Victor Torpedo (à esq.) e Pedro Chau. Foto por Pedro Miguel

The Parkinsons, a banda que está sempre pronta para "descer ao mais alto nível"

Em Londres, no arranque do século XXI, uns gajos de Coimbra acenderam o rastilho de uma revolução. A coisa nunca chegou propriamente a explodir, mas nem por isso foi (e continua a ser) menos histórica.

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abr 21 2017, 1:49pm

Victor Torpedo (à esq.) e Pedro Chau. Foto por Pedro Miguel

Mais do que sexo, drogas e rock n'roll, o percurso dos The Parkinsons tem sido mais feito de sangue suor e lágrimas. A história contada no documentário A Long Way To Nowhere, de Caroline Richards, mostra uma banda determinada, sedenta, mas também algo surpreendida com todo o buzz que, a dada altura, se formou à volta deles. 

No fim de contas, estes gajos de Coimbra estavam apenas prontos para conquistar o Mundo e partir esta merda toda. Era pedir muito? A VICE sentou-se com Victor Torpedo e Pedro Chau (guitarrista e baixista, respectivamente) para uma conversa franca sobre temáticas variadas, no rescaldo de uma sessão de visionamento do documentário sobre a banda, levado a cabo recentemente em Leiria.

Nem sempre dá para juntar o gang todo, por isso é sempre um acontecimento cada vez que a malta se junta para tocar. Entre karaokes, "caça-fantasmas" e uma vida em Londres, os The Parkinsons ainda agora chegaram do festival Fuzzville em Benidorm onde, asseguram, deixaram tudo intacto e preparam-se para um par de datas nacionais, no Bafo de Baco em Loulé a 21 de Abril e a 22 no Texas Bar, nos Barreiros, perto de Leiria. Mais para o Verão há, para já, três datas em Inglaterra, onde, afinal, começou esta revolução.

Foi precisamente à volta de revoluções e outros demónios que a conversa andou. Num paradigma, no future, à la Sex Pistols, Torpedo dispara críticas à situação actual do rock n'roll e teme pelo futuro. "Isto está tudo perdido! (risos)", graceja para abertura de hostilidades. Mas depois desenvolve: "Em Coimbra, fala-se muito que a música portuguesa está a bombar, mas é treta, é mais do mesmo e a prova disso é que, quem continua a fazer as coisas, são os mesmos dinossauros, é o mesmo gang de sempre, dividido de outra maneira, mas os mesmos. Há sempre uma banda ou outra que se solta de vez em quando, mas, normalmente, acaba depressa".

Quanto ao papel das rádios e da divulgação que supostamente fazem, Torpedo também não alinha que se esteja a desenvolver um trabalho eficaz e transversal. Chama a atenção para o facto de não ter a ver com esta ou aquela rádio em particular, mas sim que, quando a música, ela própria - dita alternativa - se torna também na nova moda, aí deixa de ser uma alternativa ao que quer que seja e faz o seu negócio e percurso da mesma maneira que a música dita popular. 

"Tem de haver pequenas revoluções e, de vez em quando, lá aparecem. Mesmo na Rádio Universidade de Coimbra, há pessoas cultas que lutam contra isto, mas é uma luta que nem eu consigo contrariar. Faz lembrar nos anos 80, quando abriram as primeiras croissanterias em Coimbra. Se está a dar, abre-se mais outra e depois mais outra e depois fecharam todas pois estava tudo a fazer igual. Com a arte é a mesma coisa", analisa com um certo sarcasmo, mas sempre bem disposto, o também ex-integrante dos míticos Tédio Boys.

Pedro Chau, tão bem humorado como o seu comparsa de banda, garante, por sua vez: "Não vim aqui para me queixar da nada (risos), estou aqui para celebrar! Há situações boas e más, como em tudo, mas acho que estão a acontecer coisas boas. Não faço ideia quanto ao futuro, nem sequer imagino o que estarei a fazer daqui a um ano, mas sei que luto por fazer acontecer e luto por aquilo que gosto, pela música, e há gerações mais novas que acredito que também fazem o mesmo". 

E o  também músico dos Ghost Hunt, acrescenta: "Há malta a fazer coisas e isso é de valor, mas sim, de uma maneira geral, mesmo a nível autárquico, Coimbra não apoia quem faz acontecer, mas faz-se na mesma sem o apoio de ninguém, divulga-se de boca em boca. Portugal é pequeno, mas se calhar, às vezes, não deveríamos tanto pensar a nível local. Sinto que está a haver mais união a nível nacional e isso é bom".

Foi precisamente uma revolução que os The Parkinsons fizeram no início deste século. A britpop começava a enjoar - como um croissant de ovo em pleno Agosto - e era preciso alguém para agitar as águas. Foram eles. À noite. A coisa realmente nunca parou, Torpedo não se lembra de ter estado mais de uma semana sem um projecto em movimento, Chau realça o tédio que viviam em Coimbra e a vantagem de terem amigos lá fora. O chamamento London Calling foi inevitável, apesar de inicialmente ter sido pensado apenas como escala para uma posterior mudança para os Estados Unidos, via Elevator Music, a editora que já tinha trabalhado com os Tédio Boys.


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Só que acabou por ser mesmo em Londres que tudo aconteceu. Ao segundo concerto a coisa virou bicho e ganharam má reputação. O que, nestas andanças, como todos sabemos, não é cadastro mas sim currículo. Um dos melhores nomes de bandas de sempre é o dos "Pop Will Eat Itself". Nada têm a ver com os The Parkinsons, mas o nome pode carregar muitos ensinamentos. De repente, a banda era a next big thing, foram comidos vivos, esfolados... e fazendo cada vez pior (ou melhor, vá). Porquê? Porque sim.

Curiosamente, a sua relação com a música mais popular foi acontecendo de encontros e desencontros. Será que, no fundo, já pressentiam que poderiam ficar pelo caminho? Torpedo afirma hoje que, mesmo naquela altura, estava-se "a marimbar", Pedro Chau diz que pensou mais nisso na época mas já fez o luto. O que é certo é que o disco de estreia, com o nome premonitório A Long Way To Nowhere, saiu em 2002, foi produzido por Jim Reid e Ben Lurie, dos The Jesus and Mary Chain e a banda irmã americana com quem mais se davam nesses tempos eram os Liars (então, muito mais crus).

Os grandes festivais apareceram e semearam o caos e a destruição pelos backstages, assim como o vento semeia as papoilas (expressão surripiada com todo carinho aos Mão Morta). Os The Strokes, por exemplo, fugiram deles com miúfa, Gary Numan também e esta rapaziada fandanga que não curtia fados, mas sim guitarradas com distorção, chegou a ser convidada com o propósito específico de ir destruir um bar a Nova Iorque, pois era a última noite do espaço, o que demonstra bem a reputação que os precedia. E no Japão encontraram a loucura total sob a forma de fãs devotas e submissas, ao ponto de ter havido uma banda feminina que se formou por causa deles, as The Portugal Japan.

Por estes dias, ir vê-los é assistir a um pedaço de história e de memória viva de um grupo - em formato gang, - que experienciou tudo o que vocês já ouviram falar nas lides roqueiras - fãs japonesas aos gritos, capas de revista, porrada em pubs britânicos, cansaço, exaustão, alguma demência, o que poderia ter sido um contracto discográfico à maneira - mas que, mais ou menos, "morreu na praia". 

Há planos para um disco novo, até está a ser gravado aos poucos, quando há tempo, mas é uma incógnita quando irá sair. Talvez este ano, mas pode ser no próximo. Estão dispersos e têm outros projectos em mãos. Já lá vai o tempo em que se dedicavam a 100 por cento a uma única coisa. Os tempos são outros.

Hoje estão mais rodados, mais sábios, sempre cordiais fora dos palcos e até podem nem parecer, assim à primeira, os "animais" acima descritos. O longo caminho para coisa nenhuma é, na verdade, o trajecto de quem arriscou, foi à boca do lobo e não ficou a queixar-se do que poderia ter sido, mas que nunca saberiam se não o fizessem. 

Por isso, aproveitem meninos e meninas, vão ver os The Parkinsons, quando e sempre que puderem. No entanto, façam o que fizerem, não mexam no amplificador do Torpedo, que o homem passa-se e ninguém quer isso. O furacão ainda vive e, nas palavras de Kaló (Bunnyranch e The Twist Connection) "prontíssimos para descer ao mais alto nível". Torpedo lança um último tiro no porta aviões: "A subida dura pouco, para a maneira como tu desces é que é preciso ter cabedal".

No final da conversa foram-se embora e, já na rua, com algum nevoeiro à mistura para compor o dramatismo da narrativa, naquele carro pequenino (porém de marca japonesa, só para alinhar os astros) ninguém diria que aqueles dois simpáticos seres humanos que acenavam, carregavam consigo uma história de vida do outro Mundo, que cruzou continentes e mares. Por agora voltavam para a terra que os viu crescer. À noite.

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