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Saúde

Passei um ciclo menstrual sem usar tampões e não foi um desastre

Até descobri umas técnicas para não sujar o sofá ou o colchão.

Por Aurora Tejeida; Traduzido por Marina Schnoor
08 Outubro 2018, 2:59pm

Foto por Jackie Dives.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Aprendi sobre menstruação livre (do inglês "free bleeding") quando a ex-baterista de M.I.A, Kiran Gandhi, correu numa maratona, com o período, sem usar qualquer produto para a menstruação. Pareceu-me bem que ela tenha decidido combater a vergonha e não deixar que um pouco de sangue lhe atrapalhasse a corrida. Também fiquei a sentir-me melhor sobre a vez em que, acidentalmente, sujei de sangue as minhas calças de ginástica quando tinha 13 anos, que é praticamente a pior coisa que pode acontecer naquela idade.

Isto também me fez querer ser mais aberta sobre a minha menstruação. Quando conheço um gajo que se mostre visivelmente desconfortável em lidar com o assunto, quero falar sobre inchaço, cólicas e as questões digestivas estranhas que nos acompanham cada mês. Enquanto lésbica, acho que é um serviço importante para as minhas irmãs heterossexuais. Nunca fiquei com nojo da menstruação de outras pessoas, durante o sexo ou não, e acho que o mundo seria um sítio mais saudável se mais pessoas pensassem assim.

Por isso, posso dizer que vi no conceito de menstruação livre um belo "que se foda" ao patriarcado, mas não pensava nisso como uma escolha real de estilo de vida. Sei que existem muitas mulheres por aí que abdicam totalmente de absorventes, copos menstruais, cuecas menstruais e outros produtos para absorver o sangue. Mas, eu achava que isso não era para mim; isto até há alguns meses atrás, quando comecei a sair com alguém que, na altura, era uma menstruada livre. Foi aí que a minha visão mudou completamente.

Desde então, conheci outras pessoas que aderiram à prática por várias razões, que vão desde a redução de lixo, a estarem mais em contacto com o próprio corpo. Como alguém que às vezes tem problemas para entregar o controlo, parecia-me algo que deveria tentar. Quer dizer, seria assim tão mau?

Olhando agora para trás, é difícil recordar qual era o meu maior medo. Acho que, provavelmente, era manchar o sofá e ter pessoas aleatórias a repararem que não estava a usar nenhum produto feminino. O cheiro não me preocupava muito, o que é estranho tendo em conta que tenho um olfacto muito desenvolvido que facilmente resulta em vómitos e, além disso, tinha visto em primeira mão como a menstruação pode sujar (e sim, às vezes, cheirar mal).

DIA UM

Sejamos claros, menstruar livremente faz alguma confusão e a primeira coisa que precisas de fazer é aceitar isso. Passei metade do meu primeiro dia de menstruação livre sentada numa toalha a ver Buffy, a Caça-Vampiros. E não qualquer Buffy - a sexta temporada de Buffy. A Buffy mais triste, deprimente e às vezes problemática. Um óptimo conselho que me deram foi beber muita água. Isso garante visitas mais frequentes à casa-de-banho, onde podes verificar a tua situação. Portanto, bebi muito e fiz xixi de 30 em 30 minutos.

Por incrível que pareça, não sangrei nas minhas cuecas nenhuma vez no primeiro dia. Também senti muito menos desconforto. Geralmente, tenho cólicas fortes quando menstruo. Tudo me dói, incluindo o rabo. Se não tomo um medicamrnto forte antes das cólicas começarem, fico sem condições de fazer nada durante a maior parte do dia. Fora de brincadeiras, já tive que sair do trabalho por causa disso.

Estranhamente, as minhas cólicas foram mais fracas enquanto menstruava livremente. Não tenho provas empírica para provar que foi porque estava a menstruar livremente, mas gostei de não ter que tomar comprimidos. Naquela noite tinha combinado encontrar-me com uma amiga num bar para um evento. Esse seria o primeiro teste real do meu nervosismo enquanto tentava não sangrar em bancos públicos. Quando pensava no pior que podia acontecer – um estranho a apontar-me uma mancha de sangue? Foda-se! – sentia uma estranha segurança de que seria capaz de lidar com isto. Vesti umas calças pretos e fui.

Felizmente, o local tinha bancos de cabedal preto, por isso senti-me mais segura no caso do truque de “beber muita água para fazer xixi constantemente” não funcionar. Passei para a cerveja e relaxei. Não tive problemas, excepto uma mancha pequena nas cuecas. A minha amiga, claro, contou a toda a gente que eu estava a experimentar menstruação livre e ninguém se mostrou abertamente com nojo. Até fui elogiada.

Dormir sem tampão era uma preocupação. Uma coisa é lavar umas cuecas, outra era ter que lavar os meus lençóis, ou talvez até manchar o colchão. Não vou mentir, optei por dormir em cima de uma toalha para garantir. O que, para minha surpresa, não foi necessário. Como bónus, não tive o stress de acordar de madrugada para trocar de tampão e não ter um choque tóxico. Sim, isso é uma coisa que me deixa muito stressada, apesar do risco ser baixo.

DIA DOIS

O segundo dia é, geralmente, o de fluxo mais intenso. Resolvi ter um dia bem cheio, porque esse era o objectivo da experiência. Até aí, a minha menstruação livre tinha sido muito fácil, porque tinha acesso rápido à casa-de-banho. Portanto, decidi fazer uma aula de yoga. Novamente, vesti umas calças pretas e fui para o estúdio.

Descobri muito rapidamente que é impossível não sangrar enquanto se faz planking. Essa foi provavelmente a descoberta mais interessante. Todas as mulheres sabem que espirrar e tossir rende uma onda de sangue quando se está menstruada. Mas, desta vez, eu sabia de cada vez que acontecia. Senti-me meio iluminada por saber exactamente quando estava e não estava a sangrar. Isso realmente fez-me sentir em contacto com o meu corpo, mesmo tendo a certeza de que estava a sangrar nas calças de yoga mesmo antes de pedirem a pose do bebé feliz. Notei que ninguém ficou ofendido. Não vi nenhuma marca no colchão quando, no fim, o limpei com álcool.

Convencida de que deveria estar coberta de sangue, decidi não correr para casa depois do yoga. Optei por saborear o momento. Até parei para comprar uma pizza no caminho para casa. A sério, quem era esta pessoa? Se te queres sentir livre, aconselho experimentares um dia. Não há melhor sensação do que a de te estares completamente a lixar. Quando finalmente cheguei a casa para ver o resultado do massacre nas minha calças, descobri que não era nem de perto nem de longe o estrago que esperava.

Nessa noite, fui de bicicleta para o cinema e sentei-me durante quase duas horas para ver o incrível Sorry to Bother You. Troquei de cuecas e de calças antes de sair porque, bom, também não queres ser má para os outros. E, como não ia sair a cada 30 minutos da sala para fazer xixi, não bebi água. Correu tudo bem! Mais ou menos, claro, porque sangrei noutras cuecas e manchei um bocadinho o lado de dentro das minhas calças pretas (nenhuma cadeira do cinema foi danificada, juro).

Mais tarde, nem sequer dormi em cima de uma toalha.

DIA TRÊS

Toda a minha confiança recém-descoberta sobre menstruação desabou de repente quando percebi que ainda estava a menstruar na manhã seguinte. Era o meu primeiro dia num emprego novo e queria usar as minhas melhores calças pretas, mas ainda estavam sujas de sangue. Não queria colocar um tampão mas, honestamente, também não queria sangrar nas calças cinzentas. Por isso optei por um pensinho diário.

Estranhamente, a minha menstruação foi quase inexistente no terceiro dia. E percebi que podia nem ter usado nada se continuasse a beber bastante água para mijar a cada 30 minutos. Comecei a achar que muitos dos meus hábitos de menstruação eram exagerados e tinham mais a ver com imaginar o pior cenário possível, do que com a quantidade real de sangue que o meu corpo produz.

Conclusão, voltaria a fazer isto? Provavelmente não durante toda a menstruação, mas certamente não vou voltar a dormir de tampão, só mesmo com um pensinho diário. E antes que me perguntes porque é que não uso copo menstrual, já tentei e não correu bem, não é para mim. Doía muito a pôr. Vou usar tampão quando estiver a planear sair à noite ou ir ao cinema, ou no trabalho, ou quando estiver sentada no sofá de amigos. Mas, desde que comecei esta experiência, reduzi o meu uso de tampões em quase dois terços. Apesar de ainda usar durante os dias de maior fluxo, acho que foi um bom exercício para ver que não precisas de usar sempre tampão. E, se tiver algum acidente, sinceramente: que se foda.


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