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Foto: Larissa Zaidan/VICE
Cultura

O gótico nunca morreu, porque sempre esteve morto

E os membros desta subcultura estão fartos do estereótipo "ser triste, vestir de preto e ir para o cemitério beber vinho químico".
30 July 2018, 9:31am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Já há algum tempo que se discute a morte definitiva do rock como um género influente na cultura mundial. No entanto, a subcultura gótica nunca precisou de se preocupar em estar viva ou atrair mais jovens para a cena. Simplesmente existe, porque bastam duas almas interessadas em arquitectura gótica ou nas poesias de Augusto dos Anjos [ou de Fernando Pessoa, por exemplo], mesmo que "presas" numa cidade provinciana ou bastante quente, para garantir a continuidade da identidade.

Já que decretámos o rock como morto, porque não celebrar o Dia Mundial do Rock [que se celebrou a 13 de Julho último] com uma homenagem aos góticos? Esta subcultura sofreu e sofre do mesmo mal do punk. O seu visual foi esmiuçado, pasteurizado e vendido de todas as formas possíveis. Os seus seguidores já tiveram que ouvir que os Evanescence eram a próxima promessa do género e são vistos como caricaturas: tristes, melancólicos, (talvez) satanistas e consumidores de vinho químico em cemitérios.

É óbvio que esta caricatura da pessoa gótica está longe de ser real. Os góticos são ávidos consumidores de literatura do século XIX, são os que mais se importam com a preservação da história sem ligarem à “morbidez” que disso advém e são, também, muito mais comprometidos no apoio à sua cena local, seja participando em festas do género ou disseminando informação sobre a cultura gótica.

Para representar com classe o universo gótico de São Paulo, Brasil, convidámos um grupo de amigos da subcultura para uma iniciativa que poderia soar inusitada para as pessoas ditas “normais”. Juntámos a rapaziada numa carrinha e partimos para a enevoada Paranapiacaba, distrito de Santo André, no ABC paulista [região de cidades industriais nos arredores de São Paulo].

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Encontrámos umas algemas neste barracão em Paranapiacaba. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Fundado em meados do século XIX como um posto de controlo e também de residência para os funcionários da São Paulo Railway, companhia que fazia a ligação do interior cafeeiro do estado através das primeiras linhas de comboio, o distrito ainda mantém muita da arquitectura original da época e é um conhecido ponto turístico da região metropolitana de São Paulo.

Muitas vezes coberta pela neblina da serra, Paranapiacaba tem muito de uma Londres vitoriana imaginária, o que atrai uma pequena horda de góticos para um encontro anual ali realizado desde 2016 – isso sem falar da beleza do antiquíssimo cemitério do distrito. Não haveria melhor sítio para apresentarmos os nossos homenageados.

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Foto: Larissa Zaidan/VICE

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Foto: Larissa Zaidan/VICE

A primeira coisa que o professor de Geografia Freon Sad mostrou quando estávamos a caminho de Paranapiacaba juntamente com outros cinco góticos, foram três volumes da sua zine Última Quimera, dedicada a registar a cena gótica de São Paulo e também discutir assuntos como representação feminina, a importância da preservação da memória de cemitérios da cidade e, obviamente, resenhar os últimos lançamentos de bandas góticas.

“Acima de tudo, o Última Quimera nasce do desejo de construir um canal de participação colectiva, com conteúdo aberto e plural e acima de quaisquer rivalidades e vaidades”, escreve o próprio Freon (também conhecido como Sad na cena gótica) na introdução da publicação.

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O grupo de amigos não estava completo naquele dia, porém são sangue, carne e vísceras de uma subcultura que sempre preferiu fugir dos holofotes para existir como um refúgio para os rejeitados, os incompreendidos ou, simplesmente, para aqueles que curtem muito Sisters Of Mercy.

A pedido dos entrevistados, usámos apenas os apelidos para os identificar.

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Freon Sad. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Freon Sad, 33 anos

“Acredito que quando o gótico saiu dos grandes media foi quando a subcultura e a sua identidade começou a desenvolver-se melhor. O gótico realmente nunca morreu, sempre existiu ao longo deste tempo. Há, até hoje, bastante gente que se identifica. Mas, percebemos que a forma de as pessoas se relacionarem com a subcultura mudou.

Se, antes, tinhas uma identificação musical e de atitude, hoje percebemos que a identificação geralmente acontece mais pela parte visual, portanto a estética do gótico foi vendida, pasteurizada e muitos acabam por se aproximar pela estética. O problema talvez nem seja aproximarem-se por isso, mas sim o facto de pararem por aí”.

Um livro: Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos
Um filme: Esta noite encarnarei no teu cadáver, de José Mojica Marins (Zé do Caixão)
Uma banda: Cabine C
Um cemitério: Cemitério da Quarta Parada

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Kei Hrist. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Kei Hrist, 23 anos

"A subcultura gótica é praticamente como um estado de alma. Tudo aquilo que é abordado é uma forma de sentir, de expressar, de pensar e não somente através da música, mas até na sua estética, concepções e autonomia. Não faz distinção entre géneros, etnias ou orientação sexual, portanto é uma identidade completa. Em todos os sentidos”.

Um livro: C_onfissões do Crematório - Lições Para Toda a Vida, de_ Caitlin Doughty
Um filme: Fome de Viver, de Tony Scott
Uma banda: Mephisto Walz
Um cemitério: Cemitério do Araçá

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Lays Bittersweet. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Lays Bittersweet, 28 anos

“A maquilhagem e a moda gótica costumam ser sempre o primeiro assunto que atrai as pessoas. Para falar da questão visual, da roupa, da maquilhagem, tinha de ter um espaço muito maior para conseguir esmiuçar a real importância dessas questões na subcultura gótica, porque este visual vem de várias vertentes da arte, do cinema e até mesmo da moda dos anos 1980, que tem todo um contexto social. Tudo tem um simbolismo. Tudo tem um significado. O próprio moicano, a própria maquilhagem, o tipo de sombra que usas.

Existe essa preocupação de como as coisas da cena gótica são representadas. Portanto, temos essa preocupação em não parecer pejorativo, porque isso vai sempre pela construção errada de como as pessoas vão ver. Depois, quando um artigo abrange aquele lado do gótico que vai para o cemitério para beber e dançar em cima de um túmulo, reforça cada vez mais que a única coisa que sabemos fazer é isso. Sendo que não é. Aqui, quase toda a gente partilha uma visão muito específica a respeito do cemitério, tanto que não é um lugar que frequentemos muito. Eu sou contra fotos no cemitério e contra ir para lá fazer vídeos. Porque é um lugar de visita e de memórias. Faz parte de algo importante da sociedade. As pessoas perderam entes queridos e estão ali e tens que ter uma postura respeitosa, sabes? Um túmulo não é um banco, nem uma pista de dança, nem um motel”.

Um filme: Eduardo Mãos de Tesoura, de Tim Burton
Um livro: Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë
Uma banda: Kommunity FK
Um cemitério: Cemitério da Santa Casa em Porto Alegre (RS)

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Liesel Raum. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Liesel Raum, 23 anos

“Há muito essa questão de identidade dentro da cena, porque na maior parte dos casos há essa questão de góticos serem muito pálidos e brancos. E quando vens para o Brasil, que tem uma mistura muito grande, ficas “Ah, mas a pessoa não pode ser gótica e negra?”. Nós existimos. Eu sou a famosa white person, porque o meu cabelo é crespo, mas a pele é meio clara, então vejo que os meus amigos negros sofrem mesmo, eu não sofri tanto. No entanto, em casa ouvi muito mais coisas até pela questão de “Não tens nada a ver, porque é que te estás a meter com essa gente? Com essa seita?”.

Um filme: Amantes Eternos, de Jim Jarmusch
Um livro: A Hora do Vampiro, de Stephen King
Uma banda: Merciful Nuns
Um cemitério: Necrópole de São Paulo

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Crow Corvo. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Crow Corvo, 29 anos

"Acredito que o maior medo do ser humano é o desconhecido. É algo unânime entre os estudiosos de sociologia, ou psicologia. Não há discussão. Tendo isso em conta, como no Brasil o cemitério acaba por ser um local onde as pessoas vão pouco, acaba por gerar uma certa dúvida. Uma das principais perguntas que me fazem é o que é que eu vou fazer ao cemitério? Ou seja, as pessoas não sabem o que acontece e o porquê de eu lá ir. Esse desconhecimento acaba por causar um grande medo em relação ao local, um medo de nós".

Um filme: Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola
Um livro: Frankenstein, de Mary Shelley
Uma banda: Kirlian Camera
Um cemitério: Cemitério Municipal de General Salgado, interior de SP

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Nathalia Snow. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Nathalia Snow, 22 anos

“Já cheguei a questionar-me. Tipo 'Ah cara, tantas minas brancas e você querendo ser gótica e sendo mestiça, negra?'. Não faz sentido para muita gente de fora, porque não vês referências. São sempre as referências europeias e todas no mesmo 'padrãozinho', mas depois disso comecei a pensar que posso ser a minha própria referência, ou ser referência para outras pessoas”.

Um filme: Sweeney Todd, de Tim Burton
Um livro: Contos Extraordinários, de Edgar Allan Poe
Uma banda: Lebanon Hanover
Um cemitério: Cemitério da Quarta Parada

Colaboraram os repórteres Bruno Costa e Julia Reis


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