"Não foram os artistas a criar esta performance, foi a ditadura"

Álvaro Figueiredo, curador da exposição que foi proibida na Casa França-Brasil, acredita que os artistas brasileiros estarão cada vez mais susceptíveis à censura.

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22 Janeiro 2019, 11:06am

Performance do grupo És Uma Maluca. Foto via Facebook

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Em 2014, em depoimento à Comissão da Verdade, a cineasta Lúcia Murat relatou um tipo de tortura até então desconhecido por grande parte da sociedade brasileira. "[Eles] gritavam, insultavam-me, puseram-me de novo no pau de arara. Mais espancamento, mais choques, mais água e dessa vez entraram as baratas", disse a ex-integrante da luta armada contra a ditadura militar sobre os policias que a torturaram. "Puseram baratas a passear pelo meu corpo, colocaram uma barata na minha vagina. Hoje, parece uma loucura, mas um dos torturadores, cujo nome de guerra era Gugu, tinha uma caixa onde guardava as baratas amarradas por fios e com isso ele conseguia manipular as baratas pelo meu corpo".

O relato chocante de Lúcia, que só tivemos a oportunidade de conhecer 43 anos depois da sua prisão e tortura, serviu de inspiração para que o escritor carioca Rodrigo Santos escrevesse o conto Baratária, sobre uma mulher que já tinha um trauma profundo em relação a baratas e, durante a ditadura, é torturada por militares que lhe colocam estes inscetos na vagina. O texto faz parte da exposição Literatura Exposta, em que obras literárias eram interpretadas por coletivos ou artistas plásticas na forma de performances, pinturas, esculturas ou instalações expostas na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro.


Vê: "O Mito de Bolsonaro"


Baratária foi interpretada pelo coletivo carioca És Uma Maluca, que idealizou uma instalação e uma performance baseadas no conto de Santos. Mas, a 13 de Janeiro último, dia em que a performance seria aberta ao público, o curador Álvaro Figueiredo foi surpreendido por um documento que comunicava o encerramento da exposição antes do combinado. A razão era uma aparente quebra de contrato, que não era especificada e o documento tinha sido assinado pelo governador do Rio, Wilson Witzel.

Em entrevista à VICE, Figueiredo, que curou a exposição em conjunto com o escritor, guionista e produtor cultural Julio Ludemir, contou que em nenhum momento lhes foram pedidas especificações sobre o conteúdo dos trabalhos que seriam apresentados. "A única questão que existia em relação à exposição era o facto de ter sido montada num espaço do Estado. A preocupação do IPHAN [Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional] desde o início era em relação ao que lá seria colocado, de modo a não prejudicar o espaço físico. No documento que mandei à produtora do evento, não há nenhuma descrição do conteúdo do trabalho, apenas descrições técnicas", assegura.

Antes da exposição ser fechada oficialmente, uma das obras, também feita pelo colectivo És Uma Maluca e inspirada por Baratária, foi vetada parcialmente pela Casa França-Brasil. Uma instalação chamada A Voz do Ralo É a Voz de Deus, que consistia em baratas de plástico a saírem de um ralo de onde também saía a gravação de um discurso de Jair Bolsonaro, foi impedida de utilizar a voz do presidente. O ralo passou a ecoar uma receita de um bolo.

Já perto da conclusão do evento, foi pedido a Figueiredo que fizesse uma performance no final da exposição. Ele enviou o documento do colectivo com a descrição da performance à Casa França-Brasil, que deu o OK e pediu apenas que fosse colocada uma restrição de idade. No domingo, porém, o evento foi vetado por completo. Em entrevista ao Globo, no domingo, Witzel alegou que a performance não estava originalmente no contrato, portanto, não poderia ser executada.

Na segunda-feira, 14 de Janeiro, o colectivo resolveu fazer a performance na rua, à frente da Casa. O áudio original de Bolsonaro, em que ele exaltava o coronel Brilhante Ustra, foi mantido e a artista, que originalmente se apresentaria nua, fez a performance vestida. Houve um ensaio de resistência por parte da polícia, mas uma advogada que estava presente interveio, explicando que no estado do Rio de Janeiro artistas de rua não precisam de autorização para se apresentarem.

Figueiredo classifica o acto do governo carioca como censura e especula que a preocupação "descabida" com a nudez e a imagem chocante da performance tenham sido as razões para tal. "Eu acho engraçado porque a És Uma Maluca não criou esta performance, quem a criou foi a ditadura, na altura. Eles apenas introduziram aquilo que está no texto [de Santos], que é baseado em factos reais".

Não é um caso isolado. Ao longo dos últimos anos, censuras como a da exposição Queermuseu e à performance do artista Wagner Schwartz no MAM, em São Paulo, têm deixado artistas e curadores em estado de alerta pela nova hegemonia cultural a ser imposta pela ascensão dos governos de extrema-direita no Brasil. E a tendência, segundo Figueiredo, é piorar. "Infelizmente, estamos susceptíveis [à censura]. O governo não se voltou a manifestar. A impressão é que vão continuar a tentar restringir este tipo de acções, pelo menos em espaços e equipamentos do governo", diz.

"É muito triste quando o artista, que é quem tem o poder de comunicar com o povo de maneira fácil, se omite ou prefere não se manifestar diante de alguma situação. A arte contemporânea, mais do que nunca, também tem esse papel".


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