"Maniac" leva saúde mental e existencialismo para um futuro distópico

Emma Stone e Jonah Hill reúnem-se para uma jornada pelas profundezas da mente na nova série da Netflix, remake de uma produção norueguesa.

Por Lauren O'Neill; Traduzido por Madalena Maltez
|
04 Outubro 2018, 4:07pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Reino Unido.

Remakes norte-americanos de filmes e séries de televisão de outros países (especialmente Reino Unido e Escandinávia) geralmente dão-me a volta ao estômago. Desculpa a sinceridade, mas infelizmente é real: fora o The Office dos EUA, as reinvenções norte-americanas de material europeu geralmente dão merda. Deixa-me Entrar foi horrível, com quase nada da beleza arrepiante do original sueco; melhor nem mencionar as tentativas com Skins e The Inbetweeners; morro de medo de pensar na borrada que vão fazer com o meu precioso Love Island. No geral, remakes não são o forte dos EUA, apesar de eles acharem que são.

Acho que esta questão advém mais ou menos de um círculo vicioso: há gente que acha que as sensibilidades norte-americanas são as sensibilidades mainstream (que millennial não cresceu a ver Friends?), porque as produtoras de lá são as mais ricas do Mundo ocidental, portanto as que fazem mais coisas. Por sua vez, essas são as coisas a que somos mais expostos, mesmo no Reino Unido, o que significa que podem ditar as nossas expectativas. E, como tal, ficamos convencidos da sua universalidade. E assim por diante.

Mas, os EUA são um país muito grande, extravagante e armado em bom - são praticamente um grande musical, no palco mundial pelo menos - e, geralmente, não sacam os conceitos de outros sítios que podem exigir mais moderação, ou que surgiram em primeiro lugar pelas suas idiossincrasias geográficas (pensa no noir escandinavo, por exemplo, nascido dos invernos parados mas implacáveis do Norte da Europa).

Claro que é possível fazer transições de sucesso da Europa para os EUA - sendo a minha favorita a incrível Veep, que funcionou precisamente porque a política é uma coisa tão local que se adapta sem esforço ao léxico burocrático norte-americano -, mas isso geralmente acontece quando a versão US reconhece a sua "americanidade". E vais ficar feliz em saber que esse é um ponto forte de Maniac, uma adaptação livre de uma série norueguesa da Netflix, realizada por um dos cérebros da primeira temporada de True Detective (e agora o grande homem por detrás de James Bond), Cary Fukunaga.

Qual é a cena de Maniac?

Num sentido Black Mirror, “mas e se agora fosse ligeiramente mais assustador?”, Maniac começa numa Nova Iorque onde pequenos Wall-Es de limpeza vagueiam pelas ruas a recolher cocó de cão e onde escolher ouvir ao vivo um infomercial pode substituir pagamentos por itens e serviços. A Nova Iorque de Maniac é uma alternativa sombria da Cidade Que Nunca Dorme que geralmente vemos no ecrã, com anúncios em néon da Oral B na casa das pessoas. Resumindo: é uma distopia, meu anjo!

Depois do zoom, conhecemos Owen Milgrim - a ovelha negra com problemas mentais da família, que vê uma versão de bigode do seu irmão idiota e recebe mensagens de “o padrão é o padrão” - e Annie Landsberg, retratada no começo como uma maniac pixie dream girl infeliz e raivosa. Mas, a personagem evolui. Annie e Owen encontram-se num arriscado teste farmacêutico para um comprimido que promete felicidade, no ponto em que o visual e o clima anteriormente sugeridos pelos toques futuristas retro, como os robots catadores de fezes, realmente explode, e Maniac se transforma num bolo Bruce Bogtrotter para os olhos, com linhas arrojadas e cores vibrantes. É através do teste do medicamento que chegamos ao tutano da série, com Annie e Owen eventualmente a reviverem os seus traumas, através de alucinações conjuntas que se traduzem no ecrã por cenários fantásticos de inversão de género.

Quem está na série?

Obviamente, a maior atração: reunidos pela primeira vez desde Superbad, marcado na cabeça de toda a gente que alugou o DVD quando ainda era menor de idade, Emma Stone e Jonah Hill estão de volta e a sua química ainda é tão divertida de ver como em 2007.

Aqui, os dois actores vão contra os tipos de personagens que estabeleceram nas suas carreiras de sucesso: Hill é uma surpresa na pele do rabugento Owen Milgrim, enquanto Stone é cortante (apesar daquele cabelo descolorido não ter ficado muito bom em cima da sua cara tão saudável), mas cada um pode usar a sua versatilidade nas sequências de alucinação, que passam por fantasia, acção e, bem, um resgate de um lémure. Além disso, Jemima Kirke e Sally Field aparecem e há também tem uma pontinha de Justin Theroux. Gente grande!

OK, óptimo - mas, é bom?

Bem bom, podes crer. Demorei um tempo a embarcar mesmo em Maniac, principalmente porque a história é meio difícil de acompanhar, com muitas novas linguagens e conceitos no início - mas quando a coisa descola é um belo entretenimento que parece realmente original; ou tão original quanto um remake americano de uma série norueguesa pode ser.

Nisso, vamos voltar ao que falei no arranque: Maniac funciona, porque pega no conceito vago do original (as muitas diferenças são explicadas aqui pelo pessoal da Vulture) e transforma-o numa exploração do género de Hollywood mais que qualquer coisa - há referências a Senhor dos Anéis e comédias clássicas e serve muito bem aos actores, além de se tornar algo que só faz sentido se é americano. A série não perde a especificidade, o que é importante para o seu sucesso no geral.

Posso ver com a minha mãe ou há cenas de sexo?

É moderadamente mãe-friendly, mas vais querer sair da sala nas partes em que Justin Theroux se masturba em realidade virtual (ou não)? Mas, ela provavelmente vai gostar e de certeza que vai dizer algo do tipo “Ahh, é um pouco... psicológico! Não é?”.

Quais as condições perfeitas para ver?

Vais querer desesperadamente ver tudo de uma assentada, mas aconselho-te a ter calma, ou vais dar cabo da cabeça e/ou encher a cabeça aos amigos no bar a falar sobre existencialismo. Não sei o que é pior.

Vai render uma "tempestade de merda" no Twitter?

Não uma "tempestade de merda", mas mais algumas notas de valor. Maniac recebeu boas críticas no geral e a sua criatividade é muito cool e nova, mas alguns críticos observaram que, apesar das boas intenções (Fukunaga disse que pretendia “derrubar o estigma das doenças mentais”), a abordagem da série à doença mental é meio simplista.

No entanto, outros elogiaram a forma como a série reconhece o processo gradual de entender e lidar com problemas de saúde mental - especialmente crucial para o personagem de Owen, que tem esquizofrenia. Saúde mental é um conceito muito pessoal, portanto as respostas vão variar, mas consigo ver como eles podem usar doenças mentais basicamente como uma mola para o enredo.

Últimas palavras?

O meu conselho a um nível prático: investe nos primeiros episódios e não vejas a série antes de ires para a cama. A um nível existencial: prepara-te para questionares o teu passado e a realidade fundamental.


@hiyalauren

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.