A festa da Quadrilha do Pixo

O evento foi pra arrecadar grana, objetos e mantimentos pros companheiros da pixação que estão presos em Belo Horizonte.
17.6.16

Na tarde do sábado dia 04 de junho, pixadores colaram na ocupação realizada na Funarte de Minas Gerais, localizada na região central de Belo Horizonte. O objetivo foi participar da Quadrilha do Pixo, um evento realizado para arrecadar grana, objetos e mantimentos para enviar aos companheiros da pixação que estão presos em Belo Horizonte: GG, Goma, Maru e Morrou. Além, é claro, para reunir a galera do pixo da capital mineira.

Foto: Gustavo Ferreira/ Sô Foto Coletivo

O evento foi organizado coletivamente e a escolha do nome significa uma brincadeira, um trocadilho com a questão que enquadra os pixadores presos, formação de quadrilha, e as quadrilhas juninas, típicas desta época do ano.

Felipe Soares, um dos organizadores e pesquisador do pixo, entende que, segundo o Código Penal, formação de quadrilha é quando há organização, hierarquia e divisão de tarefa. "Isso não existe em qualquer grupo de pixação que a gente conheça. Pesquiso há três anos na pós-graduação, convivo com os pixadores, e a gente percebe justamente o contrário. Existe uma horizontalidade no grupo, não há uma liderança. Por mais que haja respeito aos mais velhos, em momento algum, alguém fala para pixar lá, ou não pixar lá. Cada um faz o quer", esclarece.

Foto: Gustavo Ferreira/ Sô Foto Coletivo

Para abrir a programação da Quadrilha do Pixo, foi exibido o documentário PixAção 2, no galpão 4 da Funarte MG. O sol daquele sábado se pôs, enquanto acontecia a roda de conversa sobre o filme, o que é o pixo, o porquê de estarmos ali na Funarte ocupada e o que era aquela luta. O microfone foi aberto para quem quisesse falar.

Uma pixadora de Brasília que pediu pra não ser identificada afirmou que o lugar delas é na rua, e lembrou que "hoje em dia as mulheres estão mais nas ruas, com a lata na mão". Outra pixadora chamada Luna recordou vezes, no rolê, o reconhecimento dos homens quando elas escalam os picos mais rápido que eles.

Foto: Gustavo Ferreira/ Sô Foto Coletivo

Artista que, em protesto, pixou a parede na abertura da exposição sobre sua vida e obra na Bienal de São Paulo, João das Neves esteve presente na Quadrilha do Pixo. Na roda de conversa ele ressaltou que "esse espaço aqui é um espaço de vocês. Eu espero que essa ocupação seja perene e que vocês venham para diálogos fundamentais, pois compreendendo ao outro iremos construir uma sociedade mais justa e com mais justiça".

Foto: Gustavo Ferreira/ Sô Foto Coletivo

Seguindo a programação daquela noite de sábado, o DJ colocava o som nas caixas, e um dos organizadores frisou: "além de discutirmos e promovermos esse diálogo aqui, também viemos para curtir um som do pixo", afirmou Croik. Acabando o debate, o evento se transferia para o espaço central do pátio da Funarte.

Foto: Gustavo Ferreira/ Sô Foto Coletivo

Foram esticadas, no pátio da Funarte, duas faixas amarelas, que se destacavam no ambiente. Nelas, os pixadores puderam registrar suas tags e intervenções. Ninguém ali estava para jogar tinta nas paredes da Funarte. As faixas e cadernos foram suficientes para a classe do pixo apresentar-se à ocupação, permanecer e realizar o evento, que terminou com shows.

Foto: Gustavo Ferreira/ Sô Foto Coletivo

Bebida gelada, catuaba ou cerveja, canjica e canjiquinha para matar a larica, eram vendidos em prol da arrecadação de dinheiro para os quatro pixadores que estão privados de liberdade. Também eram vendidos adesivos, com o dinheiro arrecadado voltado para o mesmo fim.

Do início ao término da programação, qualquer pessoa podia deixar seu recado destinado ao GG, Goma, Maru ou Morrou, no Correio Elegante. Na próxima visita a eles, serão levadas todas mensagens e os bens de consumo arrecadados no evento. Para Felipe "as arrecadações contribuirão bastante com os pixadores injustamente presos. Eles poderão sentir um pouco da energia que rolou no evento, através das mensagens e cartas depositadas no correio elegante", frisou.

O evento contou com ampla participação de pessoas ligadas à cultura do pixo em Belo Horizonte e também pessoas que nunca haviam tido contato com a pixação, e que ali, tiveram oportunidade de conhecer melhor essa cultura.

Entendendo o caso

Durante o debate realizado na programação da Quadrilha do Pixo, várias vezes o assunto se voltava para a prisão dos quatro pixadores. O advogado Felipe Soares, responsável pela defesa jurídica deles, explica que o primeiro processo foi aberto em 2015. Nele, o GG foi condenado a 8 anos e 7 meses de detenção. Ele lembra que, na semana passada, completou um ano q GG está preso. "Vale ressaltar que a condenação foi pela pixação, que foi limpa com bucha e detergente em menos de 12 horas do acontecido, e por apologia ao crime", afirmou Felipe.

Foto: Gustavo Ferreira/ Sô Foto Coletivo

Já o segundo processo, que envolve a pixação realizada na Igrejinha da Pampulha, em março deste ano, foram presos o Goma e o Maru, acusados por pixar a igreja, considerada patrimônio histórico, e por apologia ao crime. Soares explica os procedimentos que foram realizados até acontecer a prisão dos dois. "O Maru pixou a igrejinha de domingo para segunda-feira. Na quarta-feira pela manhã, fui com ele voluntariamente na Polícia Civil para prestar depoimento, onde confessou a pixação e foi liberado. Uma semana depois o Ministério Público pediu a prisão preventiva dele, concedida pelo judiciário. Nós achamos completamente desnecessária a prisão preventiva, pois ela se justifica quando a pessoa pode esconder provas, ameaçar testemunhas ou fugir. Entendemos que tal prisão foi por interesse social. Uma semana depois da prisão do Maru, foram até a casa do Goma para prendê-lo. Sendo que, já tinham apreendido os objetos e materiais que ele comercializava em sua loja, a Real Grapixo."

A questão vai além da criminalização do pixo. O advogado, Felipe Soares, considera que há uma desproporção nas medidas impostas pelo poder judiciário e, principalmente, um rigor desmedido nas denúncias realizadas pelo Ministério Público Estadual. "O promotor costuma falar que BH é uma das capitais mais pixadas do Brasil. Isso a gente não consegue afirmar. Mas que em BH existe a maior repressão do Brasil à pixação, isso sim, é sem sombras de dúvidas", afirmou Soares.

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