Games

'World of Warcraft' tem um problema de estupros

Em uma pousada em WoW, jogadores agressivos realizam suas fantasias de estupro abusando de vítimas inocentes.
02 October 2017, 4:14pm
Imagem: Blizzard/Reprodução.

Matéria original da MOTHERBOARD Alemanha.

Quando Klara* chega na taverna em Goldshire, ela vê strippers anãs e elfos nus. Ela espera sexo virtual, conversas quentes e um pouco de role-play. Mas o que encontra são cantadas de mau gosto e fantasias de estupro. "Porra pra todo mundo!" grita um anão na taverna, na qual muitos dos jogadores de World of Warcraft passam pelo menos uma vez em sua jornada pelo gigantesco mundo de fantasia online. O anão persegue um orc que entra na pousada com um canhão de neve. Segundos depois, uma janela de conversa aparece: "Está com tesão? Qual seu número?" Quem passa um tempo na taverna rapidamente cruza com vários personagens, como elfos, que passam pela tela em roupa de baixo e olhando intensamente antes de dizer em caps: "Vou te foder até você desmaiar!"

Leia mais: Esta mina sente atração por objetos de games

Klara decide sair. Lá fora, outros jogadores estão esperando por ela. Eles cercam sua personagem feiticeira e vomitam feitiços brilhantes brancos no ar, um exemplo do tipo de cibersexo indesejado que acontece na taverna. Klara sai do jogo. O que diabos aconteceu? Ela tinha acabado de descobrir a "Taverna do Estupro" de World of Warcraft.

*O nome de Klara e dos outros jogadores mencionados nesta matéria foram mudados a pedido deles, porque eles temem que outros jogadores possam assediá-los no mundo virtual.

Role-play dentro de um role-play

Escrevendo esta matéria, falei com mais de 40 jogadores em 21 servidores do jogo, e testemunhamos regularmente cenas como essa durante nosso tempo na taverna em Goldshire. Também vimos jogadores tentando adquirir fotos reais e informações de contato de outros jogadores.

Esse local em World of Wacraft é considerado a capital não-oficial do swing do famoso RPG online. Todo dia, milhares de jogadores se encontram aqui para fazer sexo com elfos, orcs ou pandas. Não é incomum que os personagens apareçam vestidos apenas em a roupa de baixo, o que é essencial para dar o tom certo, disse o jogador de WoW Frank para a Motherboard. Frank vem visitando o "Goldshire Inn" – como os fregueses chamam o lugar – desde 2009. Ele geralmente joga nos "servidores de role-play", considerados o lar tradicional da comunidade erótica. Nos servidores normais, a taverna geralmente está vazia e só é visitada de passagem.

"Ninguém sabe como tudo começou. Mas tudo de cibersexo já aconteceu aqui desde que comecei a jogar", ele diz. "Na época ainda era importante escolher bem suas palavras e respeitar os outros, manter um certo nível de decoro. Havia uma cultura erótica real aqui. Mas agora as pessoas não ligam mais para isso."

Ele fala de um fenômeno que notamos desde a primeira vez que visitamos Goldshire: O tom e o comportamento geral dos jogadores é excepcionalmente agressivo no bar. Enquanto falavam com a VICE, os fregueses se referiam a Goldshire Inn simplesmente como a "Taverna do Estupro", enquanto mandavam um smile piscando aqui e ali.

Durante o striptease de um dos jogadores, uma elfa nos contou sobre um freguês que a assediou em várias ocasiões. Apesar disso, ela continua frequentando a taverna porque seus amigos frequentam. Imagem: Blizzard/Reprodução.

Um jogador de WoW nos deu o e-mail de Klara, 26 anos, que se tornou ativa nos chats eróticos quando era adolescente. Hoje ela é paga para ser uma acompanhante virtual nos servidores do Second Life. Foi através desse trabalho que ela descobriu a comunidade erótica de World of Warcraft e quis conferir em primeira mão.

"Deveria ter sido uma noite legal. Criei uma feiticeira e fui direto para Goldshire. A taverna estava lotada. Todos os fregueses estavam usando fantasias elaboradas ou só andavam pelados. Nunca vi tantos seios roxos. Achei que tinha chegado a um verdadeiro clube de sexo", disse Klara. Depois de alguns minutos, vários fregueses da caverna mandaram mensagens públicas e privadas. "Me perguntaram se eu queria fazer sexo. Não foi uma surpresa, então perguntei qual eram as regras do chat, algo com que estou acostumada no meu trabalho como acompanhante em Second Life." Vários jogadores disseram a ela que era mais uma questão das "animações" do que longas descrições de momentos íntimos, como é o caso no Second Life.

Em seus avanços, os jogadores sugeriram simulação de sexo com ajuda de várias animações de dança, batalha e feitiços. "Achei muito banal e recusei educadamente. Daí saí da taverna, mas logo percebi que um grupo deles estava me seguindo." Isso levou ao que Klara descreve como uma cena perturbadora: "Uma humana queria fazer um 69 comigo enquanto alguns paladinos assistiam e simulavam ejaculação com feitiços que emitem luz branca". Klara respondeu com um claro "Não!", ao que os jogadores responderam a cercando e assediando ainda mais.

Klara escapou da situação desconfortável saindo do jogo. "Deletei meu personagem e desde então nunca mais voltei lá", ela disse.

"Não recebemos nenhuma ajuda!"

Cenas como a descrita por Klara apareceram com frequência durante nossas investigações. Enquanto digitávamos as perguntas na caixa do chat, vários avatares seminus se esfregaram na nossa personagem humana. Nos perguntaram quanto "custava uma sessão", se transaríamos por dinheiro na vida real e qual era nossa idade. Decidimos sair da taverna, mas alguns jogadores nos seguiram pela porta.

Mais tarde descobri em discussões com alguns desses abusadores virtuais que é "muito sexy" quando as vítimas fogem, porque é como estupro de verdade. Caçar as vítimas se tona parte do role-play de estupro. Isso os estimulou a perseguir nossa personagem depois que saímos da taverna.

Depois de dois momentos assim, decidimos mudar nossa estratégia e abordar diretamente o que o agressor estava tentando fazer. "Estupro também é um tipo de role-play", disse o elfo noturno, que alguns momentos antes me disse na taverna que "me foderia até eu desmaiar". Alguém ouvindo concordou com ele: "É só comportamento obsceno, mais nada".

Quem quer sair do jogo tem que esperar 20 segundos, durante os quais os personagens ficam ajoelhados – um ímã para fregueses da "Taverna do Estupro". Imagem: Blizzard/Reprodução.

"Quem não gosta pode sair do jogo a hora que quiser." Ouvimos essa frase várias vezes em nossas conversas com os jogadores. Alex, um fã de longa data de WoW que já testemunhou muitas cenas como essa em Goldshire com seu personagem panda, resume o que há de problemático nessa posição: "Esses jogadores que estupram tem uma mentalidade meio 'afundar ou nadar'. Goldshire é o lar deles em quase todos os servidores de role-play, e quem não gosta tem que ficar longe. Esse tipo de ideia estraga a diversão para todo mundo aqui".

Mas os veteranos de WoW também criticam a atitude dos desenvolvedores do jogo, a Blizzard: "Não recebemos nenhuma ajuda. Claro que você sempre pode denunciar, mas a Blizzard vem ignorando esse sistema há anos". Pedimos um comentário da Blizzard sobre o caso, mas depois de esperar vários dias, não recebemos uma resposta.

Os problemas dos jogadores que são afetados pode parecer exagerado. Afinal de contas, estamos falando sobre incidentes que acontecem apenas na tela e num mundo de fantasia. Mas por causa disso, frequentemente ignoramos como essas experiências são um peso para aqueles que se tornaram vítimas dos ataques. Muitos jogadores com quem falamos enfatizaram como essas situações acabaram sendo desconfortáveis.

Em nossas entrevistas, as vítimas desses ataques nos disseram que de repente se sentiram encurraladas num canto – apesar do tamanho gigantesco do mundo online – e que simplesmente não queriam que seus personagens, que desenvolveram e com quem formaram uma ligação, passassem por algo assim. Além disso, há os insultos explícitos e muitas vezes racistas e sexistas feitos pelos agressores, reforçando o sentimento de que ninguém está seguro ou é bem-vindo.

Um jogador grita "quem quer porra?" num chat público e depois corre pela taverna com um canhão de neve. Imagem: Blizzard/Reprodução.

O fenômeno da "Taverna do Estupro" não é novo. Fóruns de vários anos atrás já descreviam experiências perturbadoras em Goldshire e exigiam que a Blizzard fizesse alguma coisa. Mas é difícil achar uma posição clara da Blizzard sobre as acusações. Em 2010, a Blizzard anunciou que iria "patrulhar" o Goldshire Inn e suspender jogadores que infringissem as diretrizes da comunidade na presença deles. Essa decisão parece ter ajudado pouco.

Aos olhos da maioria dos fãs de WoW, o destino de Goldshire foi selado com o lançamento da expansão Wrath of the Lich King em 2008. Graças a um novo recurso, os jogadores não precisavam mais se encontrar em tavernas ou similares para saírem numa aventura juntos. Em vez disso, o "Dungeon Finder" facilitou para os jogadores formarem grupos sem precisar se encontrar em cidades como Goldshire antes de sair para completar uma tarefa. A comunidade erótica, que continuou a usar a cidade como ponto de encontro, foi só o que restou, mas essa comunidade logo desabou.

Nenhuma proteção a menores

Além do fato desses membros agressivos da "comunidade de estupro" estragarem a diversão dos outros jogadores, os colocando em situações desconfortáveis e às vezes os expulsando de Goldshire, tem outro problema, menores de idade.

Na Alemanha, World of Warcraft é aberto para qualquer pessoa maior de 12 anos, e graças à estratégia promocional atual, os iniciantes podem jogar de graça até o nível 20. Se o jogador escolhe um personagem humano, Goldshire fica muito perto da área inicial e poder ser atingida em alguns minutos.

Como resultado, há chances de um menor de idade acabar na "taverna do estupro", onde as pessoas com frequência pedem números de celular e "fotos reais". É especialmente por isso que a Blizzard deveria começar a se focar mais em Goldshire e pensar em respostas mais eficientes para as denúncias e queixas.

As tradições de Goldshire são... peculiares. Imagem: Blizzard/Reprodução.

Os agressores com quem falei não queriam ouvir sobre cenários assim, onde podem acabar conversando com um menor. Enquanto investigávamos, ouvimos sempre as mesmas desculpas, como "crianças não estão acordadas a essa hora" ou "isso seria culpa delas mesmas".

Depois de ficar em Goldshire, temos que concluir que o microcosmo dessa pequena cidade opera inteiramente de acordo com suas próprias regras, algumas das quais infligem os termos de uso de World of Warcraft. Durante cada visita nossa aos vários servidores de role-play, cruzamos com jogadores que não só nos assediaram dentro do jogo, mas que também fizeram tentativas de conseguir fotos reais e informações de contato.

O modo como a Blizzard permite que esse problema persista acaba interpretado como uma permissão para ampliar o escopo de chats eróticos para atos de estupro dentro do jogo.

Leia mais matérias de ciência e tecnologia no canal MOTHERBOARD.
Siga o Motherboard Brasil no Facebook e no Twitter.
Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter e Instagram .