Como os consumidores de pornô conseguiram se fartar de creampies
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Como os consumidores de pornô conseguiram se fartar de creampies

Uma das principais vozes do gênero fala como o creampie, por insistência e muito marketing, se tornou no início dos anos 2000 um hit na indústria de entretenimento adulto.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
8.11.16

"Creampie" é um termo na indústria do entretenimento adulto para quando o ator goza dentro do(s) orifício(s) de outro artista, permitindo então que a câmera foque na porra escorrendo. A prática acabou se tornando um subgênero poderoso do pornô que "vazou" para o vocabulário sexual dos norte-americanos. Mesmo não sendo tão comum quanto as cumshots dos filmes normais, ou mesmo o subtema popular facial, o termo tem bem mais buscas no Google, foi um dos mais buscados no Pornhub em 2011 e 2012, e continua sendo uma das principais buscas em algumas partes dos EUA. Segundo registros da indústria, um dos vídeos pornôs mais alugados do verão nos EUA foi um título de creampie. O fetiche já foi referenciado em filmes de Hollywood como Shame de Michael Fassbender e na série It's Always Sunny in Philadelphia. Cenas de creampie são tão difundidas e amadas pelos consumidores de pornô que você pode achar que é um tropo antigo.

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Ainda assim, segundo o arquivista pornô Jeff Vanzetti, fundador da IAFD.com, o IMDB do pornô, o gênero creampie não ganhou seu nome, vocabulário visual e normas até os anos 90. E foi só no começo dos 2000 que a prática se tornaria um dos gêneros mais populares do pornô, com incontáveis séries lançadas como Creampie Cuties, Creampie Surprise e Internal Combustion.

A propagação do creampie no pornô, porém, não foi um processo orgânico. Foi resultado do ativismo de um grupo de fãs que acabou virando produtores e lobistas. Esses fãs, que operavam o ainda existente creampie.com, inicialmente concordaram em fazer o review de cenas e depois hospedar conteúdo original, cunhando (e registrando) o termo "creampie", estabelecendo regras para como as cenas deveriam ser filmadas, e vendendo sua fixação fetichista para alguns dos estúdios mais lucrativos da era.

Recentemente, a VICE falou com uma das principais vozes por trás do creampie.org e defensor da prática, um homem que atende pelo pseudônimo "Sir Ron". Antes apenas um fã e um "cara do TI de sucesso", o trabalho de Sir Ron com o creampie acabou tomando tanto tempo de sua vida que ele largou o emprego, se mudou para a Califórnia e entrou de cabeça na indústria do entretenimento adulto, onde ele trabalha até hoje. Conversamos sobre por que ele e seus colegas estavam tão ansiosos para ver o creampie em filme, as táticas que eles usaram para popularizar o ato, e o que ele acha dos creampies modernos.

Nosso projeto começou em 1994, porque a indústria adulta só fazia facials — a cena onde o cara goza no rosto da atriz. Em vez disso, queríamos que o creampie se tornasse uma variação do popshot. Você tem cinco cenas num filme, e não quer ver cumshots em todas elas. A gente ficou de saco cheio.

Nos dias das revistas, as pessoas batiam punheta pra quê? Fotos de boceta. Ver um close de boceta é excitante. Ver um close de uma boceta com porra escorrendo é mais legal ainda porque os homens são mais visuais.

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O mercado amador sempre fez creampie — por exemplo, Jan B, Amy French e Lynn Carroll. Começamos originalmente como uma lista que revisava sites para achar vídeos de creampie ou cum shots internas. Outros fãs de pornô contribuíam com a lista, e a gente mantinha o site.

Começamos a defender o creampie na indústria adulta em 1996, frequentando exposições e pedindo aos produtores vídeos do gênero. E como você pode imaginar, eles não tinham nenhum.

Começamos a produzir nosso próprio conteúdo em 1998. Tivemos que recrutar as garotas, e você só conseguia fazer isso, fora de uma grande agência de talentos, em revistas de swingers como a Oddity e a Continental Contacts. Fazíamos uma entrevista e, no começo, algumas das garotas amadoras diziam: "Mas não é assim que se faz sexo?" É o que todo mundo faz na vida real. Mas nós mostramos.

Colocamos instruções no site para fazer vídeos de creampie bons: dá para fingir um creampie, então uma das regras é que a filmagem não pode ter cortes. Nos anos 90, um corte nessa hora só podia significar que você tinha colocado alguma coisa falsa dentro da garota. É um pouco mais fácil, mas coisa de perdedor. Você não pode se afastar na hora do gozo. Você fica ali por mais dois minutos. Você precisa ver a porra saindo. É isso que faz a cena ser um sucesso, é isso que faz a cena ser creampie.

Nossa primeira tentativa de vender nosso conteúdo e espalhar o termo foi entrando em contato com a AVN e dizendo "vocês sabiam que 'creampie' é o termo da indústria para uma cumshot interna?" E eles acreditaram e disseram "não, não sabíamos". Começamos a espalhar a notícia assim.

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Na verdade, "Creampie" é nossa marca registrada. Era 1999, empresas mainstream estavam indo atrás de produtoras adultas que tinham domínios como WhiteHouse.com, que era um site pornô. A fábrica de sapatos Nina Footwear tentou processar Nina Hartley por causa do site dela — ela tinha o nina.com. Ela lutou contra o processo. Mas a gente não queria que o Entenmann's, o Pillsbury ou quem quer que fosse viesse dizer "Ei, creampie, esse nome é nosso!" Então registramos creampie como marca para nos proteger e poder continuar usando o nome. Mas quase nunca pressionamos quem também o usa.

Na virada do milênio, começamos a ver séries de creampie de grandes produtoras como a 4-Play Video, Anabolic Video, Bangbros, Devil's Film, Elegant Angel, Kickass Video, Lethal Hardcore e Randy West. A indústria é comandada por tendências. Se alguém está fazendo anal, todo mundo tem que fazer anal. Se alguém está fazendo creampie, todo mundo começa a lançar filmes de creampie, um atrás do outro.

Começando em 2001, a Red Light District, que provavelmente era o maior estúdio pornô na virada do milênio, colocou o gênero no topo com vários filmes de creampie. [Por exemplo: Cream Filled Chocolate Holes, primeira edição 2005; Creampie Cuties, primeira edição 2002; Cumfart Cocktails, primeira edição 2004; Don' Pull Out, primeira edição em 2005; e In It Goes, Out It Comes, primeira edição 2007]. Tivemos tanto sucesso que nosso produto já não era mais único.

A indústria é comandada por tendências… Se alguém está fazendo creampie, todo mundo começa a lançar filmes de creampie, um atrás do outro. — Sir Ron

Hoje creampie é um nicho. Há séries muito específicas como Creampie Thais. E a Pulse tem o Anal Consumption, um gênero de creampie onde o cara goza na bunda da mina, a porra sai num copo e ela bebe. Então o gênero já tem seus micronichos. E as pessoas estão tentando ir mais além. É uma questão de dois fatores: você precisa achar um novo estímulo. E, para sobreviver no mercado hoje, você tem que dizer "tenho um micronicho e vou explorá-lo".

Não queríamos que creampie se tornasse um fetiche, com séries inteiras devotadas só a cenas de creampie. Queríamos que os filmes tivessem uma cena de creampie, vaginal ou anal, e pronto.

Mas os fãs são leais, e atraímos bastante gente no começou fazendo muita propaganda. Um dos primeiros caras que se juntou ao nosso site, ele só parou ano passado, quando morreu. O nome dele era Jerry. Ele adorava creampie. Ele sempre escrevia para o site. "Ei, é o Jerry de 1996", ele dizia.

Arte por Zoë Ligon .

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