​Um programa do Google escreveu poemas bizarros para entender a mente humana
Crédito: Ben Husmann/ Flickr

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​Um programa do Google escreveu poemas bizarros para entender a mente humana

Ainda que de qualidade duvidosa, poesia escrita pelo cérebro artificial do Google é um passo necessário na evolução da tecnologia para que, no futuro, possamos conversar com um computador igual batemos papo com um amigo.

"Este era o único caminho. Era o único caminho. Era sua vez de piscar. Era difícil dizer. Era hora de seguir adiante. Ele tinha que fazer isso outra vez. Todos olharam uns para os outros. Todos se viraram e olharam para trás. Os dois se viraram para ele. Os dois se viraram e caminharam para longe."

O autor desse singelo poema está longe de ganhar o Nobel de Literatura, mas pode transformar a maneira como nos relacionamos com a tecnologia.

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Os versos de qualidade duvidosa foram criados por um programa de inteligência artificial do Google, numa parceria com a Universidad de Stanford e a Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos. Eles fazem parte de um projeto para ensinar computadores a usar a linguagem de maneira mais humana e elaborar frases que soem naturais.

Os resultados, apresentados há duas semanas numa conferência internacional, foram recebidos com curiosidade. Por um lado, eles mostram que o programa é capaz de criar frases gramaticalmente corretas que fazem algum sentido. Por outro, alguns dos exemplos parecem poemas adolescentes – e foram descritos pelos próprios pesquisadores como "bastante dramáticos".

Para poder escrever os versos acima, o programa analisou um banco de dados de 12 mil livros digitais disponíveis gratuitamente pela internet – formado, em sua maioria, por histórias românticas baratas. "A ideia era conseguir o maior número possível de livros em pouco tempo", afirma Luke Vilnis, professor de Stanford e colaborador do projeto.

O conteúdo dos romances serviu como base para formar o que os pesquisadores chamam de "rede neural": um modelo que busca reproduzir, de maneira aproximada, a maneira como o cérebro humano usa a linguagem.

Programas capazes de elaborar frases não são algo novo: eles existem desde a década de 1940, e você já deve ter visto o conteúdo criado por eles, por exemplo, nos textos automáticos que tentam enganar o filtro de spam da sua caixa de entrada. Embora alguns desses programas consigam criar frases gramaticalmente corretas, os textos que eles produzem não costumam fazer sentido.

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"A maioria dos modelos se concentra em grupos pequenos de palavras. Por exemplo: a palavra 'New' normalmente aparece antes de 'York', e a palavra 'City' vem em seguida. Esse foco em grupos pequenos de palavras dificulta a criação de frases que tenham um assunto ou significado consistente", disse Vilnis ao Motherboard.

O programa dos pesquisadores faz o caminho contrário: ele usa o assunto como ponto de partida e cria uma frase a partir dele. "Nosso modelo aprendeu a escolher um assunto aleatoriamente (o significado da frase, por assim dizer) de forma que o assunto quase sempre corresponda a frases gramaticalmente corretas em inglês", afirma Sam Bowman, da Universidade de Massachusetts Amherst.

O modelo é capaz de criar frases a partir do zero ou usar uma frase pré-existente como ponto de partida para elaborar frases similares. Mas os resultados mais interessantes do experimento surgiram quando os pesquisadores usaram o método de interpolação. Nele, o programa recebe duas frases escolhidas do banco de dados de livros digitais e tem a tarefa de gerar uma série de frases intermediárias, mudando o sentido gradualmente até a primeira se transforme na segunda.

Foi assim que o programa criou os "poemas" apresentados num artigo pelos pesquisadores e traduzidos livremente aqui. A primeira e a última frase de cada um deles foram tiradas de um dos 12 mil livros digitais.

"Não existe mais ninguém no mundo Não existe mais ninguém à vista. Eles eram os únicos que importavam. Eles eram os únicos que restavam. Ele tinha que estar comigo. Ela tinha que estar com ele. Eu tive que fazer isso. Eu queria matá-lo. Eu comecei a chorar. Eu me virei para ele."

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Atualmente, programas desse tipo são usados para fazer traduções instantâneas e criar legendas automáticas para imagens. O modelo desenvolvido por Vilnis e Bowman pode ser incorporado a softwares atuais para ajudá-los a elaborar traduções e legendas mais naturais ou identificar diferentes maneiras de dizer a mesma coisa.

Parece pouco, mas o trabalho faz parte de um esforço para que computadores sejam capazes de interagir com humanos usando uma linguagem mais informal em vez de apenas receber ordens diretas. O Google Assistant, rival da Siri anunciado esta semana, já apresenta algumas funcionalidades desse tipo.

O uso de redes neurais pode fazer que programas do gênero sejam ainda mais eficientes. É como se a poesia meia-boca escrita pelo cérebro artificial do Google fosse um passo necessário na evolução da tecnologia para que, no futuro, possamos conversar com um computador da mesma maneira como conversamos com um amigo. Mais ou menos como naquele filme Ela, mas com uma máquina devoradora de e-books no lugar da Scarlett Johansson.

"Ele ficou calado por um longo momento. Ele ficou calado por um momento Estava tudo quieto por um momento. Estava escuro e frio. Houve uma pausa. Era minha vez."

Em termos de desenvolvimento tecnológico, o projeto de Vilnis e Bowman em parceria com o Google parece ser promissor. Em termos de talento literário, porém, as perspectivas são um pouco menos otimistas. Uma reportagem do jornal britânico The Guardian descreveu os versos do cérebro artificial como dignos de um Vogon – uma cruel referência à antipática raça alienígena criada pelo escritor Douglas Adams, de O guia do mochileiro das galáxias, famosa por escrever a "terceira pior poesia do universo".

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Segundo os pesquisadores, o computador não é o único culpado pela má qualidade da sua produção literária. A responsabilidade deveria ser dividida com os milhares de humanos que escreveram os e-books usados para abastecer a rede neural. São livros digitais de procedência duvidosa, do tipo que você encontraria perdidos nas profundezas da Amazon ou em sites de autopublicação, disponíveis gratuitamente para download. Em geral, são histórias que um leitor normal não leria nem de graça. Usando esse material como matéria-prima, era difícil que o cérebro artificial conseguisse produzir algo decente.

"O programa é otimizado para elaborar frases que teoricamente poderiam fazer parte do banco de dados", diz Vilnis. "Se usássemos obras literárias de alta qualidade como base, isso permitiria que o nosso modelo criasse frases melhores."

"Eu estou bem. Você está certo. 'Está bem. Você está certo. Está bem. 'Está bem. Sim, aí. Não, não agora. 'Não, não agora. 'Fale comigo agora. Por favor, fale comigo agora. Eu vou falar com você agora. 'Eu vou falar com você agora. 'Você precisa falar comigo agora. 'Mas você precisa falar comigo agora."

Abastecer o programa com as obras completas de Hemingway ou Faulkner, no entanto, não será suficiente para que ele consiga escrever um grande romance por conta própria.

Embora a inteligência artificial tenha avançado de forma assustadora sobre territórios antes dominados pela mente humana, como o complexo jogo de tabuleiro Go, a criação de textos literários exigiria que o programa vencesse desafios técnicos que estão fora do alcance da tecnologia atual.

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"Ainda precisamos avançar muito para que histórias com enredos decentes e personagens verossímeis possam ser criadas do nada por um programa", diz Vilnis. "Há uma grande distância entre gerar frases isoladas que sejam compreensíveis e produzir histórias inteiras que tenham um significado consistente. Um livro de ficção tem uma enorme estrutura oculta que os modelos atuais não conseguem capturar muito bem: coisas como um elenco de personagens, sequências de fatos e temas de enredo. As histórias também exigem um pouco de senso comum, algo que falta aos programas de computador que conhecemos."

"Quando lemos um livro, entendemos uma série de coisas sobre física, motivações humanas e propriedades dos objetos, entre outras coisas. Isso simplesmente não está explicado no texto em si", afirma Vilnis.

Se o herói e o vilão da história estão lutando à beira de um penhasco, por exemplo, nosso conhecimento básico sobre o mundo permite que entendamos que eles correm perigo. Sabemos que penhascos são lugares altos, que duas pessoas lutando correm o risco de perder o equilíbrio, e que uma queda pode ser fatal. Não é necessário incluir essa explicação na história. Tudo isso é óbvio para leitores (e escritores) humanos, mas passaria desapercebido por um computador.

"Não. ele disse. 'não,' ele disse. 'não,' eu disse. 'eu sei,' ela disse. 'obrigado,' ela disse. 'venha comigo,', ela disse. 'fale comigo,' ela disse. 'não se preocupe com isso,' ela disse.

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Um outro desafio, mais técnico, é ensinar um programa a decifrar o que Vilnis descreve como a "estrutura oculta" de uma obra de ficção: quem são os personagens, o que acontece na narrativa, quais são os principais temas da história. É o tipo de informação que um ser humano compreende facilmente, mas que um cérebro artificial teria muita dificuldade para decifrar.

Os programas de computador se saem mal até mesmo em tarefas simples, como interpretar o uso de pronomes.

Um exemplo dado por Vilnis envolve as seguintes frases: "A prefeitura proibiu a manifestação porque ela temia a violência" e "A prefeitura proibiu a manifestação porque ela defendia a violência".

Para um leitor humano, é fácil entender que o pronome "ela" se refere à prefeitura na primeira frase e à manifestação na segunda – do contrário, as frases não fariam sentido. Um computador não é capaz de fazer essa distinção.

Outro par de frases citado pelos pesquisadores é este: "O homem tomou sopa com uma colher" e "O homem tomou sopa com um amigo". Qualquer um de nós sabe que "colher" e "amigo" têm funções muito diferentes nessas duas frases, embora ocupem a mesma posição nelas. Esse tipo de sutileza ainda está fora do alcance dos programas atuais.

"É difícil prever se esse tipo de avanço tecnológico acontecerá em breve, mas isso exigiria uma melhoria significativa em todos os modelos que conheço", afirma Vilnis.

Por enquanto, os escritores podem ficar tranquilos. Não há indícios que programas de computador tomarão o seu lugar num futuro próximo. Tudo indica que eles continuarão por um bom tempo em sua missão inglória: devorar milhares de e-books de qualidade duvidosa e criar centenas de frases mal-escritas e poemas sem sentido, tudo para tentar desvendar o funcionamento da mente humana.