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Maduro diz que a presidência de Trump ficará "manchada de sangue" se decidir intervir na Venezuela

"Vamos respeitar-nos um ao outro, ou será que vais repetir na América Latina o que se passou no Vietname?".

Por Tim Hume
05 Fevereiro 2019, 4:34pm

Nicolas Maduro, na véspera de assumir o novo mandato de seis anos, discursa no palácio presidencial Mirafores, em Caracas (YURI CORTEZ/AFP/Getty Images),

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE News.

No domingo, 3 de Fevereiro, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, avisou Donald Trump que a sua presidência ficaria "manchada com sangue" se Washington interviesse militarmente na Venezuela - e disse que a crise no país poderia levar a uma guerra civil.

Numa entrevista ao canal de televisão espanhol LaSexta, Maduro deixou esta mensagem a Trump como resposta às declarações do presidente norte-americano nesse mesmo domingo, em que afirmava que uma intervenção de contornos militares na Venezuela e a retirada de Maduro do poder para o substituir pelo líder da oposição, Juan Guaidó, "ainda era uma opção".



"Pára. Pára, Trump! Pára por aqui. Estás a cometer erros que vão deixar as tuas mãos cobertas de sangue e vais deixar a tua presidência manchada de sangue," avisou Maduro durante a conversa transmitida no programa Salvados. E acrescentou: "Vamos respeitar-nos um ao outro, ou será que vais repetir na América Latina o que se passou no Vietname?".

Quando questionado sobre se a crise actual no país poderia dar azo a uma guerra civil, Maduro respondeu que era impossível saber. "Tudo depende do nível de loucura e agressividade do império (norte-americano) e dos seus aliados ocidentais," afirmou.

Maduro também rejeitou o ultimato das nações europeias para convocar eleições livres e justas até esse mesmo domingo, caso contrário juntar-se-iam a Washington no reconhecimento de Guaidó como presidente interino. "Nós não aceitamos ultimatos de ninguém," realçou Maduro. E acrescentou: "É como se eu fosse à Europa e dissesse, 'dou-vos sete dias para reconhecerem a República da Catalunha, se não, tomaremos medidas.' Não, não. A política internacional não se pode fundamentar em ultimatos. Isso é dos tempos do imperialismo e das colónias".

Na segunda-feira, 4 de Fevereiro, vários países europeus - incluindo Portugal, Reino Unido, Espanha, França, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Holanda, Lituânia e Austria - cumpriram a ameaça e anunciaram reconhecer, agora, Guaidó como presidente interino.

O ministro dos Negócios Estrangeiros inglês, Jeremy Hunt, publicou um tweet dizendo que, como Maduro não tinha aceite o pedido de convocar eleições, o Reino Unido e os seus aliados europeus reconheceriam Guaidó como "presidente interino constitucional, até que sejam convocadas eleições credíveis". "Resta-nos esperar que isto nos faça chegar mais perto do fim desta crise humanitária", acrescentou.

Por sua vez, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, disse à estação de rádio francesa Inter que o seu objectivo não era "intrometer-se no estrangeiro", mas sim dar um empurrão para que se restaure a democracia no país em crise. "Isto não é intromissão, enquanto houver uma crise e um pedido do presidente Guaidó de apoio para a restauração da democracia. Acreditamos que devem ser feitas eleições para validar a escolha dos venezuelanos", disse.

Já Augusto Santos Silva, titular da pasta da diplomacia portuguesa salientou em conferência de imprensa para explicar a posição de Portugal, que a situação de impasse na Venezuela, com a recusa do presidente Nicolas Maduro de convocar novas eleições presidenciais, "não se pode resolver pela confrontação interna nem pode ser pela intervenção externa". Santos Silva rejeita, assim, não só a hipótese de um guerra civil naquele país como a possibilidade de uma intervenção dos Estados Unidos para forçar as eleições.

No sábado, 2 de Fevereiro, dezenas de milhares de venezuelanos saíram às ruas de Caracas no em protestos, quer de apoio a Maduro, quer de Guaidó. Dirigindo-se aos seus apoiantes, Maduro apelou às milícias armadas do país e aos jovens para se juntarem ao exército, enquanto o seu governo se prepara para um possível confronto. "Estamos a preparar-nos para defender a terra-mãe, no caso de eles, um dia, decidirem meter-se com a nossa amada Venezuela", garantiu.



Nesse mesmo dia, um alto comando da Força Aérea, General Esteban Yanez Rodriguez, anunciou que iria apoiar Guaidó. Rodriguez, director de planeamento estratégico, disse que "90 por cento das forças armadas" estão contra Maduro - mas que, até agora, a maioria do exército, peça fundamental para a questão da tomada de poder, permanece leal ao governo.

Guaidó delineou a sua visão no domingo, assente num plano para salvaguardar os bens do país e distribuir ajuda humanitária aos venezuelanos empobrecidos que estão a passar por carências agudas de necessidades básicas, devido à má gestão económica por parte do governo. Apelou ainda às comunidades internacionais para enviarem ajuda para os pontos de recolha na Colômbia e no Brasil - ambos com líderes que criticam Maduro - e apelou ao exército que deixe entrar a ajuda no país.

Em entrevista à CBS, Trump nada fez para esconder a possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela e pôs de lado qualquer possível conversa com Maduro. Quando questionado sobre se a acção militar seria uma opção, o presidente norte-americano respondeu: "Bem, não quero dizer isso, mas é certamente algo que está em cima da mesa - é uma opção!" Na passada semana, o seu conselheiro de segurança nacional John Bolton foi fotografado a segurar um caderno em que se lia "5000 tropas para a Colômbia", aumentando a especulação de que o governo está seriamente a considerar uma intervenção.

Os Estados Unidos também aplicaram sanções ao sector petrolífero venezuelano, crucial para o país. Os países europeus e latino-americanos combinaram encontrar-se em Montevideo, Uruguai, na quinta-feira, 7 de Fevereiro, como parte de um "grupo de contacto internacional" para debater esta crise.


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