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Drogas

Breve história da época em que a cocaína não era ilegal

Começou por utilizar-se no exército e, logo depois, Freud contribuiu para a sua expansão. Até que a proibiram.

Por J. C. Ruiz Franco
17 Junho 2015, 9:35am

Imagem via wikimedia.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

No século XIX, em pleno auge do consumo de folhas de coca na Europa, vários investigadores tentaram isolar o princípio activo da coca, ou seja, a substância que dá à planta as suas qualidades características. O primeiro a conseguí-lo, foi o químico alemão Friedrich Gaedcke em 1855, que lhe deu o nome de eritroxilina, para a família, o género e o nome científico da planta (Erythroxylum coca).

Passado pouco tempo, Albert Niemann explicou na sua tese de doutoramento, publicada em 1860, as medidas necessárias para isolar o princípio activo através de um processo mais refinado que aquele utilizado por Gaedcke e descreveu as suas propriedades, dando-lhe o nome de "cocaína". As folhas necessárias para realizar este trabalho foram-lhe fornecidas pelo seu professor da Universidade de Göttingen, Friedrich Wohler, que, por sua vez, as conseguiu graças à viagem de Carl Scherzer à volta do Mundo. Muitos anos mais tarde, em 1898, Richard Willstätter viria a conseguir descrever a sua estrutura e isolar a molécula através de síntese química.

Apesar da popularidade das folhas de coca, o uso de cocaína foi relativamente limitado até 1883, quando um médico militar, Theodor Aschenbrandt, comprou um fornecimento à empresa farmacêutica Merck para a utilização em soldados durante manobras militares e, num artigo publicado pouco depois, deu conta dos efeitos benéficos no que respeitava ao suporte da fadiga física. O jovem Sigmund Freud, que estava numa fase complicada da sua vida - sofria de melancolia e fadiga crónica, leu o artigo, aprendeu mais sobre as folhas de coca e decidiu provar a cocaína. Um mundo novo abriu-se diante dos olhos daquele que, anos mais tarde, se tornaria o fundador da psicanálise.

Sentiu-se como nunca antes se tinha sentido, recomendou o consumo de coca à sua namorada e aos seus amigos, utilizou-a na sua prática médica e escreveu vários artigos ("Über Coca", "Beitrag zur Kenntniss der Cocawirkung", "Nachträge Über Coca", "Über die Allgemeinwirkung des Cocains"), que foram amplamente divulgados e, em grande parte, responsáveis pela popularização da substância. Também chegou a sugerir a sua utilização como anestésico, mas o seu colega Karl Koller adiantou-se e esta aplicação é-lhe atribuída nas cirurgias oftalmológicas.

O jovem Sigmund Freud. Imagem: via.

As aparentemente intermináveis aplicações terapêuticas da cocaína causaram uma grande euforia dentro do campo da medicina e da farmacologia, como, alguns anos antes, tinha acontecido com a folha de coca. As empresas farmacêuticas Merck e Parke, Davis & Company começaram a produzi-la. O optimismo reinava em todo o lado, mas logo surgiram os problemas resultantes do abuso, que foram tornados públicos e serviram para que a maioria dos sectores conservadores exigissem o seu controlo.

Por exemplo, descobriu-se que Freud quis curar a dependência da morfina, que o seu amigo Ernst von Fleischl-Marxov utilizava para suportar a dor neuropática de que sofria, com cocaína. Inicialmente esta deu força ao paciente e permitiu-lhe reduzir a dose de morfina, mas logo a sua tolerância aumentou e teve de subir consideravelmente a quantidade consumida, o que o levou a sofrer uma psicose cocaínica e a sua saúde foi definitivamente destruída.

Ficou claro que foi o abuso - numa pessoa predisposta pela sua patologia - e não a substância em si a causar estes problemas, mas aqueles a favor da proibição não estão interessados nestes pequenos, mas importantes, detalhes. Várias autoridades médicas, incluindo Erlenmeyer, afirmaram que a cocaína era uma droga nociva, que causava dependência. No entanto, a droga continuou a ser vendida livremente nas farmácias e o usar ou abusar da substância foi deixado ao critério de cada um. O próprio Freud, depois de a ter consumido durante vários anos, deixou de a consumir sem problemas.

Mulheres compram cocaína em Berlim, em 1924. Imagem via.

Então veio a proibição. Aqueles a favor da proibição foram ganhando força e, em Dezembro de 1914, os Estados Unidos aprovaram a Lei de Harrison, que regulava o consumo de várias drogas, incluindo a cocaína. Grande parte do mundo civilizado quis seguir o exemplo e, embora na Conferência de Haia de 1912 nada tenha ficado decidido, porque a lei foi assinada por poucos países, em 1913 e 1914 foram convocadas novas reuniões para serem recolhidas mais assinaturas.

A aplicação das primeiras leis proibicionistas poderia ter sido bastante irregular a nível internacional, mas a Inglaterra sugeriu incorporar os acordos de Haia dentro do Tratado de Versalhes - que pôs fim à I Guerra Mundial em 1919 - e, aos poucos, praticamente todos os países subscreveram o acordo assinado somente por uns poucos em 1912. Os seguintes tratados internacionais sobre as drogas têm vindo a aumentar o controlo, ao ponto de que a Convenção Única sobre os Estupefacientes de 1961, também decretou a proibição da folha de coca, excepto para fins médicos e científicos.

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