Dei um murro na cara ao meu patrão

Já não o aguentava mais.

|
07 janeiro 2013, 4:00pm

“You just punch the clock / Too scared to punch your boss!”  Dead Kennedys

Dei um murro na cara ao meu patrão. Ele tinha acabado de dizer que me ia reduzir o salário. Assim sendo, convidei-o para chupar a minha pila e bazei. O gajo seguiu-me até à rua e, de forma muito pomposa, exigiu saber o porquê de eu me estar a ir embora. Disse-lhe que ele era um cabrão e que, há muito, tinha passado os limites, para ser tolerado por menos dinheiro ainda. Sem nada a dizer, ele lembrou-se de me desafiar para uma luta. Por isso, e citando o Muhammed Ali: “Começámos à bulha porque não nos dávamos bem.”

Descemos o passeio até Bushwick, enquanto uns gajos nos encorajavam em espanhol. Percebi logo que o meu patrão não estava propriamente à espera que eu lhe fizesse frente — era só mais um fanfarrão. Começámos a nossa rixa premeditada e fui-lhe logo ao pêlo, sem merdas. Agarrei-o pelo cabelo com uma mão e dei-lhe, com a outra mão — em cheio na boca. Uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes… Um tufo de cabelo ficou-me na mão. Ele desistiu e pediu tréguas, depois de ter o olho esquerdo já fechado, de tão inchado que estava.

Por esta altura, já me tinha divertido o suficiente, por isso aceitei. Disse-lhe “foi bom ter trabalhado contigo!” e tentei ir-me embora, mas ele chamou-me de volta. Tinha sofrido uma misteriosa mudança de atitude e disse que me iria deixar ficar no emprego, com o meu ordenado original. Tinha conseguido regatear como um verdadeiro otário.

Desde o início que devia ter suspeitado que este gajo era má rês. Logo para começar, na entrevista de emprego, passou metade do tempo a falar mal dos outros empregados, a dizer que eram preguiçosos e incompetentes. Mas, por esta altura, eu já tinha aprendido que seria assim em qualquer lado em que trabalhasse — os patrões e os trabalhadores têm interesses opostos. E os patrões sabem-no bem. Quanto aos trabalhadores… Devem sofrer de um sério caso de Síndrome de Estocolmo para não o reconhecerem. De qualquer modo, já tinha trabalhado para os maiores cabrões possíveis e imaginários, durante os últimos anos, e nenhum deles pagava tão bem como este gajo. Por isso, decidi aceitar, até porque, acima de tudo, estar desempregado é uma bela merda. Demos um aperto de mão e ele retorquiu: “Bem-vindo a bordo!”

No meu primeiro dia, um colega de trabalho contou-me tudo. Os patrões fazem horários de entrega que são impossíveis de cumprir e depois mandam as culpas para cima dos trabalhadores, quando as coisas não correm como eles querem. Fazem acusações paranóicas e desvalorizam o lufa-lufa que é o tráfego em Nova Iorque. Os trabalhadores aguentavam a cena porque o pagamento era bom, mas odiavam os patrões. E esse era um sentimento mútuo. Percebi e experienciei logo esta situação. O gajo que expedia cenas acusou-me de não saber conduzir um camião e de conspirar/mentir com os outros condutores sobre quanto tempo é que as mercadorias demoravam para ser entregues. E as coisas só pioraram depois. Começaram a dizer que tinha mentido sobre a minha experiência prévia e que o meu pagamento teria de ser reduzido por causa disso. O resto é história.

No início, senti-me eufórico. Depois de anos a levar com merdas de um bando de cabrões, só porque eles eram os meus patrões, pensei que não tinha outra escolha. Desta vez, senti que não tinha deixado que me espezinhassem, que tinha feito a coisa certa. Mas, depois, comecei a ver as coisas de um prisma diferente…

O final do século XX foi testemunha das derrotas sucessivas dos sindicatos dos trabalhadores, nos Estados Unidos. O despedimento colectivo (com as mãos de Ronald Reagan) dos controladores dos voo grevistas, em 1981, foi apenas um dos exemplos mais mediáticos das crenças anti-sindicais, que duram até aos dias de hoje. O resultado tem-se reflectido num desvalorizar do trabalho em várias áreas técnicas, na perda de benefícios e em postos de trabalhos “eternos” (em várias áreas tecnológicas), bem como num declínio do estilo de vida para os trabalhadores norte-americanos. E reverter esta tendência é uma tarefa árdua, até porque a legislação anti-sindical torna difícil a organização: os sindicatos estão, constantemente, debaixo de fogo.

A maioria dos trabalhadores está agora profundamente sozinha. Deixaram de ter segurança no trabalho, estão isolados dos seus colegas e multiplicam-se entre vários empregos, de forma a poder pôr comida na mesa das suas famílias. E, assim, deixam de ter tempo para qualquer outra actividade, mesmo que decidam que organizar uma manifestação vale o risco de poderem ser despedidos. Um amigo meu arranjou um emprego no Wal-Mart e a primeira coisa que lhe disseram foi que os sindicatos eram necessários há 100 anos, mas que, hoje em dia, a porta do supervisor está sempre aberta e que é desta maneira que as coisas devem ser feitas. Não foi isso que eu fiz?

Ou seja, não importa o quão incrível me senti quando dei uns murros ao meu patrão. O que importa é que incorporei a profunda impotência do trabalhador do século XXI. Ao invés de me organizar com os meus colegas, para formar um sindicato capaz de lutar pelos nossos interesses comuns (melhores salários, trabalho mais calmo, direito à greve), encarei os meus problemas como um indivíduo. Um indivíduo, uma única pessoa. Eu.

Ter conseguido o que queria é irrelevante. Isto nunca funcionará em 99,9 por cento dos casos (e esqueçamos os motivos secundários pelos quais os trabalhadores gostariam de esmigalhar as caras dos seus patrões). Não sou cristão, não menosprezo a violência para motivos morais ou tácticos. Não tenho uma objecção ética para aquilo que fiz. Mas, dar um murro ao patrão, não é uma alternativa para se lutar no mundo real. Isso só pode ser feito em conjunto.

Mais da VICE
Canais VICE