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meio-ambiente

Esta brasileira está há quatro anos sem produzir lixo

A designer Cristal Muniz é, de certeza, mais limpinha do que tu.

Por Julia Reis
27 Fevereiro 2019, 2:35pm

Foto: Felipe Machado/Divulgação

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Bilhetes de cinema, latas de cerveja, papel higiénico, resto de comida e todas as coisas cheirosas que usamos para limpar a casa. Em 2017, tu, eu e todas as pessoas que vivem no Brasil produzimos 71,6 milhões de toneladas de lixo, segundo um estudo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais [em Portugal, de acordo com dados avançados em Setembro de 2018 por entidades ligadas ao sector, cada português produz em média 40 quilos de resíduos por mês e, por ano, o país tem mais quase cinco milhões de toneladas de resíduos].

Desde o plástico que envolve o chocolate que mereces depois de um dia difícil, até ao papel do recibo do banco, tudo vai parar a um destino que quase ninguém sabe onde é e, a maioria, nem quer saber. Mas, mesmo que quisesses, não adiantaria de muito: quase metade das cidades brasileiras não têm recursos e incentivos para o destino de resíduos sólidos, segundo o IBGE.


Vê: "A Ilha de Lixo"


A verdade é que, desde a segunda metade do século XX, a industrialização só desencadeou o aumento significativo da quantidade de lixo. Quando se compra algo no mercado, o lixo não é apenas o produto em si; também está presente - e muito - na etapa de produção.

Para tentar minar todas essas etapas e o problema da acumulação de resíduos no Planeta, a designer gráfica e blogger brasileira Cristal Muniz, de 27 anos, acordou um dia e tomou a decisão de não gerar mais lixo. Há quatro anos, entrou na Internet e começou a aprender, sozinha, outras formas de viver sem depender da indústria de produtos ou qualquer coisa que tenha o caixote do lixo como destino.

Segundo ela, isto não é tão difícil quanto parece. Para além do que poupa, a designer diz que também a sua vida é agora muito mais fácil. Cristal precisa de apenas um produto caseiro para limpar toda a casa e não usa nenhum produto embalado em plástico para cozinhar. Além disso, partilha a sua rotina sem lixo no Instagram e já conquistou vários adeptos do movimento.

Vê, abaixo, a nossa conversa sobre quais os segredos e como é a vida de alguém que não produz lixo há tanto tempo.

VICE: Porque é que paraste de gerar lixo?
Cristal Muniz: Vivia com a minha família e sempre fomos muitos. Por isso, o lixo nunca foi responsabilidade inteiramente minha. Portanto, só quando aos 20 anos me mudei para um apartamento perto da faculdade é que tive essa noção. Eu era a única responsável por aquele lixo e a maior parte daquilo que produzia não era reciclável. Fui começando aos poucos - primeiro, nas coisas que estavam mesmo à minha frente, como o plástico; depois, comecei a pesquisar e a descobrir como viver uma vida sem lixo. A pesquisa não foi fácil, porque esses termos usavam-se muito no estrangeiro, mas aqui ainda não. Era tudo só sobre ser sustentável. Hoje em dia é mais fácil de encontrar, porque todo esse conteúdo está aglutinado como “lixo zero”, que é o termo mais conhecido.

Quão difícil é deixar de gerar lixo?
Não é muito difícil. É igual a ser vegetariano. Se não quiseres verdadeiramente fazê-lo, vai ser difícil, porque não estás motivado. É claro que há sempre dificuldades e tudo depende dos privilégios que a pessoa tem, mas cada compra que fazes e não geras lixo, cada recibo que consegues negar antes de imprimir, já é uma vitória. Ao fim e ao cabo, não gerar lixo simplifica muito. O difícil é perder o hábito, porque não nos lembramos que esse resíduo não desaparece depois de o deitarmos fora. Se eu fosse ao supermercado, perderia muito mais tempo a comprar produtos, mas mudar o chip e repensar tudo isto a longo prazo é complicado.

Mas, como é que se muda o chip? Tipo, para comer fora, para limpar a casa.
Se parares para pensar, todas as coisas para limpar a casa são feitas com a mesma fórmula base, só têm concentrações diferentes. Faço um só produto para limpar a casa toda. Demoro cinco minutos a fazê-lo e leva água, óleo essencial, bicarbonato de sódio e sabão de coco. Limpo tudo com isto há quatro anos e até a minha rinite desapareceu. Agora, para comer fora, tenho sempre na carteira o “kit lixo zero”, que varia um pouco. Quando é só para festas ou sair à noite, levo só copo e guardanapo. No geral, tenho comigo um estojo de talheres, palhinhas, pauzinhos chineses, dois guardanapos de pano e um copinho. É isso. Tudo isto serve para pedir as coisas e evitar os descartáveis.

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Imagens que nos acalmam: O "kit lixo zero" de Cristal. Foto: Felipe Machado/Divulgação.

E nos estabelecimentos de fast food?
Fast food é muito difícil. Sou vegetariana estrita, por isso é muito raro comer em restaurantes desses, porque não têm opção de menu para mim. Mas, já consegui comer no Subway com guardanapo de pano. Só estava eu e deu tempo para conversar e explicar. A rapariga que me atendeu levou uma seca, mas correu tudo bem. De um modo geral é fácil, mas em restaurantes de fast food, que são sítios que têm muitas regras e emprego precarizado, a malta costuma ter medo de fazer alguma coisa que possa prejudicá-las.

E ao longo de todo este tempo nunca precisaste de deitar nada fora?
Não existe perfeição. Vivemos numa sociedade que prevê o descartável em tudo, por isso vai haver alturas em que vais ter alguma emergência. O importante é conseguires fazer o melhor dentro desse momento que estás a viver. Para além das condições e vivências diferentes. Acho que as pessoas não se podem culpar, mas sim fazer cada dia uma coisa nova, conforme conseguirem. É isso que importa no final. Não se matarem para tentarem chegar a um lugar que talvez não exista.

Quanto é que poupas por mês mais ou menos?
Uma vez fiz as contas, mas já não sei quanto custam agora os produtos de limpeza. Em limpeza, gasto pouco mais de um euro por mês. Lembro-me que comprava a cada um ou dois meses um pacote de sabão em pó e um de amaciador. E mais detergente, esponja e outras coisas. Eram uns 9 ou 10 euros por mês em produtos de limpeza, numa estimativa a puxar para baixo, porque eu moro sozinha há já muito tempo. Mais o tempo que se gasta na fila do supermercado, não é?

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Foto: Felipe Machado/Divulgação.

Qual é a relação que tens com o lixo?
Não quero lidar com o lixo. Quando começas a perceber que ele não desaparece no saco de plástico fechado ou na grande lixeira que há por detrás de cada produto embalado, a relação muda. Prestas muito mais atenção e isso começa a transformar-se num incómodo.

Agora está na moda não usar palhinhas de plástico e várias marcas estão a aderir. Há muita gente que fala mal, há quem diga bem… Qual é a tua opinião sobre o assunto?
Penso que precisamos de ter uma lei mais bem feita e uma discussão que vá muito além disso, ou seja, de forma a proibir todos os plásticos descartáveis. Não adianta proibir apenas as palhinhas. Até que ponto proibi-las vai ter algum resultado positivo? Porque as leis estão a ser mal escritas e não prevêem o tempo de transição. Nem a campanha educativa, nem discussão com a sociedade - e a alternativa é super cara. Ou as pessoas têm de comprar palhinhas permanentes, ou os estabelecimentos têm de comprar palhinhas de papel. Não nos podemos esquecer que existem pessoas que ainda precisam de usar palhinhas, por isso poderia ser tudo mais eficaz.

Ao mesmo tempo, acho muito bom que esse discurso tenha chegado à esfera política e ao mainstream. Só que não sei se esse salto e essa consciência vão funcionar desta maneira. Vejo que vão proibir as palhinhas e é só isso.


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