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Grilhões femininos: Por que muitas mulheres ainda são obrigadas a trabalhar de salto alto?

Conversamos com mulheres de várias áreas que enfrentam ou já enfrentaram longas jornadas de trabalho obrigatoriamente equilibradas em cima de saltos.
24.5.16
Colagem por Pedro Nekoi.

Para qualquer fashionista, o salto alto é um acessório indispensável no guarda roupa feminino. Segundo os entendidos, o calçado alonga as pernas, deixa a postura mais ereta e também passa uma imagem de elegância. Só que quem indica também avisa de antemão: vai doer. O próprio Christian Louboutin, famoso por seus sapatos de solas vermelhas com saltos tão altos quanto seu valor, já disse no seu documentário que os calçados não são feitos para serem confortáveis, mas sim para ficarem bonitos. Isso resume muita coisa.

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Há quem goste de usar todos os dias, mas e quando o uso dele se torna uma obrigação? Nos últimos dias, a VICE colheu diversos depoimentos de mulheres que não só tinham que trabalhar em cima de salto altos, como também corriam o risco de levar advertência se não cumprissem a regra. Uma das mulheres que dividiu sua experiência chegou a chamar a situação de "uma guerra silenciosa".

Pode parecer que é um dom que nasce com as mulheres para conseguir se equilibrar sobre saltos, só que sua praticidade é mínima. O cuidado deve ser dobrado ao descer escadas, andar em calçadas, se precisar correr é impossível e até ficar parada enche o saco. A imposição do salto alto no trabalho nunca recebe uma justificativa além de "seguir um dress code". O que nos leva a concluir que é uma obrigação puramente estética e -por que não?- que serve para cumprir uma certa fetichização da imagem do que a mulher deve aparentar para o mundo profissional.

As empresas que obrigam o uso do calçado não soam absurdas no mercado de trabalho, porém, após os relatos reunidos, vimos que o uso obrigatório impede que muita mulher faça um bom trabalho. Ou pelo menos volte pra casa sem sentir dores.

"Trabalhei por seis meses como atendente de check-in de uma grande companhia aérea no Aeroporto de Congonhas. Assim como a maquiagem carregada e o cabelo sempre preso, o salto alto era uma das obrigações", conta a tradutora e produtora Marcela Gummersbach. Em cima de saltos de 8 cm, ela passava seis a sete horas por dia de pé, tendo que eventualmente correr pelos corredores do aeroporto para levar um passageiro eventual atrasado para pegar o voo.

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As dores no pé eram fortes, relembra Marcela, mas não tinha jeito. "Quem não usava, voltava pra casa com uma advertência ou desconto no salário. "

O uso de salto costuma ser mais comum em mulheres que trabalham em companhias aéreas. Tradicionalmente, junto com o uniforme polido de comissária de bordo, o salto vem junto.

"Quando entramos no avião para assumir o voo é obrigatório trocar para a sapatilha por medidas de segurança, mas, no restante, todo o percurso casa-aeroporto-hotel-aeroporto é obrigatório usar salto alto", conta a jornalista Francine Desoux que trabalhou dois anos e meio na companhia aérea Avianca. "Algumas meninas que tinham problema de coluna conseguiam atestados médicos e eram dispensadas, mas precisavam explicar isso para todos os colegas que entravam no caminho, pois todo mundo controla e cobra o uniforme de todos, podendo ser denunciado pelo colega à chefia."

Questionada, a Avianca emitiu um comunicado dizendo que "a Avianca Brasil esclarece que o uso do salto pelas comissárias de voo é recomendado, pois faz parte do conjunto do uniforme, que é composto por peças funcionais criadas para transmitir profissionalismo, estilo, força e paixão. Se uma tripulante alega que não pode utilizar esse tipo de sapato, seu caso é analisado individualmente. "

Já a frentista Pamella Vian Herchcovitch trabalhou três anos em grife conhecida em cima de saltos "bem altos" que eram uma grande exigência para vendedoras. "Eram 12 horas de pé, com uma hora apenas para descansar e minhas pernas queimavam de tanta dor. Todas as funcionárias sofriam com bolhas e joanetes e até hoje tenho marcas nos meus pés por causa disso. Nem sapatilha, um saltinho ou até sapatos com meia pata eram permitidos. Quem trabalhava sem salto voltava pra casa com uma advertência. "

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Isadora Stevani, editora e finalizadora de vídeo, passou por uma experiência similar aos 18 anos em uma loja no Shopping Morumbi. "Para acessar o estoque da loja tínhamos que subir uma escada de caracol, a gente subia e descia de salto correndo essa escada dezenas de vezes e não podíamos sentar. No fim do dia, deitava na cama e pedia para minha mãe fazer um pouco de massagem nos meus pés. Eu gritava de dor. "

Colagem por Pedro Nekoi.

Nas leis trabalhistas, não há uma proibição do empregador exigir o calçado como parte do dress code da empresa ou colocá-lo como parte do uniforme. "Se dentro desse código de vestimenta tiver o salto alto e essa exigência estiver dentro do que chamamos da razoabilidade, não configura uma discriminação por conta da contratação", explica Werner Keller, advogado trabalhista, mestre em direito em trabalho pela PUC-SP, doutorando pela universidade autônoma de Lisboa e professor assistente no curso de especialização latu sensu da PUC-SP. "Mas você pode ter um entendimento que pedir esse tipo de coisa seria discriminatório, já que tem mulher que não pode usar esse tipo de calçado por vários motivos".

Ainda de acordo com Werner, a empresa precisa avisar na contratação que a funcionária precisa usar salto alto. Se essa imposição vier depois, pode ser considerada abusiva. "O empregador, no caso, está realizando uma alteração no contrato de trabalho posterior que, pela lei, só pode ocorrer se ela não for lesiva ao funcionário. Essa alteração de impor o uso do calçado seria reconhecida em juízo como nula. "

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Nos casos em que o calçado faz parte do uniforme da funcionária, o advogado diz que é de responsabilidade da empresa fornecê-lo. Analisando com os depoimentos colhidos, são poucos empregadores que cumpriam essa diretriz.

"Trabalhei numa loja na Oscar Freire e todas as funcionárias eram obrigadas a usar salto todos os dias, trabalhando em pé e subindo escadas toda hora", conta Patrícia S., consultora de marketing & branding. "Depois de muito esforço, consegui que eles me liberassem usar três horas de salto e três horas de rasteirinha, mas eu tive que comprar a rasteirinha da marca que custou 400 reais, que era um terço do meu salário. "

A empresária Tayanni Andrade diz que trabalhou três meses em uma empresa que prestava serviços de "segurança" no raio-x do aeroporto de Curitiba que exigia e fornecia o salto alto no uniforme. Porém, a mesma empresa se recusou a repor o calçado quando ele demonstrou sinais avançados de desgaste. "Quando saí de lá, a lateral do sapato estava aberta, nos dois pés. Devolvi junto com o uniforme só pelo desaforo, porque já tinha pedido um novo e eles se recusaram a dar", diz.

Isabella Garcia recebeu olhares feios dos colegas e da chefia na empresa onde exercia o cargo de auxiliar administrativa. No primeiro dia de trabalho, foi avisada que precisava comprar um salto, algo que nunca teve por calçar 40/41, números difíceis de encontrar calçados femininos. A solução foi usar um sapato menor, que causou feridas e bolhas nos pés. "Cheguei a trabalhar de sapatilha e tênis alguns dias, expliquei a situação dos sapatos menores que meu pé e que logo que recebesse compraria um maior, mas olhavam feio pra mim. Desde os superiores até os colegas", relata a atendente.

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Embora não existir um consenso se o calçado traz prejuízo para a saúde, o uso constante pode agravar problemas já existentes. Segundo Aizenaque Grimaldi de Carvalho, especialista em Medicina do Trabalho, não há uma contraindicação, a princípio, da imposição do salto alto no trabalho, porém "você tem que ver o tipo de atividade que vai ser desenvolvida para que não haja riscos de acidente e de queda. O que tem que ver são as condições individuais da trabalhadora. Principalmente a parte ósseo-muscular, se ela tem algum problema particular no pé, tornozelo, joelho, coluna. Porque se ela tiver algum comprometimento preexistente, o uso pode ajudar na evolução da situação que ela apresenta, mas cabe ao médico analisar cada caso individualmente. "

"Se começou a usar salto e começou a apresentar um sintoma, ela precisa procurar um médico do trabalho para ver o que está acontecendo. As joanetes, por exemplo, não estão diretamente ligadas ao uso do salto, mas ele pode contribuir para o agravamento da condição", conta o médico especialista.

Para juntar uma grana, a jornalista Priscilla Ramires trabalhou em diversos eventos, feiras e recepções como o Salão do Automóvel, Hair Brasil e Fenatech em cima de saltos altos por períodos que chegavam até 12 horas por dia. Sentar era proibido e o horário de almoço mal somava meia hora. "Eu ganhei belas varizes depois desses quase 6 anos fazendo eventos e tive que operá-las", conta.

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Muitas mulheres que mandaram seus relatos questionaram se o uso de saltos é tão importante assim para demonstrar um bom serviço. "A sensação é que a aparência é muito mais importante do que a qualidade do nosso trabalho", desabafa Andressa* que trabalhou como recepcionista em uma empresa.

A imposição do calçado pode parecer um mero detalhe para o empregador, mas se torna um pesadelo para muitas mulheres que não se dão bem com isso. É uma prática, segundo Keller, que dependendo das condições no trabalho pode ser considerada abusiva. "Por isso que na contratação os empregadores precisam avisar. Usar terno é uma coisa, mas o salto é questão de saúde. Essas meninas que ficam trabalhando 12 horas de pé em cima de saltos podem ter a saúde delas comprometida. "

Pouco se discute em juízo se a imposição do calçado é abusiva ou não. Recentemente, uma publicação nas redes sociais de uma garçonete britânica denunciou que foi suspensa do trabalho porque se recusou a calçar os saltos por conta do pé machucado. Após um abaixo-assinado, o parlamento inglês discutirá se as empresas poderão exigir esse tipo de coisa.

"Aqui no Brasil, os sindicatos só poderiam fazer isso se firmarem na convecção coletiva com o sindicato dos empregadores que não se pode exigir a utilização de salto. Tem que estar na convenção coletiva ou, no mínimo, terá que firmar um acordo coletivo, dentro da razoabilidade de cada função", explica Keller.

Num ambiente mais formal, a advogada tributarista Karla Fabrício de Godoy foi questionada no escritório em que trabalhava porque não usar mais saltos. "Na advocacia existe um código de vestimenta que ninguém fala como é ele, mas que você precisa cumprir como o esperado", relata. Durante a conversa, um dos sócios chegou a mencionar que ela não se vestia como uma advogada, mas sim como "uma jornalista".

Karla explicou que não usava mais os calçados por causa de uma torção no pé, mas viu que os sócios se incomodaram com os sapatos baixos. "No meu caso, como fujo bem do dress code, isso tem outro preço: preciso ser excepcional pra justificar minha 'excentricidade'."

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