Publicidade
Documentário

"Balas e ballet": aulas de dança no meio de fogo cruzado

No Rio de Janeiro, a cultura como força de resistência e mudança.

Por Frederick Bernas, e Rayan Hindi ; Traduzido por Madalena Maltez
22 Janeiro 2019, 3:01pm

Fotos: Frederick Bernas.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Milhões de crianças em todo o Mundo sonham em dançar – seja hip hop, salsa, ou ballet. Algumas têm a oportunidade de aprender, outras não – às vezes por causa do tempo, dinheiro, da família, de tabus culturais, de acesso a escolas ou por dezenas de outros motivos. O medo de levar um tiro não devia constar desta lista – mas é um perigo real para Tuany Nascimento e para as alunas do projecto Na Ponta dos Pés no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.

No ano passado, enquanto filmávamos o nosso documentário da VICE Balas & Ballet, a nossa equipa teve um gostinho dessa amarga realidade num ginásio aberto no Morro do Adeus, onde as miúdas vivem. Enquanto Tuany colocava as suas pupilas nas posições correctas, a fazer alongamentos e ensaiar rotinas – como em qualquer outra aula de ballet em qualquer parte do Planeta – uma rajada de tiros rasgou o ar.

Pânico. Não fazíamos ideia de onde vinha o barulho, mas vinha de perto. Corremos à procura de abrigo. Felizmente, ninguém do grupo se magoou. O caos acabou minutos depois, mas um menino que assistia curioso às jovens bailarinas de um telhado próximo, a manobrar um papagaio de papel, foi ferido por uma bala perdida, para além de outro inocente nas proximidades. O Morro do Adeus fica no coração de um conflito perpétuo entre traficantes rivais, que controlam diferentes partes do Alemão – uma vasta rede de comunidades, com uma população que pode chegar a 120 mil pessoas. As rusgas frequentes da polícia só aumentam a tensão.


Vê: "'Balas & Ballet': dançar para sair da favela"


A situação assustadora que capturámos em vídeo foi um pequeno vislumbre do que estas corajosas miúdas vivem todos os dias. Muitas delas perderam amigos e familiares; há noites em que os tiros duram horas e horas. As lágrimas de medo delas não serão esquecidas tão facilmente – para além de uma sensação confusa enquanto deixávamos a favela e conduzíamos de regresso à segurança num silêncio pesado.

A história trágica recente do Rio está bem documentada. Em 2017, 6.500 pessoas foram mortas na cidade (e 64 mil a nível nacional – cerca de seis vezes mais que nos EUA, por exemplo). O site e aplicação de telemóvel Fogo Cruzado, que mapeia dados fornecidos por utilizadores em tempo real, de forma a ajudar a população a evitar violência em potência, é sinistramente popular.

Com a economia brasileira num péssimo estado nos últimos anos, os governos municipais sem dinheiro necessitaram de empréstimos federais para equilibrar as contas, incluindo salários da polícia, enquanto o crime assistiu a um pico. O exército realiza operações regulares em favelas e os soldados têm uma presença desconcertante nas áreas centrais. Esta situação turbulenta é um espelho do clima político actual. No dia 28 de Outubro, Jair Bolsonaro venceu o segundo turno da eleição presidencial, com 55 por cento dos votos, depois de realizar uma campanha tóxica. A tomada de posse aconteceu no dia 1 de Janeiro de 2019. A sua carreira como deputado de direita tem pouca política e muita xenofobia, homofobia, racismo e machismo.

Conhecido por admirar tiranos como Augusto Pinochet e a ditadura que governou o Brasil de 1964 a 1985, Bolsonaro criou uma plataforma populista que consiste em lutar contra o crime ao aliviar a política de porte de arma, assim como dar à polícia mais liberdade para disparar primeiro e perguntar depois.

1541075620385-_J9A7805
Tuany Nascimento.

“Por mim, todos os cidadãos teriam uma arma em casa”, disse ele em 2017, antes de prometer “não dar mais dinheiro a ONGs” se fosse eleito. O candidato repetiu as suas promessas no ano passado, jurando “acabar com todo o activismo no Brasil” – uma ameaça sombria para os moradores das favelas do Rio, onde grupos comunitários têm uma tradição forte de acção popular.

Quando os resultados foram confirmados naquela noite de domingo, os soldados fizeram um desfile improvisado nas ruas de Niterói, cidade vizinha do Rio de Janeiro. Os morros do Complexo do Alemão ecoaram com uma cacofonia sinistra, enquanto policias disparavam para o ar em comemoração. Numa época de polarização política feia, a frágil democracia do Brasil, já infestada de corrupção, está a encarar uma crise sem precedentes – o que, pelos nossos padrões, quer dizer alguma coisa.

E, mais perturbador, o presidente eleito apoiou abertamente a violência autoritária sobre a democracia: “Você não muda nada neste país através do voto – nada, absolutamente nada”, disse ele em 1999. “Infelizmente, você só muda as coisas travando uma guerra civil e fazendo o trabalho que o regime militar não fez... matar. Se alguns inocentes morrerem, tudo bem”. A administração de Bolsonaro significa que é ainda mais importante contar a história destas jovens inspiradoras, que usam a dança para procurarem uma vida melhor, canalizando o poder da cultura como uma força de resistência e mudança.

1541075516306-ballerinas
Tuany Nascimento e as alunas do projecto Na Ponta dos Pés no Rio.

A nível prático, as oportunidades de planos de segurança pública mais agressivos sob o comando de Bolsonaro aumentam a necessidade das bailarinas de Tuany de encontrarem um lugar seguro, longe dos ginásios abertos em que treinam actualmente.

A boa notícia é que elas estão perto de conseguir esse objectivo: um terreno já foi assegurado e as instalações já começaram a ser construídas. Moradores locais prometeram ajudar com mão-de-obra e alguns materiais de construção, mas é necessário um último impulso. Esperamos que este documentário gere esse impulso, para que o centro comunitário Na Ponta dos Pés se torne, finalmente, uma realidade.

Os realizadores do documentário fizeram uma página no JustGiving para receber doações para o Na Ponta dos Pés. Clica aqui para ajudar. "Balas e Ballet" foi produzido com o apoio do Pulitzer Center on Crisis Reporting.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.