Dez filmes que marcaram o cinema erótico brasileiro dos anos 1970
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Dez filmes que marcaram o cinema erótico brasileiro dos anos 1970

O documentário “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava” retrata a década a partir de pornochanchadas. Na semana de estreia do filme, a diretora Fernanda Pessoa comenta os pornôs mais marcantes.

Foi por um trampo na faculdade que Fernanda Pessoa começou a pesquisar as pornochanchadas. “Eu trabalhava na filmoteca da Faap e catalogava as fotografias do acervo de cinema brasileiro. Várias dessas imagens eram dos anos 1970 porque o coordenador Maximo Barro foi montador de muitos filmes da época”, conta. Assim é que nasceu o interesse pela produção. Logo aprendeu quem foram nomes como Jean Garrett e Ody Fraga e mergulhou na cinematografia erótica nacional. O resultado dos estudos iniciados em 2010 entra em cartaz nesta quinta-feira (23). Seu primeiro longa-metragem, o documentário “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava”, se utiliza de cenas de 28 obras do período para mostrar o que rolou na sociedade, na economia e na política do país na década, em plena ditadura militar.

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Em seis anos, a diretora e artista visual assistiu a cerca de 150 filmes, foi ao Arquivo Nacional, em Brasília, para analisar documentos oficiais da censura e apresentou uma exposição chamada “Prazeres Proibidos” no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, em 2016. Com isso, Fernanda fez um recorte que passeia por questões tão díspares quanto milagre econômico, êxodo rural, greves operárias e tortura de civis. Entre as conclusões, descobriu o comportamento dos militares em relação a tais obras. “Tem o mito que as pornochanchadas não foram censuradas, que o regime gostava delas, mas isso não é verdade. Várias foram até interditadas.” As razões apresentadas para tal, aprendeu aos poucos, eram mais morais, como falar palavrão ou até mostrar sequências em que personagens urinavam na rua.

Outra delas diz respeito à heterogeneidade da indústria que lançava filmes maliciosos, cheios de sexo e corpos nus. Nem todos tinham qualidade duvidosa. E cada um tentava falar de relações humanas a seu jeito. Conforme via as produções e entendia o tema, a diretora sacou que havia bem mais do que sacanagem ou do que poderia ser visto como “atentado aos costumes” pela ditadura. Todo o material pesquisado ganhou sentido maior quando ela se deparou com a frase “mesmo nos lugares mais improváveis, é possível achar traços da história recente”, parte do filme “The Fall of Communism as Seen in Gay Pornography” (“A Queda do Comunismo Vista pelo Pornô Gay”), dirigido pelo norte-americano William E. Jones.

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O curta-metragem lançado em 1998 e feito com imagens de fitas homoeróticas do leste europeu, após o fim da União Soviética, se tornou inspiração para esta paulistana de 32 anos fazer seu próprio painel. “Acho que o filme está aí justamente para levantar debate e falar de assuntos que são um tabu e dos quais não se fala. Sinto que os anos 1970, a ditadura no Brasil, ainda é algo que a gente não entende muito bem. Como se deu esse milagre econômico que aumentou a desigualdade social? Como o êxodo rural, com a superpopulação nas cidades grandes, ainda é uma questão? Como a corrupção começa ali, dessa forma que se conhece hoje, e as pessoas não sabem? Acho que tem muita coisa que não se conhece sobre o passado e isso faz com que pessoas sintam saudade da época dos militares. É essencial conhecer a história”, diz.

Agora, na semana de estreia do documentário, Fernanda fala à VICE sobre dez dos filmes que são retratados em sua produção e ainda dá três dicas de obras que não entraram na seleção. Saca só.

O Enterro da Cafetina (1971), de Alberto Pieralisi

Inspirado em livro homônimo de Marcos Rey, o filme fala de temas como boemia e sociedade de consumo a partir das lembranças de Otávio, papel de Jece Valadão. Durante o velório e o funeral de sua velha amiga Betina, o cara que ganha a vida vendendo slogans como frila acaba puxando da memória as noitadas com os amigos e toda uma lista de problemas com a polícia por tentar manter um cinema ou abrir uma revista (ambos pornôs). Sem se esquecer de sua incansável busca por uma noiva, o que inclui uma jovem Elisângela sempre acompanhada de um estojo de violino, subindo e descendo os morros de Santa Teresa em bondes. O filme recebeu vários cortes da censura, entre eles, o da sequência na qual o personagem de Valadão é liberado da prisão após dizer ao delegado que “Dez Dias que Abalaram o Mundo” é de autoria de um norte-americano. Hoje, é possível ver a cena tanto no documentário de Fernanda Pessoa quanto no YouTube, na versão integral da fita do italiano Pieralisi.

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O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “‘O Enterro da Cafetina’ é um filme que me surpreendeu muito porque fala explicitamente do golpe [de 1964]. Tem um personagem que é o melhor amigo do Jece Valadão, um cantor de ópera [Giannini, interpretado por Paulo Fortes] que é comunista, de guerrilha. Aí o Jece Valadão se envolve na luta armada também. No filme, eles falam de coisas que aconteceram, como ‘nosso presidente foi deposto’ ou ‘um dos deputados que quer destruir a Petrobras’. Então, é muito explícito o discurso político.”

Amante Muito Louca (1973), de Denoy de Oliveira

Tereza Rachel vive a "rainha da noite".

Espécie de “Blow-Up – Depois Daquele Beijo” à brasileira, rodado em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. É lá que um amante da fotografia (Stepan Nercessian) flagra o pai (Claudio Corrêa e Castro) se pegando com a amante. Tereza Rachel dá um show no papel de Brigite, dançarina de cabaré, gostosona e que se autodefine “rainha da noite”. Como no filme de Michelangelo Antonioni, há um terremoto no modo em que o fotógrafo vê a vida, mas aqui o recheio é de cenas marítimas, constante tesão pela empregada doméstica, o desvendar de comunidades alternativas à beira da estrada e o milagre econômico refletido na figura do chefe de família que trabalha de gerente de banco. Quem faz o diretor do teatro de revista é Jô Soares.

O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “Tem a Tereza Rachel, que é sensacional, um dos grandes destaques do filme. E a representação da família tradicional brasileira, de mostrar que na verdade a coisa não é bem assim. O pai tem uma amante, a filha é uma hippie e não tá a fim de desenvolver aquele papo, o filho tá revoltado com toda a situação. Aqui o interessante é pensar na questão da família”.

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A B… de Ouro (1973), de Pedro Carlos Rovai

Um dos três episódios da comédia “Os Mansos”, este média-metragem não teve qualquer clemência dos censores. A palavra “bunda” foi cortada do título e até dos diálogos. Em vão. Para começar, como aponta Fernanda Pessoa, as reticências davam margem a pensamentos ainda mais maliciosos. E não só: Sandra Bréa transborda sensualidade desde o primeiro segundo na tela, seja no caminho do apartamento para a praia, seja contando ao marido que queriam pagar para apalpar a sua… (assim mesmo, sem completar). O roteiro de Lauro César Muniz cria um crescendo de tensão no qual a proposta de um tarado – primeiro ignorada – se transforma em investimento incentivado pelo próprio companheiro da personagem de Bréa. Afinal, para Alípio (José Lewgoy), as cifras em jogo tinham “nada a ver com casamento e fidelidade”. Tanto que o negócio seria feito no escritório. O fim do filme é impagável.

O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “É o Mario Benvenutti querendo passar a mão na bunda da Sandra Bréa pagando qualquer valor que fosse. E o marido dela [José Lewgoy], que investe na Bolsa de Valores, controlando tudo. Na verdade, acho que esse foi o filme que me abriu os olhos para como o corpo feminino tá ali como metáfora do projeto de milagre econômico. Foi o primeiro filme que eu olhei e [pensei] ‘esse eu sei que quero usar, de qualquer jeito, no documentário’.”

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Café na Cama (1973), de Alberto Pieralisi

Tem todo um lado de comédia romântica: a mina que quer ser famosa e é fã da Barbra Streisand se envolve com o cara que tem grana na poupança, mas deseja mesmo vingar no automobilismo, virar o novo Emerson Fittipaldi. Ao mesmo tempo, retrata situações dignas da tal Lei de Gerson, a do “levar vantagem em tudo”. Também produzida com base em livro de Marcos Rey, a obra nos apresenta tipos como Flávio Aguiar, vivido por Rubens de Falco e que dá vários golpes vendendo ações, e o “tio” safado (Celso Faria) que só pensa em desvirginar a filha do melhor amigo. Destaques para Agildo Ribeiro na pele de Geraldo, dono da mecânica que quer ganhar corrida em Interlagos, e Tião Macalé interpretando funcionário do pretenso piloto. Já o brilho é da argentina Marta Moyano ao transitar entre a ingenuidade e a ambição.

O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “É um desses filmes que tem muito forte a representação da mulher como metáfora do milagre econômico. Há a Norminha [Marta Moyano], que quer ser atriz e vai passar por todo tipo de exploração sexual possível até virar modelo. Ela vai trabalhar numa loja e consegue o emprego porque um cara gosta das pernas dela. Tudo o que consegue é a partir daí. No filme, tem uma frase que é chocante [dita pelo personagem de Rubens de Falco]: ‘vocês, mulheres, é que são felizes. Já nascem com talão de cheque no meio das pernas’”.

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A Super Fêmea (1973), de Anibal Massaini Neto

Vera Fischer vive uma garota-propaganda de anticoncepcional masculino.

À época mais conhecida como miss Brasil 1969, Vera Fischer dava alguns de seus primeiros passos na carreira de atriz nesta comédia. Ela faz Eva, modelo descoberta por Onan Della Mano (Perry Salles), um guru da publicidade, para virar garota-propaganda de um anticoncepcional masculino. Com este plot, o filme discute revolução sexual e até o assédio vivido por quem está no auge da fama. Tem ainda Adoniran Barbosa no papel de Ernesto, citações a “O Poderoso Chefão” e a “Barbarella” e um jingle com o verso “ejacule, ejacule sem qualquer preocupação”.

O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “Também muito ligado à mulher. No filme, elas queriam a pílula masculina, que ainda é uma coisa em pauta hoje. Poderia vingar, mas os homens não tomam justamente porque têm medo da impotência. Era uma questão do filme, que já apontava para a masculinidade frágil, de não conseguir nem pensar em talvez eles serem responsáveis pelo método anticoncepcional, por medo de ficar impotente. Tem algumas curiosidades como o [cineasta e autor de novelas] Silvio de Abreu atuando, o que é incrível. É muito engraçado vê-lo ali, já de peruca.”

As Aventuras Amorosas de um Padeiro (1975), de Waldir Onofre

Maria do Rosário e Peréio, que levou estatueta de melhor ator coadjuvante no Festival de Gramado de 1976.

Essa jovem aí da foto, em destaque, é Ritinha (Maria do Rosário), mulher cujas aventuras amorosas acompanhamos neste filme. E o padeiro interpretado por Paulo César Peréio é apenas um dos homens que passam por sua vida. Aqui o tema da revolução sexual encontra o desejo feminino em potência, com diálogos sobre o que as personagens querem e uma cena antológica na qual se invertem os papéis e são elas que olham com atenção os peões trabalhando numa obra. Ator de clássicos como “Ganga Zumba” e “Macunaíma”, Waldir Onofre pinta a história com cores fortes sentado na cadeira de diretor. O flagrante de adultério que tentam armar na parte final da trama acena à tão falada catarse teatral: mescla escola de samba com encenação de “Otelo”, de Shakespeare, junta uma banda tocando “Je T’aime… Moi Non Plus”, de Serge Gainsbourg, a sessão de macumba. Pelo papel de dono de padaria, Peréio levou a estatueta de melhor ator coadjuvante no Festival de Gramado de 1976.

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O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “É um dos meus filmes preferidos da seleção. Sempre falo dele, acho excepcional. É um dos primeiros longas-metragens dirigidos por um negro, o Waldir Onofre, que também é ator do filme, o pedreiro. É o único filme dirigido por ele. E fala sobre questões muito atuais, como o aborto – a personagem [Ritinha] quer abortar e todos os homens em volta dela não querem isso. Ela casa virgem, descobre que não é nada disso que queria, vai ter um caso com um português – que é o Peréio –, vê que não é aquilo também e vai ter um caso com um homem negro [Haroldo de Oliveira]. Aí o racismo é colocado em pauta, a questão do relacionamento entre brancos e negros. Então, acho o filme incrível por esses dois motivos, por abordar esses aspectos.”

Vítimas do Prazer – Snuff (1977), de Cláudio Cunha

Nadir Fernandes é uma das atrizes de destaque.

O papo aqui é reto e gira em torno de temas como crise econômica, arrocho salarial e até dependência do capital estrangeiro. Dentro de um filme que flerta bastante com o terror. Na história, Edson (interpretado por Carlos Vereza) e Juarez (Canarinho) são tipo um Dom Quixote e Sancho Pança do cinema, tão fodidos quanto os personagens de Cervantes. Ao cruzarem seus caminhos com uma dupla de “gringos” com grana para bancar uma produção erótica, os dois pensam que a hora de sair da lama chegou, mas nem imaginam onde é que os pés vão mesmo parar. Figura histórica de Ipanema, Hugo Bidet faz o produtor Mike (na real, Miguel), que quer a qualquer custo gravar uma história com mortes reais. Por sua vez, Fernando Reski e sua cara de norte-americano dão vida ao diretor Bob, figura que reluta a aceitar tal ideia. No elenco, há ainda nomes como Roberto Machado, na pele de um ator recrutado num manicômio, e Rossana Ghessa, uma das musas deste período da cinematografia brasileira.

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O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “Muito interessante, pois trabalha com o mito do ‘snuff’, filme em que as pessoas morrem de verdade. É supermetalinguístico. Trata do momento de começo da decadência da pornochanchada e antecipa a questão do sexo explícito, que vai aparecer só em 1982, como evolução do gênero. Também fala muito do estrangeiro que vem aqui enganar o brasileiro, algo recorrente nestes filmes.”

Noite em Chamas (1977), de Jean Garrett

Um dos nomes da Boca do Lixo paulistana, Jean Garrett se inspirou em “Inferno na Torre” (1974), com Paul Newman e Steve McQueen, para contar uma história de suspense repleta de tensões sociais. A trama se passa num hotel de São Paulo, onde trampa João (Tony Ferreira), espécie de faz-tudo responsável pela casa de máquinas do edifício. Fulo da vida pelo acidente que seu amigo e parceiro de trabalho sofreu ali mesmo, dias antes, o cara vai planejar um atentado. Mas essa não é a única situação para acompanhar. Cheio de personagens metidos nas mais variadas encrencas, o filme apresenta uma colagem de episódios que retratam desde o abuso de drogas à propagação de seitas religiosas nos anos 1970. No roteiro, há flashbacks e, claro, sexo, com direito à cena na qual se escuta um “sua filha da puta, eu te amo”, seguido por um beijo ardente embaixo do chuveiro. O diretor Carlos Reichenbach tá no elenco, como um jornalista louco para achar um suspeito de assassinato hospedado ali.

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O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “Numa crítica da época, ele foi considerado um pornô social. Gosto do filme porque é bem dirigido, tem planos muito bons. Há uma luta de classes representada no trabalhador e no amigo dele que perde um dedinho. Temos a figura da Maria Lucia Dahl, que é uma atriz de pornochanchada decepcionada com a vida no meio, mas consciente de que ainda que não trabalhasse no ramo seria objetificada também. Acho que tem uma narrativa muito interessante porque são vários quartos, várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. Tem um casal que fala em divórcio, que é uma coisa muito em voga na época. O cara diz ‘você acha que é só assinar uma lei e o pessoal vai se divorciando?’. E é um filme bem da época em que a lei do divórcio tá saindo [1977]. Então, é bem social.”

Nos Embalos de Ipanema (1978), de Antônio Calmon

Roberto Bonfim e Paulo Villaça em cena.

Num cenário em que o surfe começa a se propagar, vive Toquinho (André di Biasi), jovem morador da zona norte carioca, que não tem um tostão furado e sonha dia e noite com as praias do Havaí. Em suas peripécias por Ipanema, o surfista pega onda e tenta transar com as garotas da região até conhecer o personagem de Paulo Villaça. André é gay e vai bancar o moleque deslumbrado com a zona sul por um tempo, em troca de sexo. É aí que Toquinho vira garoto de programa, pelas mãos de Das Bocas (Roberto Bonfim, hilário no papel). Comédia de costumes que rende risos e reflexões.

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O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “É um filme que mostra a era disco, pouco depois dos hippies, e uma juventude alienada e ambiciosa que só quer ficar na praia, não tem muito interesse político. E ele faz a inversão da exploração sexual, sendo aqui a do André di Biasi, um homem. Sem contar que acho o Antônio Calmon um dos melhores diretores do período. Tanto esse quanto ‘O Bom Marido’ (1978) e ‘Gente Fina é Outra Coisa’ (1977) são filmes que têm uma crítica social muito forte.”

E Agora José? – Tortura do Sexo (1979), de Ody Fraga

O filme tem papel de destaque no documentário de Fernanda Pessoa e ainda é visto como um ilustre desconhecido na história do cinema brasileiro. Nele, Arlindo Barreto (que depois viraria o Bozo mais famoso e inspiração para “Bingo: O Rei das Manhãs”) é José, preso por ter reencontrado Pedro, amigo dos tempos de faculdade e então considerado subversivo. Então, começam interrogatórios e torturas que atingem tanto o próprio José quanto mulheres ligadas aos dois. Diretor do erótico “Ninfas Diabólicas”, John Doo atua aqui, aparecendo em cenas como a que chuta a barriga de uma mulher pelada repetidas vezes dentro de uma cela. Pesado.

O que chamou a atenção de Fernanda Pessoa: “Quando estava fazendo minha pesquisa na Faap, foi esse o filme que me despertou interesse primeiro. Lá tinha várias fotos do set, de divulgação, e elas me deixaram muito impressionada porque tem imagens de tortura. E, ao assistir, foi ele que me mostrou uma grande contradição. Porque tem esse título, que é politizado, e tem o subtítulo, ‘Tortura do Sexo’, que mostra que é uma visão erotizada da tortura. Tem a morte do [jornalista] Vladimir Herzog, mas também é a versão oficial, de que ele teria se matado. Apesar de a gente poder dizer que há um indício de que talvez não seja, quando eles falam ‘onde ele conseguiu a gravata?’. Pode-se ler também como talvez eles questionando a versão oficial. Mas esse filme ficou na minha cabeça por muito tempo, até eu entender o que poderia fazer com ele. Assim que comecei a fazer a pesquisa para o documentário, eu falei ‘E Agora José?’ eu sei que já tá dentro. Preciso ver esse filme de qualquer jeito. Ele tem uma história interessante porque é o primeiro filme que vai a mostrar a tortura de civis por grupos paramilitares. Só que, quando saiu, ele não foi censurado. Aí, em 1982, tem o ‘Pra Frente, Brasil’ [de Roberto Farias], que é considerado o primeiro a falar de tortura de civis. E ele foi muito censurado. Então, como no ‘Pra Frente, Brasil’ teve censura, e no ‘E Agora, José?’, não, isso acabou trabalhando contra o ‘E Agora, José?’. E ele foi tido só como mais uma pornochanchada. ‘Se a censura não ligou para ele é porque não é político, não é importante’. Já o ‘Pra Frente, Brasil’ virou grande marco na luta pelos direitos civis.”

Três títulos que não estão representados na montagem de “Histórias que Nosso Cinema (não) Contava”, mas Fernanda Pessoa recomenda:

Fernanda Pessoa, diretora do documentário “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava”.

Cio – Uma Verdadeira História de Amor (1971), de Fauzi Mansur

“Nele, o Francisco Di Franco – um galã desse período – tem várias mulheres, conquista quem quiser, e se apaixona por um menino engraxate. Durante o tempo todo você fica ‘gente, como esse filme está mostrando esse machão apaixonado por um garoto?’. No final, você descobre que, na verdade, é uma mulher fantasiada de menino para poder trabalhar na rua engraxando sapatos. Mas você fica colocando em questão como o filme apresenta uma história dessas, já que geralmente eles mostram os homens gays de forma muito ridicularizada. E nesse filme, não. É narrada com muita humanidade a paixão dele pelo menino.”

O Ibraim do Subúrbio (1976), de Astolfo Araujo e Cecil Thiré

“Também tem uma representação muito interessante do milagre econômico e é um filme em episódios [dois, “Roy, o Gargalhador Profissional” e “O Ibraim do Subúrbio”]. É bem clássico de pornochanchada, de comédia.”

A Mulher que Inventou o Amor (1979), de Jean Garrett

“É um filme sobre uma mulher que é estuprada e decide virar prostituta. Aí ela começa a controlar os homens, descobre como manipulá-los pelo sexo. Então, dá essa virada. Ela também tem uma obsessão por um ator de novela e passa a ir atrás dele. Então, é uma história complexa, com uma personagem feminina superforte, da Aldine Muller.”

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