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Outros

Matando o Tempo

Serial Killer Cards é tipo um Super Trunfo... de psicopatas.
31.8.10

Dia desses um cara começou a seguir a gente no Twitter. Ele achou que fossemos gostar do trabalho que estava fazendo, então resolveu entrar em contato. Até aí nada de mais, certo? Só que a obra dele era resultado de um fichamento que ele tinha feito apontando diferentes características de uma centena de serial killers, tudo contabilizado com minúcias do tipo número de mortes, tempo de atuação e porcentagem de crueldade de peças raras como Dr. Jack Kervokian, Maníaco do Parque e Chico Picadinho. Mas de boa, afinal o fulano é casado, com três filhos, pós-graduado, parece calmo… Peraê, ele relacionou MESMO, metodicamente, tudo numa planilha de Excel?! Tá, vai, você -- e eu -- pensamos: “É, como todo assassino em série. Pronto, daria um filme. Esse aí tá no mínimo estudando pra virar psicopata”. Só que São Paulo não é Hollywood e eu não tenho um MBA do ITA, vulgo Q.I. altamente desenvolvido, coisa que o tal Luciano Milici tem. E ele fez desse esforço de determinação de perfil de personalidades criminosas um jogo chamado Serial Killer Cards, o que alivia qualquer suspeita.

Passado o cagaço, descobri que o Luciano é escritor de contos fantásticos nas horas vagas e começou a pesquisa para um romance de ficção que acabou não fazendo. Ufa! Mas essa ficha demorou pra cair. Antes era só: “Tem corági, Soraggi?”. Tanto que demorei, mas confabulei na redação e mandei um e-mail já com a isca: “Cara, estava pensando o seguinte: de repente a gente se encontrar em algum lugar pra fazermos a entrevista. Queria matar isso o mais rápido possível, o que acha?”. Lugar público, testemunhas e tal. Ele mordeu: “OK. Obs.: Você se chama Bruno e ainda diz que quer 'matar isso essa semana'. Ficou engraçado”. Enfim, dos cem, 54 viraram cartas do tal Super Trunfo de psicopatas, que tem como trunfo a cadeira elétrica ("Pena Capital"), vencida só pelas cartas pesadelo (a versão A1 desse deck). Ou eu topava essa parada ou ia ter que mudar de posição, então fui jogar uma partida com ele. Óbvio, sempre esperto.

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Luciano Milici: Eu te aconselho a não falar o nome do assassino, senão ganho de você.

Vice: [Vamos ver, então] Tá, pode começar.
Xi, já comecei ruim. Tempo de atuação?

Quatro anos!
Dois. Algumas meninas, quando viram o baralho, acharam que eu tinha colocado a foto de um modelo pra esse Ted Bundy. Não, o cara era realmente boa pinta e usava isso como arma. E esse Bela Kiss é interessante porque nunca iam saber que ele era assassino. Ele matou muita gente e colocou todas em toneis na casa dele. Só foram descobrir porque teve uma guerra, ele teve que fugir e descobriram os toneis lá. Quantos não existem nesse mundo fazendo a mesma coisa e a gente nunca fica sabendo? O pior é que quando você começa a trabalhar com esses cards em meios sociais você acaba identificando, tipo "esse aqui é parecido com fulano, o diretor tal ou o gerente tal".

[Com que tipo de gente esse cara anda, meu Deus?] Vai, vítimas por ano. Eu faço dez!
1,5. Perdi. Uma pergunta boa pra você me fazer é se eu sou a favor da pena de morte.

[Tentado me manipular. Típico]. Você é a favor da pena de morte?
Não, sou contra. Qualquer uma.

[Tentando se passar por bonzinho, né?] E prisão perpétua?

Sou a favor de prisão perpétua porque o cara é irrecuperável e nunca vai poder se misturar, mas não acredito em morte ou assassinato como qualquer saída.

[Boa. Fazer sofrer por bastante tempo…] Então vamos lá. Habilidade?
52. Charles Manson.

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64!
Então, por que o Manson é 52? Porque ele não matou ninguém, ele não tem habilidade nenhuma pra matar. Ele falava que era Jesus – inclusive ainda fala – e convenceu todo mundo que ia ter a grande Helter Skelter, que faria os brancos e os negros lutarem. Disso iam sobrar os negros e o líder dos brancos, ou seja, ele. Ele acreditava nisso. Louco, né? Não dá nem pra achar uma lógica. E o engraçado é que tem toda uma ligação. O crime maior de todos que eles cometeram foi na mansão do cara dos Beach Boys – lá que morreu a Sharon Tate [mulher do Roman Polanski] que estava grávida. Foi requinte de crueldade extrema. Ele mandou pintar porcos nas paredes para que achassem que o crime tivesse sido cometido por negros, pra que a sociedade teoricamente racista enfrentasse os negros e causasse a grande Helter Skelter. Totalmente louco e sem sentido.

Minha vez de novo. Habilidade?
92.

[Merda!] Pô, 80.
Ah, agora peguei o John Waine Gacy. Tem gente que tem medo de palhaço sem ser assassino. Esse cara era palhaço E assassino.

[Me fazendo de palhaço?] E aborto?
Sou contra também. Sou espírita kardecista. Vítimas?

Quatro…
900!

Também, tô com esse japa fraco. Tudo bem que ele "cometeu todos os seus crimes com apenas 14 anos de idade"…
[Risos] A gente vai jogando e vai ficando com raiva de uns caras por serem 'ruins'. Aliás essa é a única foto desse japonês que existe, porque lá no Japão é proibido divulgar imagens de serial killers. Mas essa vazou. Sem contar o famoso reverendo Jim Jones, que depois o Chico Anísio fez o Tim Tones em sua homenagem. Em um dia ele matou 900 pessoas fazendo todos tomarem um veneno.Vai, tempo de atuação?

40 anos.
Putz, 14.

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[Rá!!!] Sorte minha. Andrei Chikatilo? O cara parece o Picasso ["o pior é que quando você começa a trabalhar com esses cards em meios sociais você acaba identificando"…]
É, engraçada a cara. Tem uns que são simpáticos.

Nossa, não dá pra confrontar os DNAs do sangue e do sêmen dele?
Não! Você não consegue ligar, é um caso raríssimo, então pra achar o cara é difícil. É uma anomalia de genes. E esse Thug que você tinha foi o último que coloquei na minha lista. Por quê? Eu estou introduzindo meus filhos na melhor igreja que existe, que é o cinema dos anos 80. Foram os filmes que formaram meu caráter. Se você assistir Indiana Jones e o Templo da Perdição, lá eles falam da seita dos thugs, que existe mesmo na Índia. Tudo graças a esse cara, considerado o cara que mais matou gente. Ele era doidão.

Devia ser. Porcentagem de crueldade?
77%.

50%.
Brasileiro, pô. Vampiro de Niterói. "Bebia sangue de garotos menores de 13 anos".

Qual é o seu filme de terror favorito, [Sidney]?
Então, é uma pergunta ruim, até, porque tem tantos… Mas o filme que motivou eu e meu irmão Marcelo a fazermos o site [Boca do Inferno], que motivou a gente a gostar de terror, é o Evil Dead, que, atualmente, se você for assistir vai dar risada. Cresci muito com anos 80, aqueles filmes de terror meio canastrões. Terror italiano eu também gosto muito… Então sou meio suspeito pra citar um.

Qual foi a maior dificuldade pra fazer esses baralhos?
Eu fiz um seguinte crivo pras fotos: realmente eu não poderia pegar a foto de um jornalista e simplesmente colocar numa coisa minha sem pagar o fotógrafo. Porém, como eu falei, é um estudo. Eu não fiz com a intenção de ganhar rios de dinheiro. Procurava a foto que estivesse em mais veículos, que saiu em mais lugares – então, assim, não era a foto exclusiva de um jornalista –, as que saíram em mídia impressa e livros sem citação… Que não chega a ser de domínio público, mas que não está sendo bilhetada. E eu percebi que quando se trata de um estudo, até mesmo de um estudo de maneira lúdica, tem uma questão legal aí que permite que você utilize. Além disso, em última instância, eu não uso só pra mim. Do que eu vendo eu dou uma porcentagem pra uma instuição que apóia a paz. Esse é o foco. A ideia não é ganhar dinheiro. Em nenhum momento a gente tá endeusando eles, pelo contrário, a gente quer mesmo alertar a sociedade. É inclusive o discurso que eu uso no site e nas regras.

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Na verdade, até tive um momento que quis ganhar dinheiro. Levei pra uma editora e numa empresa de brinquedos, e a editora gostou muito. Tenho um histórico de ir trabalhar com brinquedos. Meu pai foi gerente de marketing de uma grande empresa de brinquedos, e trabalhei uma época ajudando ele em traduções, criação de manuais… Criação de brinquedos, também, porque ele criou alguns brinquedos. E eu criei alguns com eles também.

Então foi você quem criou o Chuck?
[Risos] Quem me dera! Eu até tive a intenção de batizar meu filho de Chuck, mas minha esposa…

Sério?!
Não. Lógico que não.

[Boa, Bruno, paga de otário]
Na época que nasceu meu filho eu escrevi um texto no Boca do Inferno que foi exatamente sobre o nascimento de um infernauta – os fãs do Boca do Inferno não são internautas, são infernautas. Inventei esse termo. Faz bastante tempo. Eu conto essa trajetória, a de um cara que gosta bastante de filmes de terror e que está tendo um filho. Até brinquei que na época de registrar eu pensei nessas coisas. Mas juro pra você, isso não é mentira: sempre tive a ideia de registrar ele como Bruno, mas na minha frente tinha um pai que registrou o dele de Jason, só que com ‘d’ e ‘j’, tipo Djeison. Até acharam que era mentira, mas é verdade. Eu não levo o terror assim tanto a sério. Tenho em casa uma coleção de bonecos de miniaturas do Fred Krueger e tal, mas é tão lúdico que fica ali perto dos Hot Wheels dos meus filhos. Não tem assim… Se você for na minha casa é mais normal que muitas casas…

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Você não é um psicopata, então?
É, assim, eu não posso confessar…

E por que não virou com a empresa de brinquedo?
Eles me deram a seguinte resposta: a pesquisa é excelente, mas não gostei do termo Carta Pesadelo, não gostei do Super Trunfo ser o Hitler - na primeira versão o super trunfo chamava Genocida e tinha o Bush também. Aí falaram que ia ter que mudar muita coisa, mas mesmo assim acharam que não tinha mercado… Mas por exemplo, eu não procurei a Grow, que faz produtos infantis. Procurei empresas que fazem cards. No começo eles se interessaram, mas depois morreu o assunto.

[Tá, vai, chega de punheta] Você já teve vontade matar alguém?
Não, não, não… Todo mundo tem raiva, logicamente. Você cultiva explosões, mas não a ponto de matar… Uma série que eu gosto muito é o Dexter, sabe? Eles fizeram o perfil certinho de um serial killer, só que como a tara dele é matar serial killers ele não vai matar todo mundo, mas ser um herói. Mas acho que todo mundo tem rompantes de raiva.

[Hmmm, desconversando…] Joga, vai.
Cadeira elétrica!

Droga! Levou meu Drácula.
Boa. Bom, ele dispensa comentários, né? O mais engraçado é que ele é considerado um heroi na Romênia porque realmente matava pelo cristianismo, porque achava que tinha que defender os cristãos dos mouros. Mas ele não só matava como achava que tinha que fazer um jardim com os caras empalados. Ele jantava lá, com os caras ainda vivos enfiados nas estacas.

Ok, mas se você fosse matar alguém, seria mais estilo quem?
Boa! Todos os estilos são tão cruéis… Tipo, um estuprou, e eu não teria coragem de estuprar ninguém. Outro arrancou a pele, também não faria… Então acho que seria o Zodíaco, que dava tiro e era enigmático - até no baralho ele é o que tem mais habilidade, mesmo porque nunca foi pego. Ele escrevia cartas e tal, eu gosto dessa parte de mistério. Tanto que em tudo que escrevi até hoje, de contos e de livros, os personagens têm nomes normais, mas os sobrenomes são anagramas de alguma coisa que tem a ver com a história. Então se você vai ser um cara medroso no livro todo, vou fazer uma maneira do seu nome e sobrenome formarem uma palavra do tipo ‘medroso’, ‘covarde’ ou algo assim… Fiz isso em todos os livros.

Tava na sua vez.
Habilidade? 97.

100! Rá! Zodíaco.
Putz, cantei a bola pra você que ele era o melhor.

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Vítimas? Eu fiz 140!
Duas. Pô, Chico Picadinho também é fogo!

E eutanásia, o que você acha?
Sou contra. Assim, sou contra pra mim, não posso ser contra para os outros. Deixo claro pra galera que se acontecer algo comigo, mesmo que eu peça não me deixe morrer. É por causa da minha questão de religão. Não acredito que a gente deva abreviar nossa vida de maneira nenhuma…


Bom, cara, preciso ir embora agora. Voltar ao trabalho. Às vezes tem que parar mesmo porque o jogo é longo.

[Fugindo, já, amigão?] OK. Empate, então?
Sim. Pô, parabéns. Tá pronto pra matar já.