Skate

Leia e destrua: Cenas do skate underground na Inglaterra dos anos 80

Fotos da 'Read and Destroy', a revista que cobria o skate na Inglaterra em seu momento mais underground.
31 July 2018, 11:27am
Esquerda: Tony Janson em Southbank, 1983; Direita: Kev Kent em 1983. Fotos: Dobie Campbell.

A cena britânica do skate teve uma jornada tumultuada para chegar onde está hoje. O skate poderia ter morrido no Reino Unido no final dos anos 1970, quando as massas perderam o interesse e os skates foram parar nos baciões de promoção com outros brinquedos americanos, como o ioiô e o pogobol. Felizmente, bancas de discípulos hardcore de Guernsey a Glasgow viram o skate como mais que uma modinha.

Nos anos 80, enquanto trabalhava na Alpine Sports de Notting Hill – uma das poucas lojas de skate do país na época – Tim Leighton-Boyce começou uma newsletter para documentar a cena underground ao seu redor. Essa newsletter acabou virando a icônica R.a.D (Read and Destroy), uma revista que existiu de 1987 a 1995, e funcionava como um jornal DIY de skate e cultura jovem que mostrava não apenas skatistas e fotógrafos britânicos, mas também fornecia uma rede pré-internet onde os leitores podiam descobrir os picos de skate locais e entrar em contato com outros skatistas do país.

Andy Holmes e Dan Adams eram leitores vorazes da R.a.D nos anos 80 e 90, e nos últimos três anos – com ajuda dos editores e fotógrafos originais – fizeram um livro que conta a história da revista. A dupla atualmente está fazendo um financiamento coletivo para publicar Read and Destroy: The Book of the Magazine, então me encontrei com Andy para bater um papo na Universidade de Artes de Londres, onde ele é professor de design gráfico.

VICE: Como esse projeto surgiu?
Andy Holmes: É uma ideia em que estamos pensando há quase dez anos. Depois de várias tentativas fracassadas de começar, desta vez fomos abençoados por Sebastian Palmer, chefe da divisão de skate da New Balance Athletic. Ele entrou em contato no final de 2014 e prometeu algum financiamento para começarmos o desenvolvimento do livro; eles vêm apoiando esse projeto discretamente há um bom tempo.

Você era um leitor da R.a.D?
Sim, era uma parte muito importante da minha vida. Cresci na Ilha de Wight e a revista era minha única ligação com a cena maior no Reino Unido. A R.a.D aparecia sempre na nossa banca de jornal, enquanto a Thrasher e outras revistas americanas eram mais difíceis de encontrar.

Bradley Vine, Harrow, 1979. Foto: Tim Leighton-Boyce

Qual a trajetória do skate no Reino Unido de 1978 em diante?
O livro começa em 1978 quando o skate morreu “oficialmente”, aí vem o renascimento, a progressão e todas as pessoas que se envolveram nisso. O skate na Inglaterra foi de um extremo ao outro. O esporte chegou a um ponto parecido com o que vemos hoje, quase algo mainstream, algo que aparecia na televisão, e de repente caiu de um penhasco. No final dos anos 70, todas as revistas tinham acabado, as vendas despencaram e o skate era visto como uma coisa de ontem.

Como um brinquedo velho.
Sim, visto exatamente como o bambolê, uma modinha. Aí você ficou com um grupo hardcore que estava pouco se fodendo para o colapso do esporte no mainstream. Eles prometeram que não iam parar de andar, e em vez disso foram reconstruindo a cena. De 1978 até por volta de 82 o skate era super underground; se via alguém de Vans na rua, você saía correndo para falar com a pessoa porque tinha uma boa chance dela também curtir skate ou BMX. Era muito raro ver pessoas como a gente.

Phil Burgoyne, Farnborough, 1985. Foto: Tim Leighton-Boyce

E as pistas de skate na época?
Nos EUA, eles tinham esse grande problema com segurança e processos, mas aqui você podia construir um half no meio de um campo e se a garotada quisesse se matar nele, beleza, o que era ótimo! Você tinha pistas de cimento rachado e pedaços que sobraram de pistas dos anos 70. Os skatistas viajavam pelo país para se conhecer e andar de skate, mantendo contato por telefone ou carta. Não havia uma pista nova em construção na época; a exceção sendo Livingston – que era mais um half pipe de quintal – o jeito era arranjar madeira e construir sua própria pista.

Legal. Fora as fotos de skate, o que mais tinha na revista?
Tinha a seção “The Where? Guide”, que era um diretório de picos no Reino Unido. Os lugares variavam de uma calçada atrás de um supermercado na sua cidade, até um mini ramp incrível no meio do nada. Era um guia que Tim Leighton-Boyce queria publica para contribuir com a cena – só assim isso daria certo. A seção fez as pessoas perceberem que não estavam sozinhas e que havia cenas surgindo por toda parte.

A rampa de Hartford, 1988. Foto: Tim Leighton-Boyce

Por que a equipe acabou com a revista em 1995?
A equipe editorial que comandava a revista nos últimos dois anos era de uma geração totalmente diferente daqueles que a começaram. Essa equipe da R.a.D teve a oportunidade de deixar sua editora e fazer algo próprio. Eles queriam se desligar da editora completamente. Então a R.a.D acabou e eles começaram a revista Sidewalk. Era uma oportunidade de ver o melhor que eles tinham feito e se redefinir de novo, e isso se tornou a Sidewalk, e um novo capítulo começou – o que foi fantástico.

A equipe trabalhando no livro da R.a.D está levantando dinheiro para seu projeto pelo Kickstarter.

Veja mais fotos da R.a.D abaixo:

Ratos de pista, Southsea, 1988. Foto: Tim Leighton-Boyce

Derek "Jingles" Jingoree, 1979. Foto: Tim Leighton-Boyce

A banca de Brighton, 1978/79. Foto: Tim Leighton-Boyce

Simon Evans, Kennington, 1992. Foto: Tim Leighton-Boyce

Matéria originalmente publicada pela VICE Reino Unido.

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