestes inquéritos familiares, é: “Porquê os pêlos no nariz e o buço, tia?”; “porquê a utilização pública do palito, tio?”; ou “porquê os sonhos eróticos com o Michael Carreira, prima Nanda?” Tia Céu, este texto é para ti!