Saúde

Algumas pessoas revivem viagens psicadélicas anos depois

Consumidores recreativos de drogas como LSD e cogumelos nem sempre vêem estes "flashbacks psicadélicos" como algo perturbador.
19 December 2018, 12:59pm
imagem psicadélica de uma mulher
Wizemark / Stocksy

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

Melissa Vitale, uma publicitária de 25 anos do Brooklyn, Nova Iorque, estava num intervalo de um treino intenso no ginásio quando a sala lhe começou a parecer estranha. “Estava praticamente exausta, mas queria acabar a ronda de exercícios”, recorda. E acrescenta: “Do nada, as paredes começaram a derreter e o chão a escorregar”. Vitale estava a ter um flashback de uma viagem de ácido e não era a primeira vez. “Sabia exactamente o que se estava a passar e, devagar, deitei-me no chão e estiquei-me até passar”, conta.

Phillia Downs, uma xamã de 40 anos, de Los Angeles, revive a sua primeira e única viagem de ácido de há 18 anos atrás cerca de uma vez por ano. “Vejo as paredes e o papel de parede a mexerem-se, ou vejo água a escorrer de uma parede, como vi antes, ou cartazes a mexerem-se”, sublinha.


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Um estudo de 2011 com 2.679 utilizadores regulares, levado a cabo pela Drug and Alcohol Dependence, descobriu que 60,6 por cento deles já tinham tido alucinações reminiscentes de viagens enquanto sóbrios. O LSD é a droga mais conhecida por causar flashbacks, mas isso também pode acontecer com cogumelos, DMT e, ocasionalmente, MDMA, diz James Giordano, professor de neurologia e bioquímica do Centro Médico da Universidade Georgetown. Distorções visuais comuns acontecem durante flashbacks, incluindo a percepção de objectos como maiores ou menores do que são, ver linhas a estenderem-se de objectos e reparar em algo a pairar na visão periférica.

Apesar de os flashbacks serem, geralmente, discutidos em avisos sobre os perigos das drogas, nem Vitale nem Downs os acham perturbadores. “[A viagem original] foi uma das experiências mais incríveis de abertura do coração e da mente da minha vida”, diz Downs. E sublinha: “Portanto, na verdade, gosto dos flashbacks. Fico fascinada a ver fotos e paredes a mexerem-se”. Ainda assim, Vitale teve uma experiência que lhe gerou ansiedade, ao ter um flashback enquanto conduzia. “As faixas brancas no meio da estrada estavam a transformar-se em coelhos e, como estava a conduzir à noite numa zona de floresta, onde tinha que ter cuidado com a vida selvagem, foi muito assustador”, conta.

Flashbacks “podem ser perturbadores e desencadear ansiedade e ataques de pânico, especialmente se o indivíduo tem um transtorno de saúde mental subjacente”, diz Sal Raichbach, psiquiatra especializado em dependências do Ambrosia Treatment Center. E acrescenta: “Alucinações podem ser uma distração ou desconfortáveis, dependendo do cenário. Também podem ocorrer em situações perigosas, como quando a pessoa está a conduzir”.


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Flashbacks desagradáveis como esses tendem, todavia, a passar rapidamente, diz Giordano. “Enquanto intermitentes, flashbacks agudos podem ser inicialmente uma surpresa e um susto para algumas pessoas, particularmente na primeira vez, mas tendem a ser bastante breves e não terrivelmente intensos”. No entanto, flashbacks psicadélicos podem ser mais sérios. O estudo mencionado anteriormente descobriu que 4,2 por cento dos utilizadores de psicadélicos relatavam flashbacks angustiantes ou debilitantes. Mas, Giordano acredita que esse fenómeno é, na verdade, bastante mais raro. Matthew Johnson, professor de psiquiatria e ciência comportamental na Universidade Johns Hopkins, concorda, estimando que “um em milhares de utilizadores” tem flashbacks que interferem com a sua vida.

Quando flashbacks crónicos comprometem a capacidade de uma pessoa para funcionar, essa condição é conhecida como Transtorno Perceptivo Persistente por Alucinógenos (HPPD na sigla em inglês). “Muitos consumidores relatam anomalias visuais breves, que ocorrem depois dos efeitos agudos de alucinógenos, mas só para uma minoria esses efeitos são preocupantes ou suficientemente debilitantes para serem considerados clinicamente significativos ou garantirem um diagnóstico como HPPD”, explica Johnson. E acrescenta: “Muitos utilizadores consideram esses efeitos subclínicos benignos e prazerosos”.

Não sabemos exaCtamente o que causa os flashbacks, ou porque é que podem acontecer tanto tempo depois da viagem original, mas Raichbach diz que é possível que venham de rupturas nos neurónios que filtram percepções sensoriais. Flashbacks de ácido em particular podem ser resultado da forma como o LSD se liga a neurotransmissores de serotonina, diz Giordano. O receptor de serotonina mantém a molécula de LSD no lugar dobrando-se sobre ela e, às vezes, esse par de moléculas esconde-se dentro das células nervosas. Se elas voltam à superfície, o LSD pode ter outra hipótese de afectar o cérebro, causando as mesmas mudanças de percepção experimentadas durante a viagem original.

É possível que mudanças no fluxo sanguíneo (como as que ocorrem durante exercícios) e o metabolismo do cérebro façam complexos de receptores com LSD e serotonina ressurgirem, acrescenta Giordano, o que poderia explicar a experiência de Vitale no ginásio. Flashbacks também podem ser desencadeados por “stress, ansiedade, falta de sono ou o pensar na experiência em si”, diz Santosh Kesari, neurologista e chefe do departamento de neurociências translacionais e neuroterapia do Centro de Saúde do Providence Saint Johns. Pessoas que usam inibidores de recaptação de serotonina (que incluem certos antidepressivos) e pessoas com transtornos no espectro psicótico, podem ser mais predispostas a flashbacks. Além disso, consumidores regulares têm mais probabilidades de experimentar flashbacks que consumidores ocasionais ou que só usaram uma vez, assegura Raichbach.

Tricia Eastman, fundadora do Psychedelic Journeys, uma comunidade que facilita cerimónias psicadélicas, já trabalhou com pessoas que experimentaram flashbacks agradáveis e desagradáveis de 5-MEO-DMT, um alucinógeno feito com veneno de sapo. Essas pessoas relatam flashbacks desencadeados por coisas como canábis, acupuntura e meditação. Aqueles que tiveram flashbacks negativos tendem a ter uma história de trauma em que trabalharam usando a substância, diz.

HPPD nunca foi relatado por pacientes de estudos clínicos envolvendo psicadélicos, portanto Johnson acredita que isso vem de condições particulares do uso de drogas ilícitas, como a contaminação por outras substâncias, outras drogas usadas simultaneamente e doses muito altas.

Drogas prescritas como medicação contra convulsões e Clonazepam às vezes são usadas para tratar HPPD. Mas, flashbacks comuns geralmente não exigem tratamento. Se passas por um flashback perturbador, Giordano recomenda lembrares-te de que vai passar depressa. “A concentração na respiração e outras técnicas de relaxamento podem ajudar a restaurar o foco e reduzir qualquer sentimento de ansiedade durante o flashback”, alerta.

Muitos clientes de Eastman encontraram alívio para flashbacks menos bons trabalhando com terapia somática e psicoterapeutas especializados em integração psicadélica. Ela também aconselha a tratar flashbacks como oportunidades para crescimento pessoal. “Permite que as reactivações ocorram num estado de consciência aberta e simpática”, salienta num dos seus trabalhos. E conclui: “A tua mente, corpo e espírito vão processar naturalmente a experiência de uma forma benéfica se, simplesmente, a entenderes como tal”.


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