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A CPMI das fake news virou um canal de disseminação de fake news

"Qual o problema se a terra for plana? Pra mim, não faz diferença nenhuma.”
5.11.19
blogueiro Allan dos Santos
O blogueiro bolsonarista Allan dos Santos. Foto via TV Senado.

Na tarde desta terça-feira (5), deputados e senadores da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) se reuniram mais uma vez para ouvir o depoimento de Allan dos Santos, blogueiro ativista e um dos donos do Terça Livre, veículo acusado de espalhar desinformação antes, durante e depois das eleições e apoiador incondicional do presidente Jair Bolsonaro. A ideia desta CPMI é investigar notícias falsas nas redes sociais e assédio virtual, no entanto se tornou uma grande sessão de troca de ofensas e… disseminação de notícias falsas.

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Os ânimos dos parlamentares continuam exaltados desde que o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP) prestou depoimentos no dia 30 de outubro. O convite veio da deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) por conta do comportamento “polêmico” do deputado eleito. A foto de Frota levantando uma folha com tuíte (impresso no modo noturno) de uma conta falsa atribuída ao astrólogo Olavo de Carvalho foi um bom resumo do que foi a reunião e o que podemos esperar dessa CPI.

Santos aproveitou a oportunidade para reproduzir notícias falsas como “o Porto de Mariel era usado para troca de armas nucleares entre Brasil e Cuba” ou "os comunistas estavam tentando criar os sovietes no Brasil", mas também quase voltou atrás quando aceitou a quebra do seu sigilo bancário no meio da reunião. Ele também declarou ser perseguido pelos grandes meios de comunicação e questionou qual seria o problema em reproduzir informações de terceiros que podem ser falsas. Um cristal do jornalismo.

De cara, após Luizianne dizer que Olavo de Carvalho ensina que a terra é plana (na verdade ele não ensina, ele só diz que pode ser que a terra seja plana), o deputado federal do PSL e um homem que não sabe como funciona métodos contraceptivos, Márcio Labre, atrapalhou a fala de Lins dizendo ''Qual o problema se a terra for plana? Pra mim, não faz diferença nenhuma.” Foi uma feira.

Nas falas de senadores de deputados do PSL e partidos de base não faltaram acusações falsas como a carta do PCC (que já foi desmentida) que fala de uma ligação da facção com o Partido dos Trabalhadores, números faraônicos para falar do esquema de corrupção do PT (1 trilhão) e ironizações sobre as chamadas "milícias virtuais" -- nome dado para grupos de apoiadores do governo que atacam jornalistas e cidadãos críticos ao Bolsonaro nas redes sociais. Como esperado, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) defendeu Santos abertamente, mencionando que os artistas brasileiros foram comprados pelo PT através da Lei Rouanet e criticando o complô de grandes veículos contra a Terça Livre.



Foi impressionante e constrangedor observar a falta de conhecimento da oposição sobre o funcionamento das redes sociais, a monetização de vídeos e o funcionamento em geral da internet. Não é possível que a esquerda institucional não tenha ainda se tocado que grande parte das interações políticas e disputas eleitorais se dão através das redes sociais.

Preparado, Allan dos Santos aproveitou o amadorismo da oposição sobre o assunto para ironizar e caçoar das perguntas, abrindo espaço para que parlamentares da base aliada fizessem o mesmo. Faltou calma e paciência para ignorar as provocações. Não foram poucos bate-bocas e troca de acusações entre os parlamentares, ignorando a oportunidade de questionar até que ponto o trabalho jornalístico de Santos é confiável. Vale dizer que a ideia da Comissão não é apenas trocar acusações, mas também propor uma conceituação das notícias falsas, seus impactos da sociedade, o financiamento para disseminação de conteúdo falso e especialmente suas consequências como o cyberbullying, ameaças,
incitação ao ódio e ao suicídio.

Por conta do despreparo dos parlamentares da oposição, a reunião nesta
terça-feira (5) virou uma plataforma para os governistas divulgarem notícias falsas e tentativas de enfraquecer a importância da Comissão. A CPMI das fake news se tornou um espaço para defender a desinformação e a manutenção de veículos que produzem e disseminam notícias falsas.

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