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Saúde

Como a Internet transforma fazer compras numa obsessão

Novo relatório alerta que a Internet pode estar a contribuir para o crescimento de algo que se pode considerar como um transtorno de saúde mental.

Por Lauren O'Neill; Traduzido por Madalena Maltez
24 Outubro 2018, 12:34pm

Foto: VICE

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Deram-te um chuto no cu, tiveste um dia mau no trabalho, estás menstruada ou perdeste o autocarro. Seja lá o que for que correu mal, estás triste e, por causa disso, começas a sentir um desejo que já te é familiar: pegas no telemóvel e abres uma aplicação de compras. “Eu mereço”, dizes em voz alta para ninguém em particular, enquanto colocas um vestido da ASOS no teu carrinho com um simples toque no ecrã. “Passo o cartão" e lá se vão mais 20 euros. Já vi as melhores cabeças da minha geração a viverem a contar tostões até ao próximo ordenado, porque gastaram demasiado num site de marcas de maquilhagem a meio do mês.

Com o avanço tecnológico, continuamos a ser apresentados a novas formas de gastar. Antes da Internet, tinhas que esperar até ao teu passeio de sábado ao centro comercial, ou até que chegasse um novo catálogo – agora, tudo o que sempre quiseste comprar está na palma da tua mão, 24 horas por dia.

Recentemente, um relatório de um grupo de investigadores propôs que há uma correlação directa entre o uso de Internet e alguns transtornos de saúde mental, sendo um deles o vício ou obsessão por compras. Estes especialistas, membros do European Problematic Use of the Internet Research Network, pedem mais investigações urgentes sobre o assunto, com a consultora do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido e chefe da Rede, Naomi Fineberg, a realçar: “Somos como um divisor de águas, a começar a entender que há um problema”.

Claro que este grupo que estuda o uso problemático da Internet tem uma agenda. Do tipo: “Achamos que essa cena da Internet não é assim tão fixe”. No entanto, há aqui questões importantes. Muita gente, tal como eu, lida com impulsos consumistas. Uma coisa é comprar um presente para ti próprio logo a seguir a receberes o ordenado, outra é torrares todo o teu dinheiro do mês por causa de uma combinação de tédio, baixa auto-estima e materialismo, só porque é fácil. E, enquanto fazer compras – como outras coisas notoriamente viciantes – sempre foi uma maneira de uma pessoa se acalmar, a Internet, sem dúvida, difundiu a prática [o valor das compras online realizadas pelos portugueses, por exemplo, mais do que duplicou em oito anos, atingindo os 4,6 mil milhões de euros em 2017, segundo o estudo da Economia Digital desenvolvido pela ACEPI, divulgado no início deste ano. Em 2025, poderão ascender a 8,9 mil milhões].

Mas, como, exactamente, é que essa omnipresença facilitou com que ficássemos obcecados por compras online? Falei com outros compradores para tentar descobrir.

O Instagram passa o tempo a bombardear-nos

Todos aqueles posts inspiradores do Instagram são como crack para consumidores e um sonho que se torna realidade para pessoas que vendem coisas. Alguns negócios trabalham, principalmente, em acompanhar microtendências do Instagram para as produzir em massa – ASOS, Missguided, Pretty Little Thing e Fashion Nova – e ainda há os sites e aplicações de revenda, como o eBay e o Depop, onde podes facilmente acabar a gastar o valor de uma factura de electricidade nuns ténis já usados.

Emily, 24 anos, que compra roupas online, diz-me que acha que “escolher e comprar roupas a faz sentir mais segura da sua identidade, o que pode ser reconfortante, como uma âncora quando te sentes perturbada”, acrescentando que, às vezes, usa isso “como uma muleta" quando se está a sentir mal. "É um alívio para qualquer merda séria que me vai na cabeça”, sublinha.

De maneira interessante, ela também descreve como fazer um detox de redes sociais – principalmente do Instagram – teve um impacto real nos seus hábitos: “Fiquei chocada com a forma como reduziu o meu apetite por compras. Ainda tenho alturas em que quero muito comprar, mas nem de perto com a mesma intensidade. Como gosto de roupas, costumava seguir muitas bloggers de moda, para ter constante 'inspiração'”.

Aplicações de compras são muito fáceis de usar

Quando me sinto particularmente ansiosa, apetece-me sempre estar num supermercado. Desejo a sua neutralidade e uniformidade. Gosto que tudo tenha um lugar certo. Aplicações de compras são a versão digital desse supermercado calmante hipotético.

Aplicações como as da ASOS, Urban Outfitters e Topshop são limpas e de fácil navegação, o que faz delas como que uma pausa do design mais pesado de aplicações de redes sociais, como Facebook e Twitter (o The Economist até citou o presidente fundador do Facebook, Sean Parker, como tendo sugerido que a plataforma funciona “a explorar as vulnerabilidades da psicologia humana”, tenso). Enquanto sites de redes sociais podem induzir ansiedade, aplicações de compras parecem pensadas para te dar um minuto de paz; para ficares potencialmente sozinho com todas as versões que as roupas e os sapatos que estás a ver representam. Os itens são dispostos em redes simples – e, ao passar por eles, há uma serenidade.

Amanda*, 29 anos, concorda, dizendo que, muitas vezes, as aplicações de compras emulam redes sociais mais visualmente prazerosas, como o Instagram e o Tumblr. “É como quando uso o Tumblr e o Instagram numa base estética, trato as aplicações de compras da mesma forma. A característica user-friendly parece muito parecida”, explica. E acrescenta: “Na app da ASOS, podes pôr um coraçãozinho nas coisas que queres guardar e acabas a guardar coisas que gostas da mesma maneira que marcas como favorito as coisas nas redes sociais”.

Emily e Amanda dizem que, muitas vezes, a questão não é sobre realmente comprar alguma coisa (Emily diz até que “comprar, às vezes, deixa-me mais stressada, porque me sinto culpada por gastar dinheiro”), mas que é a mera experiência de usar essas aplicações – que Amanda chama de “limpas e simples” – aquilo que mais gosta. O que diz muito sobre como recebemos informações hoje em dia e sobre a forma como nos tentamos acalmar.

Promoções e descontos fazem-te sempre voltar

Quem aqui nunca mandou uma mensagem no grupo do WhatsApp ou um tweet desesperado a pedir um código de desconto? Quem pode dizer que nunca recebeu um e-mail com 20% de desconto no fim-de-semana e não entrou imediatamente no site, a salivar por aquele item que tinha guardado na lista de favoritos há mais de dois meses?

Com aplicações de compras vêm as promoções, os pontos de fidelidade e, crucialmente, os descontos. A palavra “promoção” é usada desde sempre para nos convencer a gastar mais, mas a capacidade da Internet de nos expôr a isso directamente no nosso e-mail, nas nossas propagandas segmentadas em outras áreas da Internet, ou mesmo nas redes sociais, significa que acabamos com um buraco no nosso bolso colectivo e acabamos por gastar mais, porque sentimos que estamos a "enganar" o sistema e a economizar. E nem é preciso dizer que não estamos a poupar merda nenhuma.

"Compra agora, paga depois"

No último ano, podes ter reparado na opção de comprar agora e pagar depois, através de algo chamado Klarna em lojas online de roupas, que, sei que vais concordar, era o que toda a gente queria. Klarna é um grupo sueco que oferece um método de pagamento a crédito para compras de pequena escala (podes usá-lo online, em lojas como ASOS e Topshop). Um artigo recente no Financial Times descreve a empresa como alguns “credores que estão a reescrever a linguagem do crédito na era do Instagram”.

A gratificação instantânea de comprar é, obviamente, uma das coisas que nos atrai para uma opção como esta e, mesmo havendo uma espera nas compras online (apesar das maiores lojas na Internet terem hoje em dia assinaturas de serviços para entrega no dia seguinte, em que podes pagar para receber todas as compras no dia a seguir durante um ano), até recentemente, se não tinhas o dinheiro (ou cartão de crédito) não podias fazer a compra. A Klarna mudou isso e é mais um factor que faz com que a Internet consiga manter as compras no nosso cérebro.

Matt, de 24 anos, conta-me uma experiência ao usar o Klarna para comprar na ASOS, quando o dia do pagamento ainda estava longe: “Acabei a escolher o Klarna como forma de pagamento e gostei do facto de não ter taxas ou juros e do aspecto do 'experimenta agora, paga depois'. Acho que, se tivesse uma pequena taxa que fosse, desistiria, mas racionalizei para mim mesmo que estava a comprar as roupas no mês seguinte, só que a recebê-las adiantadas”.

Matt salienta que consegue ver como alguém pode acabar dependente do Klarna – assim como de qualquer serviço de crédito – e diz que tentar não usar o serviço mais vezes foi difícil: “Tive mesmo que me impedir de comprar mais roupas um mês depois. Não sou bom com dinheiro e tive medo de usar isto cada vez mais e acabar com uma dívida enorme no Klarna, a comer-me o salário a cada mês. Então, disse a mim próprio que preciso de uma razão especial para voltar a usar o serviço, em vez de me dar um cheque em branco”.

*O nome foi alterado a pedido da entrevistada.


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