Morte ao glitch japonês! Viva o glitch japonês!

Mesmo sem se ver, está por todo o lado.

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abr 9 2014, 9:35am

Essa coisa do glitch, mesmo sem se ver, está por todo o lado. Caminhamos por exemplo por uma grande superfície comercial e, sem nos apercebermos, estamos a atravessar uma paisagem onde o glitch tem uma potencial presença. Está na máquina de Multibanco que quinou temporariamente por falta de um algoritmo, está nas luzes que assumiram um efeito totalmente imprevisível porque a programação breakou, está nos rodapés dos noticiários porque todas as televisões são igualmente falíveis (e agora há sempre um telemóvel para registar isso).



O glitch serve essencialmente para descrever toda a falha de um sistema que se manifesta de uma forma nem sempre fácil de ser antecipada ou descrita. Dizia Todd Rogers, campeão e senhor de maratonas intermináveis em diversos videojogos, que, depois de dias a malhar no mesmo jogo, então começavam a acontecer os mais estranhos fenómenos. "That’s when the funky stuff start to happen", é esta a sua frase inesquecível. Também na música o glitch teve o seu período mais fértil (em labels como a raster-noton, Tigerbeat6 e Shitkatapult), na primeira metade da década passada, mas actualmente é mais incomum encontrá-lo na sua forma pura. Referi-lo é também um pouco démodé.



Atirei-me pois ao glitch, porque nas mãos tenho um par de discos que o recuperam como se a fonte tivesse começado a dar água ainda há pouco. O glitch vai no dia zero em ambos os álbuns que aqui temos: Phenomena, a estreia de Wataru Abe, e post punk, o terceiro de Shotahirama que traz um título especialmente curioso. Nada sabia sobre o japonês Wataru Abe antes de ter escutado Phenomena, mas parece que o seu trabalho recente era marcado por uma tranquilidade folk que aqui desaparece por completo. Sobre a sua estreia na Kaico pode dizer-se o mesmo que se diz acerca de tantos outros espécimes de glitch: é frenético, nervoso, transbordante, caótico, atordoante e o diabo a quatro. Contudo isso não chega a provar que Wataru Abe é também um promissor executante de techno esburacada e corrosiva, que pouco tem a ver com a natureza lúdica de uns Dat Politics e que só podia existir mesmo num futuro pós-raster-noton. Phenomena é, se quisermos, música de dança para ser escutada por robots da Skynet enquanto rebentam com esta merda toda.



Com os colhões igualmente cheios de glitch, post punk (edição da Signal Dada) é um disco bem diferente do seu congénere. Shotahirama anda nisto há tempo demais e o resultado demonstra precisamente um produtor mais experiente e totalmente despreocupado com a quantidade de pessoas que irá alienar com esta peça de glitch trabalhado em modo dadaísta (o próprio nome da label diz tudo). Ao longo de uma só faixa de 17 minutos e meio, post punk progride através de um imparável ricochete de ritmos mutilados (pelo meio há um ou outro esboço de dub e alguma desbunda bass) e vai cuspindo cá para fora retalhos de ruído branco e vozes sensuais. Se em primeira instância tudo isto parece um acumular de entulho, a partir da terceira ou quarta escuta post punk começa a revelar alguns padrões temáticos que nos fazem acreditar que aqui está mais um daqueles super-meticulosos discos de glitch feito no Japão.

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