Como é assistir ao jogo do Brasil numa Feira de Armas
Foto: Matias Maxx

Como é assistir ao jogo do Brasil numa Feira de Armas

Naqueles noventa minutos, nenhum armamento foi negociado.
28.6.18

A seleção brasileira pode estar em jejum de 16 anos de título na Copa, mas quando o assunto é armamento e homicídios, o Brasil está sempre entre os campeões. De acordo com pesquisa de 2017, o país é hoje o terceiro maior exportador de armas leves no mundo. (Ainda que no quesito transparência dessas negociações fique no 39º lugar dentre 49 países exportadores.) Já em relação às taxas de homicídios, só no Rio de Janeiro, no ano passado, 1127 pessoas foram mortas em decorrência de ação policial e 119 policiais foram assassinados. Números quase insuperáveis.

Esse pico de violência, associado à crise econômica, colocou o estado sob intervenção federal militar desde o início do ano e, não à toa, a Cidade Maravilhosa foi escolhida para sediar a Ridex (Rio International Defense Exhibition), uma feira de segurança que acontece junto da BID Brasil, a mostra da base industrial da defesa do Brasil.

Embora o dia fosse de abertura, a feira não estava muito cheia devido ao jogo entre Brasil e Sérvia. Os manda-chuvas de patente alta e bigode grosso que participaram da cerimônia de abertura se adiantaram e, pelos estandes, trocaram as apresentações de radares e armamentos para exibir a equipe canarinho.

A feira acontece nos armazéns 3 e 4 do Pier Mauá, com direito a quatro grandes navios de guerra atracados. Diferente de outras feiras de defesa e segurança que cobri, a Ridex tem uma predominância de expositores brasileiros, mas conta também com estandes de empresas dos Estados Unidos, China, Alemanha, França, Holanda, Suíça, Suécia, Colômbia e Peru.

Enquanto eu andava entre os estandes quase vazios, percebia a reação padrão do torcedor nacional: galera xingando o Neymar, falando do psicológico dos jogadores, fazendo fofoca. Até mesmo os locais de interação, como este simulador de paraquedas, estavam desérticos.

Simulador parecia a melhor atração do evento. Foto: Matias Maxx

O único estande que tinha algum movimento era o que trazia armas de fogo: o da Taurus. Com seus modelos à disposição presos em cabos de aço, seria, em tese, um lugar muito disputado entre paintboleiros e outros geeks do mundo do armamento. Durante o jogo do Brasil, porém, não havia muitos interessados, e as peças foram devidamente recolhidas.

Segundo reportagem da Folha, em 2016 o Ministério Público denunciou dois ex-diretores da Taurus por venderem 8 mil pistolas para um conhecido traficante iemenita. Em nota, a empresa afirmou ao jornal ter retido a entrega e devolvido o pagamento após tomar conhecimento da reputação do comprador. A empresa brasileira, que detém o monopólio da comercialização de armas para a Política Militar, também é questionada pela má qualidade de seus produtos. Mesmo diante de tantas queixas, sua apresentação era irretocável por ali.

Outros estande que mereceu atenção foi o da Condor, fabricante brasileira líder mundial no mercado de armamentos menos letais. Como sabemos, produtos da companhia foram usados para reprimir protestos da Primavera Árabe e na Venezuela e, aqui no Brasil, os negócios vão muito bem também. Afinal, seja em arquibancadas, ruas ou presídios, distúrbios da ordem são reprimidos com muita bala de borracha e gás lacrimogêneo. Eles apresentaram algumas novidades, mas o pessoal tava mais interessado mesmo no jogo.

No mais, enquanto Paulinho fazia o primeiro gol, percebi uma predominância de estandes do setor naval. Este estande de uma empresa naval ligada à Odebrecht regou militares e civis de cerva e petiscos a partida inteira no radar.

Por ali fiquei um tempo e acompanhei o Brasil ganhar da Sérvia e se classificar pras oitavas de final. Pelo menos naqueles 90 minutos, nenhum armamento foi negociado.

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