Todas as fotos cortesia de Brock Elbank. 

Este fotógrafo quer mostrar que o vitiligo também é bonito

Brock Elbank está a fotografar mais de 100 pessoas que sofrem com a descoloração da pele.

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jun 5 2018, 2:37pm

Todas as fotos cortesia de Brock Elbank. 

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D USA.

Nunca me vou esquecer da primeira vez que vi alguém com vitiligo. Isto, porque foi um momento de que tenho muita vergonha. Era o primeiro dia de aulas do sétimo ano e a nossa turma estava a fazer aquele jogo de “conhecer os colegas”: ficávamos de costas uns para os outros, depois virávamo-nos e fazíamos caretas ao colega. Virei-me e vi o meu parceiro e os círculos irregulares rosados que pontuavam a sua pele. Apanhei um susto. “Assustei-te”, disse ele entre risos e a pensar que a careta de monstro que estava a fazer era o que tinha provocado o susto. Fiz um sorriso envergonhado, secretamente a imaginar se não tinha apanhado a “alergia” que achei que ele tinha. Voltei a correr para a minha carteira.

No dia seguinte, no caminho para a escola, falei sobre a situação com a minha mãe e perguntei-lhe qual era o "problema" do meu colega. “Ele nasceu assim”, disse-me ela e explicou-me o que era vitiligo. “Não é uma alergia”, garantiu. Era muita coisa para o meu cérebro de 12 anos processar e, para ser honesto, só ao ver Winnie Harlow no America's Next Top Model é que reparei na beleza daqueles padrões assimétricos.

Infelizmente, ignorância e medo injustificado em relação a vitiligo ainda correm soltos pelo Mundo. Michael Jackson, a pessoa mais famosa da cultura popular com esta condição de pele, morreu sem que boa parte do público entendesse ou acreditasse que ele tinha vitiligo e que esse era o factor-chave da descoloração da sua pele. As pessoas pensavam que ele queria ser branco.

Bashir Aziz

Com a sua mais recente série, Brock Elbank está a trabalhar para destacar a beleza do vitiligo. No projecto, o fotógrafo, que vive em Londres, capta uma mistura de modelos e não modelos com vitiligo, que encontra principalmente pelo Instagram. O glamour das suas fotos visa desfazer o estigma que muitos dos participantes ainda encontram nas suas vidas, colocando as suas identidades e características físicas sob os holofotes. E com todo o direito. Não têm nada a esconder.

“Muitas vezes, a sessão de fotos acaba por ser uma autêntica sessão de terapia”, diz-me Brock em conversa telefónica. E acrescenta: “As pessoas falam sobre coisas profundas. Fotografei uma rapariga de Trinidad e Tobago, que é negra e perdeu toda a sua pigmentação. É mais branca que eu. Contou-me que demorou 15 anos para se acostumar ao seu tom de pele".

Muitas das pessoas fotografadas por Brock fizeram parte do projecto não por vaidade, mas para se sentirem integrados numa comunidade. O fotógrafo dá um exemplo: “Há um homem que tinha 50 anos quando foi de férias, apanhou um escaldão e isso desencadeou o vitiligo. Metade da sua cara perdeu pigmentação. Aos 50 anos, foi um desafio para ele. Viu a série e pensou 'Não conheço ninguém com vitiligo, quero fazer isto por mim e conhecer outras pessoas que têm a mesma condição'”.

Nile Goodlad

Ao longo da sua carreira, Brock tem vindo a dar destaque ao facto de certas características físicas nos ajudarem a formar tribos e moldar as nossas identidades e experiências de vida. Antes desta série, fotografou pessoas de todo o Mundo com sardas e, antes, pessoas com barba. “Acabo sempre atraído por pessoas que se destacam na multidão”, salienta Brock. E acrescenta: “Os media percebem a beleza como sendo X, Y ou Z. Acho isso muito chato. Se fores a uma agência de modelos - e não me entendas mal, essas pessoas são espécimes incríveis da raça humana - toda a gente tem barrigas perfeitas, pernas longas, rabos empinados. Acho que isso torna tudo muito sem sal”.

Encontrar e captar imagens de pessoas com vitiligo tem sido um esforço em larga escala para Brock, tendo em conta que a condição é bastante mais rara que barbas e sardas. Sentiu-se atraído principalmente por pessoas que ainda não conseguiram contratos de modelo, por exemplo. Quer fazer mais que, simplesmente, tirar uma foto bonita - também quer que estas pessoas saiam da sessão a sentirem-se bonitas.

“Penso que as pessoas que não estão acostumadas a serem fotografadas são as mais fáceis de fotografar”, explica Brock, preferindo deixar de lado os cenários padrão da indústria e fotografar no seu estúdio em casa. E justifica: “Quero que as pessoas tenham uma experiência positiva e relaxem. Tenho de conhecer estas pessoas. Portanto, converso com elas 60, 90 minutos antes de fotografar”.

Sandra Terepins

Ao longo de um ano que leva a trabalhar nesta série, Brock já fotografou 35 pessoas (e um cão). E ainda não acabou, diz: “Quero algo entre 60 e 90 pessoas e, provavelmente, vou continuar a fotografar até meio do ano que vem”. Quando terminar, espera fazer uma exposição. Se conseguir, há muita gente no Mundo que vai acabar com mais do que simplesmente material incrível para o Instagram. Estas pessoas vão ter uma auto-estima muito maior. “O que elas vêem como a sua fraqueza, vejo como a sua força”, salienta.

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Matéria originalmente publicada pela i-D.
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