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Este app está ajudando os iranianos a burlar a censura na internet

Psiphon, um aplicativo canadense, é diferente de um VPN comum.
Justin Ling
Montreal, CA
Em 30 de dezembro de 2017, uma estudante universitária participa de um protesto na Universidade de Teerã, no Irã, enquanto uma bomba de fumaça é lançada pela polícia iraniana. Crédito: AP Photo.

Um aplicativo desenvolvido em Toronto, no Canadá, se tornou a ferramenta principal para milhões de iranianos que buscam driblar a censura à internet de Teerã, no Irã.

Com quase uma década de existência, o Psiphon, o aplicativo para burlar o firewall, é, sem dúvida, o modo mais fácil e eficaz para contornar o controle estatal da internet. Nas últimas semanas, ele se popularizou como meio pelo qual os manifestantes iranianos rompem o “filternet” do regime, que realiza o bloqueio de sites inteiros e aplicativos aos 80 milhões de cidadãos do país e, em alguns casos, corta o acesso total à internet.

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Desde que os protestos se espalharam pelo Irã no fim de 2017, o Psiphon reportou que seu uso disparou.

“Na última semana, o Psiphon teve número de downloads e utilização sem precedentes em todas as plataformas do Irã”, diz Irv Simpson, que trabalha no desenvolvimento do Psiphon.

Simpson revelou os números: em um dia normal, o aplicativo, disponível para Windows, Android e iOS, é baixado entre 35 e 40 mil vezes. De 31 de dezembro a 3 de janeiro deste ano, o aplicativo alcançou a cifra dos 700 mil downloads por dia.

Esse crescimento veio com o aumento de cinco vezes na quantidade de dados nos servidores do Psiphon.

A grande maioria desse aumento de atividade vem do Irã. O Psiphon registrou um aumento de dez vezes no uso em dispositivos móveis do país do Oriente Médio no período de quatro dias.

O Psiphon desconhece todos os detalhes sobre a quantidade de usuários ativos no aplicativo até auditar os dados, mas Simpson estima que – em seu pico – seu uso chega a 10 milhões de usuários no Irã.

O grande aumento no uso aconteceu no momento em que Teerã tenta controlar outros aplicativos, como o Telegram, a plataforma de mensagens criptografadas. O Centro para os Direitos Humanos do Irã citou um tuite iraniano afirmando que o Psiphon era o único aplicativo funcionando em meio à repressão.

Muito dessa filtragem na internet visa prevenir manifestantes de organizarem manifestações, impedir os relatórios dos manifestantes que vão aos protestos e limitar o fluxo de notícias do resto do mundo.

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O bloqueio do governo iraniano tem sido efetivo com outros apps. A miscelânea de filtros da internet pode ser rastreada até os provedores de serviços online iranianos, que fazem a maior parte da suspensão a pedido do Estado.

Mensagens conflitantes emergiram do governo com relação à continuação da restrição a aplicativos como Instagram e Telegram; o presidente Hassan Rouhani – da ala mais moderada do governo iraniano – indicou que as restrições diminuirão, mas os conservadores radicais dentro do regime sugeriram que elas vão permanecer.

Para o popular aplicativo de mensagens criptografadas, por exemplo, não está claro se o Irã continuará a bloquear seu uso ou se, conforme os radicais propõem, eles criarão uma plataforma própria que poderá ser controlada mais facilmente. “Não está claro qual é a linha oficial da administração de Rouhani”, afirmou Mahsa Alimardani, que trabalha na organização para os direitos humanos britânica Article 19 e estuda no Instituto de Internet de Oxford. Ela me contou que o alcance da censura tem sido “diverso”, sendo intermitente para aplicativos específicos e, às vezes, para toda internet de modo mais abrangente.

O Psiphon é diferente de um VPN comum. Isto é, não é uma ferramenta desenvolvida para mascarar ou esconder o tráfego de um usuário. Em vez disso, sua função é esconder o usuário todo, permitindo ao dispositivo desviar dos filtros de internet por meio de um dos muitos servidores da empresa no mundo todo, dando a ele certa vantagem em comparação com outros VPNs ou softwares de contorno da censura. Alimardani afirmou que a reputação do Psiphon é a de que “é bom e responsivo para conseguir softwares novos para substituir as versões que foram bloqueadas”.

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O aplicativo pode ser útil para desviar das iniciativas de limitar o acesso a sites específicos, mas se Teerã decidir tomar o controle da conexão com a internet e dos dados de celular como um todo, não há muito que o Psiphon possa fazer. Simpson afirma que eles já foram identificados pelo Irã, durante a primeira fase das eleições, e estão propensos a serem afetados por cortes em regiões específicas do país conforme os protestos se desenrolam.

Membros da população iraniana se mostraram bastante criativos na descoberta de tecnologias novas e confiáveis para ajudá-los a combater o filtro, também chamado de filternet.

“Os iranianos me contam que existem algumas ferramentas de desvio da censura muito estáveis”, Alimardani afirmou. Ela não vai divulgar os nomes desses aplicativos, “pois a força e a duração dessas tecnologias muitas vezes residem em sua ausência de divulgação”.

O Psiphon foi desenvolvido no Citizen Lab, uma parte da Faculdade Munk para Global Affairs na Universidade de Toronto, no Canadá. O laboratório e a faculdade há anos elaboram várias formas de melhorar a participação cívica no Irã, especificamente por meio da internet, com um pouco de apoio financeiro do governo do Canadá. (O Citizen Lab não recebeu incentivos do governo para a criação do Psiphon.)

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