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Como os Detentos Norte-americanos Conseguem Acessar Facebook, Twitter e Instagram

No submundo do complexo industrial prisional norte-americano, é difícil para os detentos viverem online do mesmo jeito – especialmente porque eles não podem ter celular –, mas, na prática, eles estão por toda parte nas redes sociais.
23.2.15

Hoje em dia, quase todo mundo recebe notificações automáticas em seus celulares, tablets e computadores sobre o que os conhecidos estão fazendo, tanto que até já ficou irritante. É assim que o planeta funciona hoje. Você não precisa ver ninguém cara a cara: tudo é virtual e instantâneo. Adicionar, seguir, curtir, compartilhar, comentar, tuitar, atualizar o status, dar check-in, subir uma foto – as redes sociais parecem abarcar a maioria das nossas interações atualmente.

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No submundo do complexo industrial prisional norte-americano, é difícil para os detentos viverem online do mesmo jeito – especialmente porque eles não podem ter celular –, mas, na prática, eles estão por toda parte nas redes sociais.

Liguei recentemente para um detento do sistema prisional da Califórnia para saber qual é a disponibilidade de celulares na prisão, de que forma eles são usados e quanto custam. Minha fonte disse que os detentos postam no Facebook, sobem vídeos e fotos no Instagram e tuítam diretamente de suas celas. Há vários relatos sobre essa tendência, mas a maioria se centra no contrabando e nas tentativas das autoridades para combater sua introdução e uso.

Mas, como ex-presidiário, sei que não é preciso um celular para se ter acesso às redes sociais. Comecei minha carreira de escritor dentro da prisão, desfrutando de todas as plataformas de redes sociais disponíveis lá fora. Com o crescimento da internet, o mundo se abriu, mesmo para os detentos. Os avanços tecnológicos chegaram até os cantos mais escuros dos EUA. Com a maioria dos prisioneiros tendo (algum tipo de) acesso a e-mail hoje em dia, é muito mais fácil para eles acessarem as redes sociais.

Continua abaixo.

"Estou preso há 12 anos e meio por assalto a banco, um crime que cometi quando tinha 23 anos", contou John "Judge" Broman, um presidiário de Pittsburgh de 35 anos cumprindo uma pena de 18 em USP Hazelton, Virgínia Ocidental. "Envelhecer numa penitenciária me fez perder contato com todo mundo que eu conhecia quando estava livre."

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As coisas mudaram alguns anos atrás quando a Bureau de Prisões introduziu o Trust Fund Limited Inmate Computer System (TRULINCS), um serviço de e-mail para os detentos. Mensagem eletrônica se tornou um padrão de comunicação dentro das casas e nos negócios norte-americanos, e isso pode ser usado para ajudar os detentos a manterem o contato com suas famílias. O TRULINCS permite que mensagens sejam trocadas entre os detentos e o público em geral de maneira segura. Manter os laços familiares aumenta as possibilidades de se reentrar com sucesso na comunidade, diminuindo, assim, a reincidência.

Essa é a intenção, mas, na verdade, o surgimento das redes sociais permitiu que os detentos recebam atualizações minuto a minuto em suas celas e se reconectem com o mundo que deixaram para trás. Antes do TRULINCS, os detentos só conseguiam se comunicar com o mundo exterior por carta. Fiz isso por anos, porque, mesmo me conectando por e-mail, todas as minhas mensagens chegavam como cópias físicas: eu respondia um e-mail e o enviava para minha esposa, que reenviava isso para o destinatário. Ela imprimia o e-mail e encaminhava para mim. Foi assim que comecei minha carreira de escritor.

"A hora do e-mail é o ponto alto ou o baixo do dia de todo condenado", relata Judge. "Um lembrete constante de que você ainda é amado lá fora ou de que foi esquecido. Tenho sorte de ter uma família que me ajuda a me comunicar com o mundo livre. Criar uma página no Facebook trouxe todos os tipos de pessoas de volta à minha vida, que eu pensava que estava morta e enterrada embaixo da prisão. Isso também me colocou em contato com pessoas novas."

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Mas como os detentos acessam plataformas de redes sociais como o Facebook? Alex "Boudreaux" Cook, um preso de 28 anos de Memphis, que já cumpriu cinco anos de uma sentença de dez por produzir maconha, me conta: "Minha mãe me encaminha e-mails e eu envio minha arte para ela. Ela tira fotos e posta isso pra mim. Quando as pessoas comentam nas fotos da minha arte ou na minha página, ela encaminha a mensagem para mim. Assim, posso mostrar o que estou fazendo para minha família e saber que isso é algo produtivo".

Usar o Facebook através do TRULINCS contorna totalmente a sala de correspondência da prisão. No Facebook, Instagram e Twitter, os detentos estão postando fotos de si mesmos diretamente das penitenciárias, com todas as tatuagens e afiliações de gangues, para o mundo ver. Pessoas do mundo exterior estão adicionando e seguindo esses detentos, curtindo suas postagens e deixando comentários, criando feedback e diálogo com aqueles presos num submundo de corrupção e violência. Mas nem todos os detentos têm a sorte de ter um membro da família que atue como procurador para suas páginas no Facebook, e menos detentos ainda têm dinheiro ou conexões no submundo para conseguir um celular. Então, o que eles fazem quando querem entrar em contato com o mundo através das redes sociais?

"Como sou detento federal, é difícil manter uma página numa rede social como Facebook, MySpace, etc.", diz Jesse Jongeward, um preso de 42 anos de Minneapolis, cumprindo uma pena de 11 anos e meio por conspiração para distribuir narcóticos. "Você tem de conseguir um provedor que vai pegar todas as suas mensagens e postar suas fotos e textos de acordo. Lidei com uma empresa chamada voiceforinmates.com por três anos e raramente estava satisfeito com o trabalho deles. Eu pagava US$ 100 por ano para receber minhas mensagens e ter minhas fotos e atualizações postadas, mas isso raramente era feito. A experiência me estressou, mas, no final, foi legal acessar alguns dos meus antigos colegas de escola, colegas músicos e amigos com quem eu não falava há tempos. E isso me deu a sensação de ainda estar lá fora, misturado ao mundo livre."

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É para isso que servem as redes sociais: se conectar aos velhos amigos e conhecer gente nova. No meu caso, eu ficava feliz em fazer contatos e ter meu trabalho publicado. Isso me fazia sentir que eu estava realmente vivo e transcendendo a natureza mundana da vida na prisão. Mas se o TRULINCS tem sido algo revolucionário para os prisioneiros, empresas como a Voice for Inmates têm usado isso para explorar aqueles que estão atrás das grades dos complexos correcionais da nação. Sem um procurador para administrar suas páginas em redes sociais ou um celular contrabandeado para fazerem isso sozinhos, os detentos são privados da oportunidade de se conectar. Assim, os prisioneiros acabam usando qualquer um, até ex-esposas ou namoradas, para fazer suas páginas, mesmo que isso possa causar problema em suas vidas pessoais.

"Seria bom se eu tivesse uma pessoa sem segundas intenções para me manter conectado ao mundo, mas não tenho; então, uso o que posso", destaca Kevin Smith, um condenado de 48 anos de Fort Worth, Texas, que está terminando de cumprir uma sentença de 15 anos por porte de arma. "Num mundo perfeito, eu teria minha página do Facebook mostrando algumas das minhas músicas originais e levando meus amigos até um site que criei para isso. Estou longe há uma década, e, quando eu estava livre, o MySpace era o site principal. Twitter, Facebook e outros apareceram depois. Seria legal poder acessar minha conta daqui, mas estamos limitados por causa dos criminosos sexuais, que estão só esperando para ter acesso e manipular isso para os próprios desejos doentios. Mas ainda fico feliz em ter esse serviço de texto caro, lento e monitorado chamado e-mail."

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Para mim e outros detentos, o TRULINCS foi um recurso tremendo. Usei isso assim que o serviço surgiu. E, com as pessoas certas ajudando, pude realizar muita coisa. Como o mundo todo é digital e móvel hoje, é importante estar conectado.

Mas, claro, isso (como tudo na vida) tem um preço.

O TRULINCS não é um serviço grátis. A Bureau de Prisões cobra cinco centavos por minuto para ler ou digitar um e-mail. Não é muito, você pode pensar, mas isso vai se acumulando. Eu costumava passar mais de 1.200 minutos por semana escrevendo da prisão. Isso dava US$ 240 por mês de serviço de e-mail. E, como a maioria dos detentos faz apenas US$ 15 ou 20 por mês, muitos simplesmente não podem pagar para se conectar.

É por isso que muitos aprisionados se voltam para empreendimentos ilícitos, como os de traficar drogas e celulares para dentro de suas instituições. O que eles podem fazer se você for pego? Te jogar na cadeia? Mas a maior razão é que, assim como as pessoas do mundo exterior, os detentos também querem saber o que está acontecendo; querem que as pessoas saibam o que está acontecendo com eles e receber algum tipo de reconhecimento. Quando se está cumprindo pena numa instalação correcional, redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram são um fio te ligando ao mundo real. E os detentos farão qualquer coisa para se agarrar a isso.

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Tradução: Marina Schnoor