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The VICE Report

Abundância de Dor

Silicone industrial, concreto e óleo mineral são algumas das substâncias utilizadas por médicos do mercado negro para aumentar o tamanho das bundas de suas clientes. O problema é que isso pode causar dores absurdas e até a morte.
30.1.14

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ABUNDÂNCIA DE DOR

O PREENCHIMENTO ILEGAL DE NÁDEGAS PODE SER A PRÓXIMA EPIDEMIA DE SAÚDE DOS EUA

Por Wilbert L. Cooper

Ms. Banks, uma dançarina do clube de striptease King of Diamonds, mostrando seu bumbum massivamente preenchido de forma ilegal. Todas as fotos por Ben Rosenzweig.

O horror que se abateu sobre o traseiro de Oscarina Busse começou em julho de 2009. A moradora da Flórida de 35 anos sentia uma coceira chata e persistente bem fundo na carne das nádegas, uma coceira impossível de coçar. Não demorou muito para Oscarina notar que sua bunda estava mudando de cor — primeiro para roxo, como um dedo enrolado muito forte com um fio e depois para um cinza cadavérico. Daí em diante, as coisas só pioraram. Sua pele começou a formar uma crosta que descascava dolorosamente, até que, alguns meses depois, a coisa toda despencou como um bolo embatumado. Os dois lados ficaram caídos, pesados com uma gosma venenosa que se concentrou na parte de baixo das nádegas. O que antes se mantinha suspenso e era macio ao toque, se tornou algo quente, endurecido e doloroso. A bunda de Oscarina tinha se transformado tanto que não parecia mais parte de um corpo humano; sua filha de cinco anos confundiu suas nádegas cheias de fluído com uma fralda suja, chamando-a de “Pampers cheia”.

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Como milhares de mulheres por todo o mundo, e cada vez mais nos Estados Unidos, Oscarina estava sofrendo os efeitos colaterais de injeções de preenchimento do mercado negro. Por causa de sua natureza clandestina, é impossível saber ao certo quantas pessoas nos EUA estão inflando suas bundas como um tênis Reebok. Mas, com certeza, esses números estão crescendo; com a proliferação de relatos de casos de desfiguração, como o de Ocarina, e até mortes, a justiça e a Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos veem essas injeções clandestinas como uma epidemia crescente nos Estados Unidos.

O processo tosco de aumento consiste em injetar substâncias líquidas, como silicone ou óleo mineral, nas nádegas e quadris das clientes com seringas. Não há substância segura para injetar para criar volume no corpo humano, nem mesmo o silicone cirúrgico, mas esses “médicos de bundas” clandestinos estão, de acordo com as vítimas, usando substâncias ainda mais perigosas, como concreto e silicone industrial, o mesmo vendido em lojas de construção. Depois das injeções, as picadas às vezes são tampadas com supercola para evitar que a meleca tóxica vaze.

Qualquer pessoa com um entendimento básico de saúde e medicina sabe que injetar substâncias de fluxo livre no corpo humano é extremamente perigoso. É ilegal injetar fluídos, como silicone, para propósitos cosméticos nos Estados Unidos desde os anos 1960, então, esses procedimentos de enchimento são tipicamente realizados por picaretas de esquina, que andam por aí com valises cheias de agulhas sujas e frascos de gosma. Esses procedimentos podem desencadear uma forte resposta imunológica, com o corpo tentando expelir a substância estranha, que resulta em reações inflamatórias como pólipos, furúnculos, descoloração da pele e até necrose. Essas substâncias também podem migrar ao longo do corpo e se fundirem com os órgãos, ou entrar no sistema sanguíneo, espalhar a infecção e causar choque séptico — o que pode levar à amputação da parte do corpo infectada, ou mesmo à morte.

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Em outubro do ano passado, eu me encontrei com Oscarina em seu salão de beleza em Coral Gables, Flórida, para entender melhor por que alguém injeta químicos tóxicos na própria bunda. Ela estava usando uma calça colada, sapatos de salto que ecoavam no chão de linóleo do salão, e um perfume cítrico que permeava a sala enquanto ela ia e vinha entre as cadeiras. Para minha surpresa, a bunda dela parecia firme e redonda. Era uma bunda muito bonita, especialmente considerando que apenas alguns anos atrás suas ancas tinham se metamorfoseado numa pilha distorcida de carne infectada e dolorida.

Oscarina teve sorte. Ela é uma das poucas mulheres que, depois de perceber que algo estava muito errado com sua bunda, conseguiu encontrar um médico disposto a retirar cirurgicamente as substâncias de seu corpo e reconstruir suas nádegas, possivelmente salvando sua vida no processo. Ela me disse que se sente muito idiota com a história toda agora, considerando que ela foi abençoada com um corpo bem dominicano. Mas, no sul da Flórida, onde bundas gargantuescas balançam em cada rua e praia, ter apenas um “bumbum legal” não é o suficiente para muitas pessoas. “Todo mundo aqui nunca está feliz com o próprio corpo”, a esteticista me disse, tímida. “Não foi porque eu não tinha. Eu só queria que fosse melhor.”

Apesar de ser ilegal encher o traseiro de alguém com substâncias misteriosas, encontrar um médico de bunda nos Estados Unidos é como comprar drogas; você só precisa conhecer alguém que conhece alguém. Esses encontros acontecem no boca a boca, e também por fóruns na internet e pelas redes sociais. Em Miami, o epicentro das cirurgias clandestinas desse tipo da América, isso é fácil como entrar num spa de beleza; além de massagens, aromaterapia e saunas, os clientes quase sempre podem pedir injeções de silicone a partir de um menu secreto.

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Foi exatamente isso que Oscarina fez, pedindo seu primeiro conjunto de injeções no começo do verão de 2002, por cerca de US$3.000 (cerca de R$7.000 hoje). Ela não me contou quem administrou o procedimento, mas admitiu que suas clientes tinham recomendado um certo spa da área. Ela fez isso na esperança de colocar seu corpo em forma para o verão. Ela descreveu a sensação de ter uma seringa espetada profundamente na carne das nádegas, excretando cerca de 600 ml de silicone industrial como “enchimento”, como se sua bunda fosse uma bexiga de água esticada num bocal de mangueira de jardim.

É importante apontar que existem procedimentos legais de aumento de nádegas. O FDA (a agência de administração de drogas e alimentos dos Estados Unidos) considera tanto implantes como transferência de gordura — nos quais a gordura é lipoaspirada de áreas como a barriga do paciente e transferida para a bunda — seguros, se conduzidos por um cirurgião plástico certificado. No entanto, muitas mulheres escolhem o mercado negro para economizar. Implantes legais e transferência de gordura podem custar até US$10.000 a mais do que os ilícitos. Para Oscarina, no entanto, o fator decisivo foi o tempo curto de recuperação das injeções. Transferência de gordura ou implantes exigem semanas de recuperação e os resultados finais não se assentam durante meses. Já o resultado das injeções é um bumbum novo quase instantaneamente, como se você estivesse preparando sua bunda num micro-ondas.

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“A recuperação foi muito fácil”, explicou Oscarina. “Voltei ao trabalho direto. Só tive que fazer uma massagem para que as injeções assentassem de forma apropriada.”

Foi só quando ela decidiu passar por outro procedimento do tipo num spa diferente, em 2009, que tudo começou a dar muito errado. “Tomei as injeções”, ela me contou enquanto passava o pente nos cachos de uma adolescente, “e seis meses depois, minha bunda ficou roxa. O produto tinha comido meu músculo e minha pele começou a descascar como cebola”.

É impossível saber exatamente qual foi o problema na segunda vez — pode ter sido a reação entre as novas injeções e a primeira rodada ou talvez as novas injeções usassem um silicone de qualidade inferior, que infectou a bunda de Oscarina. No entanto, meses depois da segunda rodada de injeções, Oscarina perdeu o controle de seu corpo. Ela estava envergonhada demais para procurar um médico, mesmo com sua bunda apodrecendo.

Dr. Constantino Mendieta e seu McLaren — um de seus muitos carros — em frente à sua enorme mansão em Pinecrest, Flórida.

Foi só no inverno que Oscarina conseguiu finalmente compartilhar seu sofrimento com alguém. Incapaz de lidar com o desconforto causado pela deformidade que piorava rapidamente, ela contou como se abriu para uma cliente do salão. Ela parou o que estava fazendo no cabelo dela e pediu que a mulher examinasse sua bunda numa sala dos fundos do salão. Minutos depois, sob a luz fluorescente, Oscarina levantou seu vestido. No espelho, seu segredo doloroso foi revelado pela expressão da cliente.

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“Quando vi a cara dela, eu soube que estava horrível”, Oscarina me disse, olhando em direção à sala. Foi nesse momento que ela percebeu que tinha que engolir o orgulho e procurar ajuda de verdade.

Devido ao desafio de reverter uma operação tão malfeita e ilegal, e ainda arriscar um possível processo judicial, muitos médicos não ajudariam pacientes como Oscarina. O silicone injetável pode ser corrosivo e pode migrar facilmente pelo corpo. Quando isso se espalha, o que pode acontecer em questão de horas ou no decorrer de muitos anos, é quase impossível identificar e localizar precisamente a substância. De acordo com relatos sobre injeções de silicone nos EUA, editadas por Peter Hutt, professor de direito de Harvard, 555 ml de silicone podem se dividir em 30 bilhões de pequenos glóbulos quando dentro do corpo, cada um deles com potencial para causar uma reação infecciosa. Em outras palavras, colocar essa coisa na bunda é fácil — tirar é muitíssimo mais complicado.

“Depois de algumas consultas, a reação dos médicos me fez achar que eu ia morrer”, disse Oscarina. “Eu tinha esse problema doloroso e ninguém queria tocar nele.”

Finalmente, depois de pesquisar muito por um médico disposto a ajudá-la, uma das clientes de Oscarina, que tinha passado por uma experiência similar, recomendou o Dr. Constantino Mendieta. http://www.vice.com/pt_br/read/dr-mendieta-em-busca-da-bunda-perfeita  O médico concordou em consertar a bunda dela e, segundo ela mesma, salvou sua vida.

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“Quando o vi”, Oscarina disse, “eu vi a glória”.

As bundas preenchidas ilegalmente das dançarinas do King of Diamonds, Seven (esquerda) e Amore (direita). Um dia, essas bundas voluptuosas podem ser a fonte de sérios problemas de saúde para essas moças.

Na mesma semana que conheci Oscarina, visitei o Dr. Mendieta em seu consultório no afluente bairro Coconut Grove em Miami — um edifício de estuque com as palavras Cirurgia Plástica na fachada. O Dr. Mendieta é um dos principais cirurgiões plásticos dos Estados Unidos, um Michelangelo de bundas que publicou seu próprio livro, The Art of Gluteal Sculpting, em 2011. Sem surpresa, o negócio de bundas tem sido muito rentável para ele. Sua Maserati estava estacionada em frente ao prédio, o carro que ele disse usar no dia a dia. Quando não está salvando a pele (e a bunda) das pessoas, ele gosta de acelerar sua McLaren esportiva por aí.

“As nádegas são hoje o que os peitos eram nos anos 1960”, o Dr. Mendieta me disse em seu escritório. O rosto dele parece uma máscara de Clark Kent, com a pele esticada em direção às têmporas, e ele usava um casaco de almirante azul royal, feito sob medida da melhor seda Valentino. “Mas as bundas são melhores. Quando olha para os seios, você tem que olhar para o rosto. Não há espaço para fantasiar. Mas quando você se vira, não há mais rosto. Você está livre para colocar a cara que quiser naquela bunda.”

Mesmo com essa explicação um tanto bizarra, Dr. Mendieta está absolutamente certo sobre o crescimento da popularidade do aumento de glúteos entre os norte-americanos. O número de procedimentos legais do tipo nos EUA cresceu 176% entre 2000 e 2012, explodindo numa indústria de US$26 milhões. E o Dr. Mendieta tem surfado alegremente a crista dessa onda de bundas. Dez anos atrás, 20% de seus procedimentos eram relativos a glúteos. Hoje, são 90%.

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E mesmo preferindo o foco na modelagem de novas traseiras, cada vez mais Mendieta se vê reconstruindo bundas de mulheres que receberam injeções clandestinas.

“Não há dúvidas de que estou realizando esses procedimentos reconstrutores numa taxa cada vez maior”, ele disse. Ele explicou que consertou cerca de 30 bundas vítimas de enchimentos ilegais em sua carreira, cinco só em 2013. “As pessoas estão vindo de todas as partes do mundo, principalmente dos Estados Unidos. Isso é endêmico na América do Sul, Miami e Nova York, e algumas vêm de Los Angeles. Mas Miami é o centro de coisas assim. Acredito que verei um número maior de casos assim no futuro, porque pode demorar de cinco a dez anos para as injeções reagirem.”

As autoridades da Flórida concordam com o Dr. Mendieta; casos como o de Oscarina são um problema em crescimento. O detetive Bryan Tutler do condado de Broward, que comandou as investigações de 2012 no caso de Oneal Ron Morris, uma dos charlatãs mais notórias da área, disse: “Isso só começou. Três ou quatro anos atrás, ninguém nunca tinha ouvido falar disso. Mas agora isso realmente pegou. Logo, acho que nenhuma agência da lei vai poder se esconder de investigar esse tipo de crime.”

O que coloca o Dr. Mendieta na linha de frente da batalha contra enchimentos ilegais de nádegas — uma batalha que só piora. De todas as vítimas de injeções ilegais operadas por ele, Oscarina foi um dos casos mais severos que ele já viu.

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“Tive que cortar uma grande porção de carne junto com o silicone. Isso tinha impregnado o tecido. Tiramos mais de 400 gramas de substância pura e sólida de cada nádega.”

A tarefa de remover o tecido danificado e reconstruir a bunda de Oscarina era tão grande que o procedimento teve que ser dividido em duas operações. Os US$6.000 que ela gastou nas injeções não pareciam mais uma pechincha; ela estima que custou mais de US$70.000 para colocar sua bunda em forma novamente e Oscarina ainda não passou pelo segundo procedimento, quando o tecido impregnado restante será removido e suas nádegas serão remodeladas. O mais triste é que ela é uma das que tiveram sorte. Só há um Dr. Mendieta, mas sabe-se lá quantas Oscarinas ainda estão sofrendo por aí.

Essas imagens, fornecidas pelo Dr. Mendieta, mostram as complicações de injeções similares àquelas usadas por Oscarina Busses. É possível ver a descoloração e a forma distorcida. As nádegas eram duras ao toque, como as de Oscarina.

O uso de injeções de silicone para aumentar os glúteos não é novidade. A prática data da Segunda Guerra Mundial, cem anos depois que o composto sintético foi inventado, e uma década antes que isso se tornasse comercialmente viável para procedimentos em massa. Durante a guerra, o exército norte-americano usava silicone como isolamento para transformadores elétricos. Foi nas docas do porto de Yokohama, Japão, que os mestres quarteleiros notaram, pela primeira vez, a relação entre o sumiço do fluído de isolamento de transformador e o aumento nos seios das prostitutas locais. Apesar de não ser de qualidade médica, essa era uma opção melhor para as profissionais do sexo japonesas, que até então injetavam parafina e vaselina para aumentar seios.

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Os médicos norte-americanos logo perceberam a tendência. A prática de injetar silicone diretamente nos seios se espalhou pelos Estados Unidos nos anos 1950 e 1960, e nos anos 1970 ainda era perpetrada por esteticistas e cirurgiões plásticos. Amplamente usada por artistas, trabalhadoras do sexo e mulheres comuns dos Estados Unidos — incluindo Nancy Reagan — demorou algum tempo para que histórias de terror sobre seios destruídos emergissem entre a classe média norte-americana. Com o passar dos anos, muitas dessas mulheres sofreram com cistos de silicone, queda dos mamilos e seios dolorosos e duros como pedra.

Em 1965, o FDA proibiu que médicos sem permissão especial injetassem silicone — no entanto, cirurgiões plásticos continuaram a realizar o procedimento, aproveitando a brecha legal de que, se comprassem silicone feito em seu estado natal, estavam operando fora da jurisdição do FDA. Isso continuou até a popularidade da prática declinar no final dos anos 1960 e começo dos 1970 devido a incontáveis histórias horríveis e uma maior regulamentação — estados como Nevada e Califórnia proibiram as injeções em 1975, e vários outros seguiram o exemplo.

Com as injeções legais fora do jogo, os cirurgiões se voltaram para os implantes de silicone, supostamente mais seguros, já que o silicone estava contido num invólucro de elastômero inerte. No entanto, devido a estudos ligando os implantes a sérios problemas de saúde, o FDA colocou os fabricantes sob uma moratória voluntária em 1992. Em 2006, o FDA reaprovou implantes de silicone gel, e desde então eles vêm fazendo grande sucesso, formando 72% de todos os procedimentos de aumento de mama realizados nos EUA em 2012. Foi durante as duas décadas passadas — quando o país estava envolvido num diálogo nacional sobre os riscos e benefícios dos implantes — que as injeções de silicone passaram para o submundo.

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A comunidade transgênero foi a real pioneira das injeções de aumento de nádegas nos anos 1980 e 1990. Para um homem se transformar em mulher na época, era ridículo pensar que o seguro cobriria os procedimentos necessários para fazer o exterior parecer mais com o interior. O mercado negro era o primeiro lugar a procurar para esses tipos de aumento, já que era a opção mais barata. Além disso, na época, o método de transferência de gordura não tinha sido desenvolvido ainda. Para conseguir os resultados desejados — nádegas arredondadas e femininas — as injeções eram as opções preferidas de muitas pessoas na comunidade transgênero. Depois que algumas dessas mulheres faziam sua transição, elas próprias se tornavam “médicas de bundas”, utilizando as técnicas de injeções pelas quais elas tinham passado.

Desde então, a prática passou das margens para o mainstream. Um dos exemplos terríveis das injeções é uma mulher de Los Angeles chamada Apryl Michelle Brown, que teve as pernas e os braços amputados depois de um choque séptico causado por complicações de injeções de silicone que ela tomou em 2004. Outra vítima que ficou famosa é Claudia Seye Aderotimi, 20 anos. Em 2011, ela viajou de Londres para a Filadélfia para tomar injeções com Padge Victoria Windslowe, uma transsexual conhecida em alguns círculos como “Black Madam”. Claudia era aspirante a dançarina e queria melhorar suas formas para tentar o sucesso na cena dos clipes de hip hop. Ela morreu de embolia pulmonar quase imediatamente, pois injeções de silicone industrial entraram em sua corrente sanguínea e chegaram aos pulmões e ao cérebro.

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O fenômeno do enchimento de bundas já se infiltrou na cultura pop. Sempre que Kim Kardashian ou Jennifer Lopez usam biquíni, os tabloides e sites de fofoca debatem furiosamente se suas bundas são resultado de muito agachamento ou injeções de silicone. A ex-stripper e modelo da cena hip hop Vanity Wonder, que exibe curvas de 34-23-45, escreveu um livro sobre seu vício em injeções de silicone ilegais e as mais de 16 vezes em que ela fez enchimento de nádegas. Nicki Minaj, que é tão conhecida por sua bunda quanto por seus discos de platina, já comentou o fenômeno das injeções e admitiu, ainda que em tom de brincadeira, que já passou pelo procedimento. Em sua participação especial no remix de Big Sean “Dance (A$$)”, Nick canta: “Kiss my ass and my anus, ’cause it’s finally famous / And it’s finally soft, yeah, it’s finally solved! / I don’t know, man, guess them ass shots wore off!” (“Beije minha bunda e meu ânus, porque ela é finalmente famosa / E é finalmente macia, é, está finalmente resolvida! / Não sei, cara, acho que aquelas injeções finalmente passaram!”).

As fotos das prisões de Oneal Ron Morris, a “Duchess”, ilustram sua transição. “Ela tinha o corpo perfeito”, disse um amigo. “Mas levou isso longe demais”. Fotos fornecidas pela polícia do condado de Broward.

Em 2011, as imagens grotescas e as proporções distorcidas de Duchess apareceram nos maiores sites de notícia e nos jornais da Flórida, quando ela foi presa no condado de Miami-Dade por praticar medicina sem licença e por danos corporais, fornecendo uma janela para o mundo angustiante do mercado negro de cirurgias plásticas. O tamanho da bunda da Duquesa era tão ultrajante que ela parecia o Koopa Troopa de peruca.

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Mas além da aparência horrenda da Duchess, o que chamou a atenção do público foi que ela supostamente injetava substâncias como Fix-a-Flat (um produto que serve para encher pneus de carro) e cimento nas bundas de suas clientes, antes de selar tudo com supercola. Apesar dessas alegações contra ela nunca terem sido confirmadas, sabemos que muitas de suas clientes sofreram efeitos colaterais mutilantes relacionados às injeções dela, e que pelo menos uma delas morreu.

Atualmente, a Duchess cumpre pena de 366 dias na prisão estadual da Flórida por homicídio culposo — além de outros crimes relacionados às injeções — então ela não estava disponível para entrevistas quando visitei o estado. Mas entrevistei Corey Eubanks, o homem que as autoridades locais afirmam ser seu assistente — uma acusação que ele nega. Corey acabou se declarando culpado em duas acusações de negligência, resultantes dos procedimentos de injeções da Duchess na casa dele em Hollywood. Quando o entrevistei, ele ainda estava em liberdade condicional.

Eu me encontrei com Corey na frente da Body Care, uma clínica de cirurgia plástica de Fort Lauderdale. Esse lugar peculiar foi combinado para conveniência do próprio Corey — um homem de 42 anos que planejava fazer uma lipoaspiração naquela mesma tarde. Corey, com dreads descendo pelas costas e lentes de contato cor de pistache, tem muita familiaridade com aumentos corporais. Além de ser um batalhador carismático — alternando entre consultor de impostos, personal trainer e stylist — ele é um outdoor ambulante das injeções da Duchess, que ele afirma só ter feito uma vez. De acordo com Corey, nos últimos anos, seu traseiro inflado inspirou pelo menos 25 pessoas a experimentarem as injeções da Duquesa (para deixar registrado, ele afirma que nunca recebeu nada para indicar pessoas a Duchess). Aparentemente, todo mundo queria ter a bunda dele.

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A primeira vez que vi Corey, na frente da clínica, entre palmeiras balançantes e corredores suados, tudo que consegui pensar era no que aconteceria se ele caísse no Oceano Atlântico. Será que esses balões em sua calça de ginástica flutuariam, ou o afundariam como uma bigorna? Corey não se envergonha do que tem na retaguarda. Só levou alguns minutos de conversa até que ele me convidasse a tocar sua bunda.

“Vá em frente”, disse ele num tom maternal, com se estivesse me oferecendo um biscoito antes do jantar, e não uma chance de sentir seu bumbum altamente elogiado. Ele levantou a camiseta e arqueou a coluna, virando a cabeça na minha direção e fixando seus olhos de mentira em mim. Hesitei, começando com apenas o dedo indicador, como se estivesse prestes a tocar uma única tecla de piano. Quando pressionei a pele, meu dedo não afundou no bumbum como eu esperava. Em vez disso, ele se dobrou um pouco na junta. A bunda dele parecia uma pedra embrulhada em couro de bola de futebol.

Corey disse que pagou US$1.100 dólares para que a Duchess inflasse seu traseiro uma década atrás, mas a relação deles vinha de muito antes disso. Corey conheceu Duchess quando ela ainda usava seu nome de batismo, durante o verão de 1994 no falecido clube gay Waterfront. Só muito depois a Duchess faria a transição para o corpo no qual ela ficaria famosa depois, provavelmente usando as mesmas técnicas underground que depois aplicaria em suas clientes.

Corey Eubanks não se envergonha das injeções ilegais e o corpo que elas lhe deram. Aqui, ele mostra seu bumbum num collant decotado de luta greco-romana, no Collins Park em Miami Beach.

“Cinco pessoas que eu conhecia na época tiveram o corpo feito por ela”, disse Corei. “Uma das meninas era uma tábua. Ela tomou as injeções e ficou com um lombadinha atrás. Minha amiga me contou quem tinha feito aquelas cinco pessoas e eu pensei: 'Talvez eu pudesse fazer, só em cima'. Eu queria que minhas coxas parecessem mais grossas em meus shorts e queria ter um bumbum bonito.”

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Corey me contou depois como Duchess realizou o procedimento nele, quase uma década atrás. Sua bunda é considerada uma verdadeira obra de arte numa cidade como Miami, onde, devido à competição entre milhares de pessoas que nunca vão estar felizes com a própria aparência, o resultado distendido de decisões pouco saudáveis é interpretado como um marco da beleza moderna. Para fazer as obras-primas no topo de suas pernas, Corey acredita que não tinha outra opção.

“As pessoas não vinham para lugares como esse”, ele disse, apontando para a clínica de cirurgia plástica atrás, onde ele faria uma lipo dali uma hora, “era porque não tínhamos transferência de gordura. Tudo que tínhamos era um enchimento para colocar na bunda. Aquilo parecia falso. Ninguém queria isso em comparação ao visual das injeções. E mais, você não ouvia falar de episódios ridículos ou de mortes. Eu não conhecia ninguém que tivesse passado por isso”.

Claro, as coisas mudam. Como o Dr. Mendieta me disse, pode demorar anos para os efeitos colaterais das injeções surgirem. Corey, tão confiante em sua bunda, não está a salvo. Um dia desses ele pode acordar com pólipos, lesões ou úlceras nas nádegas. Mesmo que elas não tenham causado nenhum dano médico direto ainda, as injeções já quase o colocaram na cadeia.

“É complicado quando a coisa de alguém dá errado”, disse Corey, quando perguntei sobre seus problemas legais com Duchess. “Mas e se der certo? O que ela é então? Um deus?”

Então, uma loira usando uniforme de enfermeira cutucou a cabeça do Corey. Era hora de sua lipo, um procedimento que exigiria muitos dias de repouso, tomar um coquetel de medicamentos, e usar uma cinta para que seus cortes não abrissem e vazassem seus fluídos estomacais. Antes que eu fosse embora, perguntei se ele, como a Duchess, era viciado em modificações corporais.

“Vício nunca foi a questão para mim”, ele disse. “Essa é a última. Depois disso, vou apenas comer bem e malhar muito.”

Seven, uma dançarina do King of Diamonds, tem orgulho de suas injeções ilegais. Ela explicou: “Quando fiz pela primeira vez, isso era muito pesado. Eu achava estranho andar com esse silicone na minha bunda. Mas depois de um mês de massagens e exercício, isso se tornou parte de mim. Depois foi só amor”.

Numa de minhas últimas noites em Miami, visitei o notório clube de striptease King of Diamonds.

Graças a referências em músicas de rappers como Rick Ross, Lil Wayne e Drake, o clube ficou mundialmente famoso pelas bundas gigantes de suas dançarinas. Depois de ver o rescaldo das injeções de Oscarina e aprender sobre os pormenores do enchimento com um conhecedor como Corey, eu queria ver o produto real em ação.

No clube, entrei boquiaberto no meio de notas de dólares que choviam para a bunda enorme e bonita de uma das garotas — conhecida pelos frequentadores como Seven — enquanto ela subia e descia por uma barra cromada que parecia chegar até o céu. O baixo da música “Uoeno”, de Rick Ross, estava tão alto que a carne da bunda dela ondulava, como aquele copo de água do filme Jurassic Park. Para encerrar com chave de ouro, Seven terminava sua apresentação abraçando o mastro cromado com suas nádegas suadas e carnudas, e deslizando até o chão como melaço escorrendo pelo cabo de um garfo. Enquanto a música mudava e o apresentador chamava outra garota bunduda para o palco, um rapaz de gravata borboleta varria as notas de dólar recém-caídas de Seven para um balde plástico, já transbordando de dinheiro sujo.

Em qualquer outro clube de striptease de qualquer outra cidade, a bunda de Seven seria tratada como a oitava maravilha do mundo. Engenheiros do exército apareceriam para estudar a fortaleza estrutural que é a bunda dela, e como isso foi parar num corpo tão pequeno. Mas em Miami, no King of Diamonds, isso é só uma gota num oceano de bundas. O segredo do traseiro de Seven não é segredo nenhum. Como tantas outras garotas em Miami e por todos os Estados Unidos, ela fez um pacto faustiano com a beleza um ano e meio atrás.

Depois de sua apresentação impressionante, eu me encontrei com a Seven no escritório particular um tanto brega no fundo do clube, uma sala decorada como uma adaptação blaxploitation de Scarface. A dançarina foi um pouco leviana ao falar sobre suas injeções ilegais e como elas mudaram sua vida. Ouvindo a história dela, parecia que encher sua bunda foi uma das melhores decisões que ela já tomou.

“Fiz minha bunda na terça-feira”, ela disse. “Voltei a trabalhar na sexta e fiz o triplo do custo das injeções numa só noite. Meu lucro foi de stripper normal para stripper superior.”

Quando perguntei se podia olhar mais de perto, num instante ela se virou, agachou, abriu as nádegas e sacudiu sua bunda até o chão. Me ocorreu naquele momento de delírio que talvez a bunda dela fosse uma enorme metáfora para Miami —– talvez até para a América, talvez até para a própria alma humana. O traseiro bem torneado de Seven era lindo e sedutor por fora, mas por baixo disso se escondia algo sombrio e nocivo.

Meus medos se confirmaram quando ela se levantou e me deixou apalpar. O bumbum dela parecia o paraíso, mas a sensação era como se eu estivesse agarrando uma lápide.

@WilbertLCooper