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Fizemos uma Mesa Redonda com os Selos Fluxxx e LKHP

Jogamos cinco temas na roda e demos a palavra aos jovens Lucas Dimitri, Lucas Sublingalwart e Guilherme Queiroga. As respostas dos envolvidos você lê ao som de uma mix exclusiva.

Depois do cross-release que colocou na rua os novos EPs do akaaka e do Formafluida, a ponte Berlin-São Paulo criada pelos selos Fluxxx e Low Kick High Punch deságua aqui, nessa mix. E como a internet é o ponto de intersecção dos jovens envolvidos nesse projeto, resolvemos fazer uma mesa redonda internética com Lucas Dimitri aka Formafluida e homem à frente do Fluxxx, Lucas Sublingalwart, o akaaka, e Guilherme Queiroga que comanda o LKHP. A mix exclusiva que você ouve no player aqui em baixo faz a trilha para o longo papo que você lê a seguir.

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PARCERIA.

Por que e quando surgiu essa ideia de lançamento em conjunto já que parte dos envolvidos está no Brasil e o Queiroga está em Berlim.

Lorena Green: Eu conheço o akaaka desde 2005, frequentamos o mesmo fórum de games. A gente se "reencontrou" na mesma cena de música, ele acabou vindo tocar na Virada Cultural, em São Paulo, no show da Metanol.fm, no qual o Dimitri também tocou… Então acabou que nos aproximamos com selos que tínhamos, me aproximei do Guilherme Queiroga, que também fazia parte do mesmo fórum, e fechamos a parceria.

Lorena Green: O Gui era tipo uma lenda do fórum. Ele criava [perfis] fakes e voltava, era banida de novo, e assim seguia.

Guilherme Queiroga: Na real, eu nunca criei fake, eu só ressuscitava - sei lá como - a mesma conta. Ainda tá lá, ativa inclusive.

Lorena Green: O akaaka postava músicas incríveis, conheci Frank Zappa aos 13 anos por culpa dele.

Guilherme Queiroga: Eu e o akaaka terminamos trocando música demais desde aquela época, não sei nem como começou. Mas altas raridades… Ainda assim, ironicamente, eu só conheci o Lucas Dimitri e a Lorena esse ano.

Lucas Dimitri: Aí a gente acabou juntando a questão da afinidade com o repertório em comum no selo e pensou: por que a gente AINDA não fez uma parceria?

Guilherme Queiroga: Lá pra junho deste ano, eu fiquei meio bolado que o akaaka tinha feito um remix pro Formafluida e fui DEMANDAR que ele me mandasse as multi-tracks pra eu fazer um remix também.

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Lucas Dimitri: Sim, Akaaka e QRG participaram do projeto Multitude com seus remixes.

Guilherme Queiroga: Nunca precisou ser explicitado [por que fechamos uma parceria], mas acho que o fato de eu ter sido tão organizado quanto o Dimitri pontual, e a nossa mentalidade estética ser compatível… Acho que no final foi empurrando pra esse lado de fazer trabalhos sob um teto em comum.

Fora que eu nunca faço remixes, mas o meu remix ficou foda. Sério.

Lembro uma parada que o Dimitri falou que é maneira demais e tem muito a ver, e junta tudo esteticamente que têm rolado sonoramente: "Cyberpunk que vira indígena sem querer". Rola sempre um equilíbrio de fatores e conceitos. De alguma forma.

Lucas Sublingalwart: Houve uma troca de remixes perto do meio de 2014, quando o Formafluida fez um remix pra meu side project Harshdüst, onde ele desconstruiu a S/T num techno lúdico incrível, e em seguida eu realizei o remix para o Forma, daí começamos com os planos do que fazer [juntos].

No começo eu não pretendia exatamente lançar um álbum completo como aconteceu com Framework, mas meu processo de produção é meio sem freios, quando eu me empolgo acabo criando uma faixa após a outra e assim vai, e no fim mandei umas diversas demos pro Formafluida e concordamos em lançar o disco.

Depois esse surgiu com alguns demos também, e a ideia toda se formou, como bem ele disse, pensamos: "Why not?" e iniciamos o processo de parceria, começamos a realizar reuniões semanais para definir os detalhes e consolidamos agora pouco no começo do mês.

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CENA BRASIL X BERLIM.

Existem pontos de intersecção ou basicamente diferenças?

Guilherme Queiroga: A gente tá lidando com lugares grandes. A comparação se dá bastante entre São Paulo X Berlim, já que eu morei em SP por um tempo e é onde o Formafluida e o akaaka (de certa forma) estão. São cidades grandes, mas que lidam com o espaço de forma completamente diferente.

Musicalmente falando, apesar das raízes existirem (aqui ainda rola aquela coisa do som local ser o Techno Berlinense e a Igreja de Domingo é o Berghain) tudo termina sendo muito mais universal hoje em dia. Eu por exemplo vou muito mais em festa de beats e hip hop do que qualquer coisa, porque é de fato o que mais me interessa. Sempre tô perto da galera da Brainfeeder (Gaslamp Killer sempre por aqui) por exemplo. E é muito interessante ver como são trabalhados espaços como antigas fábricas, transformadas em ambientes pra grandes eventos/festas ou clubes embaixo de estações de metrô e tal…

A cena musical daqui é realmente influenciada por essa pegada urbana da apropriação do espaço, e é principalmente eletrônica, agressiva e extremamente inclusiva do ponto de vista social, outro ponto que difere muito do Brasil.

A política de porta num clube aqui pode ser superestrita, mas é mais fácil você ser barrado por estar usando uma camisa social de marca do que parecendo um mendigo. Acho que são mundos bem distintos, porque é um reflexo muito forte da sociedade… E acho engraçado que o Formafluida, por exemplo, tem um som bem Berlim.

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Lucas Dimitri: A própria ideia da parceria é porque a gente quer transcender as barreiras geográficas, os dois selos têm artistas de lugares distintos, o Lucas é de Bauru, o V-Drome é de Mongaguá… O Gui mora em Berlin, o Illusive é dos EUA - e cada um está no seu próprio universo particular, fazendo o que mais gosta e se expressando pra um público cada vez mais global e pulverizado

Guilherme Queiroga: Justamente. Tem uma hora que não faz muito mais sentido essa coisa de localização, a não ser que você queira ser um… DJ de techno ou sei lá. Me atrai muito mais a ideia de ter uma comunidade global do que ter uma gangue local

CENA BASS

O bass foi a grande coisa de 2014?

Guilherme Queiroga: Acho que o tamanho da cena bass aqui é comparável com a de SP… Talvez um pouco maior, mas nem tanto. Eu amo essa onda, e sim, é a grande coisa de 2014, mas eu não acho que seja a grande coisa de 2015.

Lucas Dimitri: Não sei se a gente consegue distinguir uma linha ou gênero específico, o akaaka tava comentando que o "o gabber é o novo trap", hahaha. Acho que cada vez mais vai ficar difícil de colocar algo em um standard ou padrão específico.

O future before uus é mais agressivo, e é pouco pista, já o do akaaka tem alguns elementos de bass, garage e um som com mais sensibilidade pra clube.

Guilherme Queiroga: Mas esse lado musical que a gente tá (Bass / Hip Hop / Garage …) evolui rápido demais. A gente não tá aqui pra perpetuar nada e ficar repetindo. Acho que porque tem muito a ver com a descoberta de novas formas de produzir conteúdo musical, por isso que trap por exemplo ficou tão popular e tão odiado tão rápido. É como se você descobrisse algo MUITO maneiro, MUITO claro quanto à metodologia, mas um ano depois os outros produtores olham pra você e falam: "Tá, a gente já entendeu, você não foi pra a próxima?!" e começa todo o julgamento com todo mundo que chega atrasado nessas ondas.

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Lucas Sublingalwart: Eu acho que cena bass é um pouco maior do que as pessoas imaginam. A gente sempre teve cena bass no Brasil. O funk nacional, desde o começo, cariocão com beats de miami bass sempre foi nossa cena bass, marginalizada e focada no "gravão". A questão é que hoje em dia diversos gêneros atravessam o país e diversificam mostrando a visão gringa muitas vezes abrasileirada de como produzir e fazer festas de bass music. E acho muito legal que a gente tem sempre essa vontade de juntar tudo. Por exemplo, o que Omulu e Marignal Men fazem com o trap, enfiando elementos de funk no gênero, acaba repercutindo em vários produtores gringos que soltam funk com trap em set da Radio 1 [da BBC]. Soulection foi uma das grandes coisas dos últimos anos e também é cheia de unir esses elementos.

Da minha parte, o experimentalismo vem na fusão de elementos que encontrei no decorrer da minha vida, sempre reverenciei a cultura pop oriental, videogames, e essas coisas. Em Framework, teve uma mudada de ares, em parte pelas faixas estarem mais club, com elementos de house, em parte por influência do Formafluida, do Queiroga e do Radchild com quem eu divido o projeto Harshdüst, no que se diz a cyberpunk e estética industrial, todos eles utilizam bastante destes elementos e eu acabei adquirindo essa pegada mais sombria, sendo que antes meu som era bem "ensolarado". Acho que cheguei a um equilíbrio entre esses dois temas no disco.

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Voltando a pergunta, sim, 2014 marca a inclusão do bass global no Brasil, seja ele com trap, que está presente até no disco novo do Racionais, seja ele com wobbles gordos na nova geração de produtores de deep house nacional. De uma forma que gêneros que explodiram nos últimos anos como dubstep passaram reto diante o público geral, e hoje em dia DJs de festas de universidade aqui no interior de São Paulo estão focando no trap e bass, coisa que eu realmente não esperava ver. Mas não tenho certeza se isso vai durar. Ainda acho que o grande gênero para os próximos anos pode ser o gabber. Talvez não em nível nacional, mas pelo menos lá fora.

VOCÊS FAZEM MÚSICA PRA QUEM?

Vocês se importam com o público de vocês? Onde vocês querem chegar?

Guilherme Queiroga: Wow. Pra mim essa é quase impossível de responder.

Lucas Dimitri: Bom, cada um está desenvolvendo uma linguagem específica, que é bem pessoal, e tem a ver com o que cada um tem ouvido ultimamente.

Cada artista tem uma metodologia diferente, mas que tende ao equilíbrio. Uma coisa em comum entre a galera dos dois selos é o rock progressivo, então mais importante que o gênero é que o trabalho tenha uma narrativa e conte uma história. O álbum tem que fazer sentido.

Depois disso, acho que vem a questão do público, que é uma consequência do nosso trabalho e da mensagem que cada um quer passar com o seu projeto.

Tanto na Fluxxx quanto na LKHP a gente trabalha com projetos, então acho que cada projeto especifico traz algo diferente, e a ideia é essa, a gente não quer se firmar em algum gênero, a gente quer surpreender e encantar as pessoas com algo que elas não esperam e nem saibam o que esperar da gente.

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Guilherme Queiroga: Eu descobri que eu não tenho como fazer música da forma que tenho feito pra um "público" específico.

O que eu faço musicalmente é uma tradução estética de um monte de coisa que eu não sei falar, verbalmente. Às vezes é a expressão de desenhos traços que não consigo colocar num papel por falta de habilidade. Termina que o som é uma das poucas coisas que eu sinto que eu tenho uma proficiência em desenhar.

Nessa minha atual trilogia de EP's (ainda estou terminando o terceiro), eu tento traduzir um monte de questões psicológicas pro som. O que esperar de um público pra isso? É pessoal demais, a identificação com esse tipo de conteúdo é algo completamente imprevisível, e eu não tenho como esperar nada, só deixar acontecer.

Do lado da label, é bem como o Dimitri falou. Acho que o importante é deixar as pessoas interessadas nos artistas e na arte que você tá criando e expondo. Eu não gosto muito da barreira de gênero. Eu não quero que ninguém pare de ouvir a LKHP ou a Fluxxx porque não está afim de ouvir "Bass" hoje por exemplo. Mas felizmente nenhum de nós funciona assim.

A gente tá aí pra criar, através de diferentes meios, e acho que não saber como soa o próximo release, é muito mais instigante do que saber que você vai sintonizar numa espécie de coletivo de X gênero.

Lucas Sublingualwart: Eu faço música pra quem eu sei que vai ouvir. Esse foi meu grande pensamento em 2014 e o grande diferencial que comecei a colocar nas minhas produções. O Queiroga e a Lori que me conhecem a muitos anos sabem que no começo eu produzia noise, drone, era totalmente anticomercial e tratava tudo essa questão de público alvo com uma visão meio limitada e elitista até.

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Quando percebi que poderia agradar um público em especifico, que poderia criar um público, que tivesse interesse no que eu fizesse se eu fizesse bem, percebi que as coisas não são exatamente por ai.

Claro, sigo uma linha de gêneros e produção que é bem diferente do que faço nas minhas gigs, mas tento sempre imaginar o que é interessante as pessoas que vão ouvir o que estou apresentado, por isso que meus lançamentos estão sempre com uma pegada em uma coisa diferente.

21ug, deste ano ainda, segue a linha future-garage que eu estava mais acostumado, esse é um pouco mais house, ainda que algumas coisas conversem entre si, mas dar o ar de renovação e de estar tentando criar algo diferente a cada vez é muito interessante.

Aqui na cidade onde moro, Bauru, sou conhecido como o cara que toca diversas coisas em horários variados da noite, então já vi galera descer até o chão com JSTJR no começo da noite e fechar o set com todo mundo dançando com um sorriso de ponta a ponta Hercules & Love Affair. Eu gosto disso, gosto de além de ter satisfação própria, ver as pessoas se divertindo e curtindo o que faço. Essa é minha estrela guia atual.

FLUXXX X LKHP

Sem grande rasgação de sedas, convidamos Queiroga para falar sobre o Fluxxx e Lucas para mandar a letra sobre o LKHP.

Lucas Dimitri: Acho que a LKHP consegue ser séria sem se levar a sério, tem um espírito virtuoso e ambicioso, de olho nos detalhes e com olhos apontados pro futuro, sem ser 'cena', sem som grudado num gênero, conscientemente autocentrada.

Guilherme Queiroga: Tem uma pergunta que eu me faço pra saber se eu realmente gosto de algo: "Eu faria isso? Eu faria assim?". E a Fluxxx é uma dessas entidades que eu analiso e respondo com um "sim" bem simples. A Fluxxx consegue ser simples mas extremamente bem construída em tudo e a percepção não só pra a música mas pra toda a estética que compõe tudo que acompanha é absurda. Acho que acima de tudo a Fluxxx é uma constante tradução de si própria em diferentes meios, uma forma sempre de procurar o método mais bonito e eficiente de entregar o melhor material disponível.

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