Ao longo dos 25 quilômetros em que o Rio Tietê cruza São Paulo, uma civilização de homens cinzas ergueu refúgios primitivos para se esconder de dívidas, preconceito e problemas mentais. Desde janeiro, o fotógrafo paulista Marcos Vilas Boas, de 42 anos, percorre a pé as margens de um dos maiores e mais poluídos rios da cidade para descobrir vestígios de habitantes ao mesmo tempo primitivos e contemporâneos: gente que vive coberta de fuligem, se esgueirando entre terra, pedra e tubulações, fugindo da câmera e tentando reconstruir a vida de maneira anônima e reclusa num endereço central da maior metrópole do país chamado, justamente, “Marginal” Tietê.
Publicidade
O fotógrafo já fez 14 expedições ao sítio. Em dez delas, conseguiu fotografar utensílios domésticos rudimentares, pedaços de brinquedos e outros fragmentos de vida. “Certa vez, um andarilho se aproximou”, conta Marcos. “Disse que havia partido caminhando de algum lugar do Paraná e pretendia chegar ao Rio de Janeiro.” No trajeto de 400 quilômetros, encontrou refúgio na margem do Tietê. Pediu para não ser fotografado.
Apesar de estar exatamente no centro de uma gigantesca via expressa, o sítio é quieto – o ruído constante dos motores de carros e de caminhões compõe uma cortina sonora homogênea, monótona e eterna, como se um único acorde grave soasse indefinidamente nos limites desse mundo. “Chega a ser contemplativo”, diz.
No início, o fotógrafo não esperava encontrar pessoas. Marcos seguia uma família de capivaras. Estacionando o carro nas alças de emergência da enorme pista, ele pulava a mureta de proteção e seguia os animais que insistiam em habitar o rio transformado há décadas num caudaloso e fétido esgoto. “Depois de alguns dias, vi uma das capivaras mortas. As outras duas estavam na margem oposta, olhando o corpo boiar lentamente na correnteza. Pelo tamanho, acho que era a mãe e o filhote olhando o corpo do pai.”
Os animais já foram abundantes no sítio. Nos séculos 16 e 17, bandeirantes subiam o curso do Tietê, então chamado pelos índios de Anhembi. Até a década de 40, no século passado, os paulistanos ainda nadavam, remavam e pescavam por ali. O pai de Marcos era um deles. Hoje, ninguém mergulha para saber, mas se diz que só existe oxigênio nos primeiros 30 centímetros da linha d’água. Depois disso, a água é imunda e se move lentamente até chegar ao leito lodoso, repleto de lixo tóxico despejado ao longo de décadas por conexões de esgoto doméstico e resíduos industriais.
Publicidade
Estar na margem das margens da sociedade paulista garante aos habitantes do Tietê um sossego inquebrantável. Numa via que chega a ter seis faixas, onde os automóveis circulam a 90 km/h, ninguém tem tempo de olhar para a ribanceira concretizada do rio.
O refúgio dos moradores foi também um refúgio para o fotógrafo, que gosta de trabalhar sozinho por longas horas. “Eu não me sinto confiante e confortável para retratar pessoas. Sou tímido”, explica Marcos. “Foi interessante me aproximar desses homens cinzas, que se afastam sempre de mim, acenam da margem oposta, sorriem e desaparecem.”
Trabalhar sozinho e longe de pessoas não foi um problema quando o fotógrafo deu início, em 1997, a um projeto chamado “Horizonte Reto”, no qual mantinha a câmera sobre um tripé, captando a luz tênue do horizonte sobre o mar por longos períodos de exposição. As condições de luz e cor do litoral norte de São Paulo deram à série de fotos uma marca característica do trabalho de Marcos, mesclando a inflexibilidade da linha reta do horizonte com elementos enevoados como ilhas, areia e o próprio movimento do mar. Neste trabalho arqueológico numa metrópole como São Paulo, ele revisita uma linha do horizonte agora marcada pela dureza urbana.