​Um Estranho por Dia, nem sabes o bem que te fazia

O projecto fotográfico que tem captado o interesse de muita gente.

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jan 28 2016, 10:50am

Nos últimos meses, o projecto fotográfico Um Estranho Por Dia tem captado o interesse de muita gente. Perante aquele lugar comum de que uma imagem vale mais que mil palavras, aqui não é bem assim. Há estórias que merecem ser contadas, quanto mais não seja, porque os protagonistas são ilustres desconhecidos.

Há aqui também uma forte componente social, um olhar de frente para o mundo, mas sem procurar a lágrima fácil, a pena ou a caridadezinha alheia. Chama-se a isso: Humanidade. Coisa rara e em extinção nos dias de hoje.

Da esquerda para a direita: Miguel A. Lopes, Rui Soares, João Porfírio e Rui Miguel Pedrosa

Miguel A. Lopes (38 anos, fotojornalista Staff da Agência Lusa desde 2007, Lisboa), Rui Soares (36 anos, fotojornalista freelancer, Açores) João Porfírio (21 anos, fotojornalista freelancer, Portimão/Lisboa) e Rui Miguel Pedrosa (32 anos, fotojornalista freelancer, Leiria), formam o colectivo por detrás das lentes.

Umas vezes em coro bem afinado, outras de forma individual, esta quadrilha de bate-chapas falou com a VICE.

Tinho, 45 anos. Fotografia de Miguel A. Lopes.

VICE: Como é que começou o projecto? Sendo vocês de sítios diferentes, presume-se que já se conheciam. Qual foi o rastilho que vos fez arrancar com o Um Estranho por Dia?

Colectivo: O rastilho foi aceso pelo Miguel, que deu o primeiro passo para o início deste projecto e, a partir daí, houve uma conversa entre o Miguel, o Rui Miguel Pedrosa e o Rui Soares que, prontamente, se juntaram e decidiram que quatro elementos seria o ideal e decidiram convidar também o João Porfírio. Apesar de sermos de diferentes zonas do país acabámos por conhecer-nos quando nos cruzávamos, em trabalho. Depois, são as redes sociais e os contactos que nos aproximam uns dos outros.

Para além das fotos, também escrevem um texto a acompanhar. Já tinham experiência de escrita?

João Porfírio: Eu adoro ler e, consequentemente, escrever (apesar de não ter muito jeito). Mas nunca tinha tido a experiência de escrever uma "breve" diariamente a relatar uma conversa e um acontecimento na vida de alguém. O que mais se assemelha é escrever a "file Info" de cada fotografia.

Rui Miguel Pedrosa: A escrita sempre foi algo que achei giro. Já tinha pensado em, diariamente, num blog, relatar o dia-a-dia da profissão e as aventuras pelas quais por vezes passamos. Numa escrita mais descontraída. Numa perspectiva de brincadeira. O que custa é começar a escrever... E no que diz respeito à leitura, apenas de assuntos relacionados com fotografia.

Miguel A. Lopes: Tenho há alguns anos um blog de foto-jornalismo e escrevo por lá com regularidade, mas sempre coisas muito breves. Este projecto tem-me feito descobrir o gosto por escrever e estou a gostar cada vez mais de o fazer.

Fernando Baptista, 53 anos. Fotografia de Rui Miguel Pedrosa.

Diz-se muito, e com razão, que hoje em dia toda a gente pensa que é fotógrafo. O facto de serem quatro fotojornalistas que agora também escrevem é a vossa vingança?

Colectivo: É uma questão bastante curiosa! Não, não é de todo uma vingança. O projecto dos quatro e, em conjunto, entendemos que não faria sentido haver alguém que escrevesse as histórias por nós, por várias razões.

Por sermos nós que, na primeira pessoa, falamos com o "estranho". Sabemos a cronologia dos acontecimentos e quando é criada uma certa empatia com a pessoa, pensamos que isso se reflecte no texto.

Não queremos que os nossos textos (ou legendas como lhes queiram chamar) sejam peças jornalísticas, porque não o são. São, tal como a fotografia, um retrato da pessoa e não há ninguém melhor que nós para o retratar. Contudo, recorremos por vezes a uma quinta pessoa que nos lê o texto no final para ver se não nos escapou alguma gralha.

Como é feita a abordagem? Primeiro ganham confiança, ouvem a estória, decidem se é interessante e só no fim é que tiram o retrato? Como é que funciona?

Colectivo: Não há nenhuma "fórmula" na forma como abordamos os nossos "estranhos". Depende do ambiente, da situação, do espaço e cada pessoa reage de maneira diferente ao nosso primeiro contacto. Tentar o equilíbrio entre uma boa foto e uma boa história é o nosso objectivo diário, mas que nem sempre se consegue concretizar.

João Porfirio: Por norma, começo sempre por fazer uma abordagem a explicar o projecto. Mostro na maior parte das vezes o Facebook, ou o Instagram do projecto a partir do meu smartphone e pergunto se posso contar com a colaboração da pessoa.

Há pessoas bastantes curiosas, como nós, e perguntam-me como é que surgiu a ideia, quem são os outros elementos, para que finalidade é a sua fotografia, ou até "porque é que me escolheu a mim?".

Nestes casos respondo sempre com sinceridade e explico o porquê de ter "escolhido" aquela pessoa. Há diversas razões mas nunca com estereótipos.

Rui Soares: Eu tento que seja completamente aleatório... acho que não há uma influencia real, são várias. No meu caso, faço a fotografia no final, depois da conversa, depois de criar uma relação de uma certa forma pessoal. E quando fazemos a fotografia, a própria pessoa já está mais à vontade connosco e o retrato acaba por sair sempre melhor.

Miguel A. Lopes: Sendo fotógrafo sou muito observador e tento sempre meter conversa com algo relacionado com a pessoa, às vezes tento ouvir alguma coisa que digam para meter conversa. Mas como já foi dito não há formula, apenas meter conversa!

Rui Miguel Pedrosa: tento sempre que seja alguém que me tenha chamado a atenção, por algum motivo. Mas, ao mesmo tempo, que não seja um motivo demasiado óbvio. Posso dizer que, já 'escolhi' alguém, com base na curiosidade. Por ter visto a pessoa a fazer alguma rotina e que me tenha feito perguntar-me o que estaria a fazer. Então, acho que posso dizer que o projecto ajuda a perceber essas rotinas. Fazendo sempre o retrato no final.

Maria Rita, 87 anos. Fotografia de João Porfírio.

Qual é o critério que vos faz avançar? É a cara, o físico, o ar com que a pessoa está... Varia?

Colectivo: Não há estereótipos e tentamos ao máximo ser imparciais. Encontrar uma boa estória e conciliar isso com uma boa fotografia é o nosso objectivo, mas por vezes é bastante difícil.

Há pessoas que, antes de as abordarmos, pensamos que poderão dar uma boa estória, e até podem dar, mas a fotografia acaba por não resultar. Ou por outro lado, a luz pode estar perfeita, o local é aquele "e não mexe mais", a fotografia resulta bastante bem, mas depois a estória é uma estória "normal" de vida.

Mas atenção, para nós, todas as estórias são boas, assim como os retratos, porque estamos a retratar a pessoa em fotografia e na escrita e se a pessoa é assim, é assim que tem de ser retratada.

O que é que já ficou de mais marcante nestes ainda poucos meses de projecto?

Colectivo: Achamos que foi, sem dúvida, o dia que fomos ao "Você na TV", na TVI. Não por termos ido, mas por estarmos os quatro juntos pela primeira vez desde o início do projecto.

Acho que o que mais marcou no arranque foi a nossa vontade de fazer este projecto numa base pessoal, para nós, e de repente estamos a chegar aos 20.000 likes na nossa página do Facebook.

Miguel A. Lopes: Ao início riamo-nos quando eu escrevia nas nossas conversas a palavra PRESSÃO, quando chegámos aos 500 likes.

Sandra Tavares, 43 anos. Fotografia de Rui Soares.

À partida presume-se que é um filão quase sem fim, já que há tanta gente no mundo... Mas, tal como o pânico da folha em branco, sentem pressão no dia anterior? Têm sonhos com a possibilidade de não conseguirem encontrar alguém interessante?

Colectivo: De todo. Fotografamos sempre sem pressão. Tanto que há dias em que fotografamos de dia, ou a meio da noite. Todos nós, felizmente, trabalhamos e, por vezes, é complicado definir uma hora "exacta" para colocarmos online os "nossos estranhos" e o mesmo se passa no que diz respeito aos dias.

João Porfírio: Há dias em que, falo por mim, com o trabalho e por estar a acabar algumas cadeiras da Faculdade, se torna difícil, apesar de ser sempre um objectivo diário. Mas por vezes as "negas" são mais que muitas. Houve um dia em que numa hora levei sete negas, por diversas razões. Ou porque pensavam que ia pedir dinheiro, ou não queriam ser fotografadas, ou até porque, de certeza, pensavam que ia assaltar as pessoas (aqui quem costuma ser assaltado até sou eu).

A vossa área de actuação tem sido Lisboa, a Região Centro do Continente e Açores. Há planos para cobrir outras áreas geográficas?

Colectivo: Sem dúvida. Vamos fotografando onde quer que estejamos, seja em férias ou em trabalho, dentro ou fora do país.

Neste momento temos o João Porfírio em França, e está por lá a fotografar, e durante toda a campanha eleitoral o Miguel A. Lopes correu o país, de Norte a Sul, tendo em cada um dos locais feito o "seu" estranho.

Onde é que isto irá chegar?

Colectivo: Já temos convites para exposições em vários pontos do país (Universidades, Colectividades Culturais, Institutos). Gostávamos muito - mas mesmo muito - de publicar um livro quando fizermos um ano de projecto, mas sabemos que, sem apoios, será praticamente impossível.

Esperamos que esses apoios apareçam. No segundo ano já pensámos o que vamos fazer mas isso.... é surpresa!

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