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Desporto

Como o futebol sobrevive ao Estado Islâmico

Mesmo proibido em muitas regiões controladas pelo grupo terrorista, a modalidade é ainda um elo de união entre os apaixonados da bola e serve como porta-estandarte da liberdade..
11.4.16

**Este artigo foi originalmente publicado na **VICE SPORTS França.

Em Janeiro de 2015, uma história terrível história chocou o Mundo: 13 crianças foram executadas na cidade de Mosul, no Iraque, em frente a uma multidão que incluía os pais de todas elas. De seguida, os seus corpos foram expostos para que todos os vissem. Era um aviso brutal do auto-proclamado Estado Islâmico (EI).

Não se sabe o verdadeiro motivo por trás do assassinato destes jovens. Algumas fontes afirmam que eles tinham tentado assistir a um jogo de futebol entre o Iraque e a Jordânia, integrado na Copa Asiática. Ali al-Ahmed, um saudita especialista em organizações terroristas e na seita do islamismo sunita Wahhabista, afirma, no entanto, que é preciso ter cuidado com tal afirmação: "O EI cria desculpas para exibir o seu poder de forma brutal, por isso não é possível afirmar que as crianças foram mortas por causa de um jogo de futebol".


Vê: "O Estado Islâmico"


Tudo indica, porém, que o futebol foi completamente proibido nas regiões iraquianas controladas pelo EI. Numa entrevista anónima, um funcionário público da região de Bassora ligado a diversas ONGs locais confirmou as nossas suspeitas. "Há muitas coisas que são proibidas nas áreas dominadas pelo EI e o futebol é uma delas", garante. Ouvimos a mesma coisa de outro funcionário público de Bagdad. "Eles não gostam de nenhuma ferramenta de desenvolvimento, por isso o futebol é proibido", revela, também sob condição de anonimato. "Assim como vocês, também ouvimos relatos da trágica execução desses jovens. Mas não podemos confirmá-los. Não sabemos exactamente o que aconteceu".

Entre rumores e afins, uma coisa é certa: o futebol vai contra a doutrina da organização terrorista. A começar pelas roupas. "Deixar as pernas, coxas e canelas descobertas é proibido", enfatiza Ali al-Ahmed. A doutrina do grupo também proíbe a adoração de qualquer figura que possa competir com a supremacia de Alá (por esse motivo, "Jihadi John" — o notório ícone jihadista — deixou de protagonizar vídeos do grupo pouco antes da sua morte). Propagandas com jogadores estrangeiros ou posters de jogadores encontrados em cafés não são destruídos apenas por retratarem kouffars (infiéis ou não-crentes), mas sim porque perturbam a ordem religiosa.

Há 20 anos a Arábia Saudita também questionava o papel do futebol. Embora a posição das autoridades sauditas tenha mudado drasticamente desde então, Ali al-Ahmed afirma ver o mesmo tipo de desconfiança em relação ao desporto por parte dos wahhabistas no seu País. A doutrina wahhabista adoptada por alguns sauditas é considerada semelhante ao salafismo pregado pelo EI. O ex-imã da Grande Mesquita de Mecca, Xeque Adel al-Kalbani, confirmou essa proximidade ao dizer numa entrevista concedida a um canal de televisão: "Nós e o EI seguimos as mesmas crenças". "As religiões nunca encorajaram a prática do futebol na Arábia Saudita", diz Ali al-Ahmed. E acrescenta: "Ele pode ser usado como forma de unir grupos ,ou de gerar satisfação pessoal. Bani-lo é uma forma de controlar melhor a sociedade".

No Iraque, a região entre Fallouja e Bakouba — que inclui as cidades de Tikrit, Tal Afar, Rutba e Qaim — costuma ser ocupada pelo EI para, de seguida, ser libertada por bombardeamentos efectuados pelas forças de coligação, ou pelo exército iraquiano. No que um dia já foi a Mesopotâmia, o futebol morreu em diversas ocasiões graças à repressão violenta e aos ataques aéreos.

Mas em Bagdad, capital do Iraque e uma das regiões fora da influência do EI, o futebol ainda vive. No dia 29 de Janeiro de 2015, moradores da cidade comemoraram de forma tão veemente a qualificação da sua Selecção sub-23 para as Olimpíadas do Rio, que iraquianos exilados usaram as redes sociais para pedirem mais contenção. Eles temiam pelos seus familiares que ainda moram no país. "O Iraque é um país de futebol. Quando o Real Madrid e o Barcelona jogam, o país inteiro vibra", diz Claude Gnakpa, jogador francês que passou uma temporada numa equipa iraquiana antes das primeiras investidas do EI.

Na Síria, a situação é um pouco mais complicada. Tim (nome fictício) é um sírio que trabalha para o Raqqa-sl, um site que expõe os crimes cometidos em Raqqa, capital do auto-proclamado califado. "A questão do futebol não foi escrita em lado nenhum pelo EI. Não existe nenhuma lei escrita que proíba o futebol, mas essa é a mensagem que ouvimos nas ruas, nas mesquitas e nos pontos de media [cabinas com acesso à internet que exibem conteúdo criado pelo EI]", diz. "A proibição é um pouco vaga. Por exemplo, em Manbij, crianças acima dos 12 anos não podem jogar futebol, mas esse já não é o caso em Deir ez-Zor. Depende da região onde estás".

Em Raqqa, crianças abaixo dos 15 anos de idade podem jogar futebol. Depois dessa idade, a modalidade torna-se um problema. "Eles dizem que o futebol distrai os adultos das suas obrigações religiosas", continua Tim. "Mas eu sei que algumas pessoas jogam às escondidas aqui em Raqqa, longe dos olhos do EI, onde sabem que não correm riscos".

No coração da cidade, Tim já testemunhou várias cenas de violência contra homens que se reúnem em cafés para assistir a partidas de futebol. Entre um jogo e outro, alguns estabelecimentos conseguem permissões para exibir uma partida. "Não podemos ver futebol livremente. Às vezes eles dão-nos permissão, mas noutras ocasiões entram nos cafés e espancam quem não tem permissão para assistir ao jogo… É um caos", sublinha Tim. Como exemplo, ele recorda o jogo entre o Barcelona e o Real Madrid, transmitido no dia 21 de Novembro de 2015, oito dias após os atentados de Paris. Curiosamente, os líderes do EI aprovaram a transmissão da partida, mas antes do início, o Estádio Santiago Bernabéu calou-se para um minuto de silêncio. "Depois disso, eles ficaram enraivecidos e começaram a expulsar as pessoas dos cafés e fecharam todos os locais que iriam transmitir a partida", conta Tim.

Como muitos na Síria, ele diz não compreender a incoerência do grupo quanto ao futebol. No início da ocupação em Raqqa, todos podiam jogar futebol, independentemente da idade, com a condição de que as suas pernas ficassem sempre cobertas. "Mas um certo dia disseram que o futebol distanciava as pessoas de Deus e dos seus deveres", explica. Esta proibição, todavia, não se aplica aos jihadistas europeus e americanos. "Sei que muitos estrangeiros vêem futebol em casa, ou em estabelecimentos privados. Muitos têm descodificadores que transmitem canais de desporto", diz Tim sobre a incongruência. "Os líderes do EI contradizem-se. Proíbem-nos de jogar e ver futebol, mas vêem jogos nas suas próprias casas. Muitos deles até têm Playstation". Ali al-Ahmed explica a motivação por trás desta aparente tolerância: "Para os líderes do EI, os soldados estrangeiros têm mais valor. Muitos são mais motivados, mais fanáticos e mais valiosos, tanto para a máquina de propaganda do EI, como para a comunicação social estrangeira. É natural que eles recebam essas regalias".

Nas grandes cidades sírias e iraquianas, jihadistas vindos da França, Bélgica, Alemanha, Tunísia, Arábia Saudita e de outras partes do Mundo dividem grandes casas em áreas ricas, abandonadas por aqueles que fugiram da dominação do EI. A maioria dos sírios e iraquianos não está disposta a aguentar a arrogância, a violência e o poder destes "novos" muçulmanos. "Eles não vêem os jogos connosco", diz Tim. "Ficam nos seus pequenos palácios e usam espaços onde nós, cidadãos comuns, não podemos entrar". Nas palavras de um ex-intérprete que trabalhou nos serviços de inteligência do regime de Bashar al-Assad entre 2011 e 2013: "O EI instituiu uma fatwa [pronunciamento legal islâmico] que proibia a exibição de partidas de futebol, mas não a prática do desporto".

Louai Aboaljoud, um jornalista sírio que recentemente deu entrevistas em Paris sobre a situação catastrófica em Aleppo, quer dar um pouco de perspectiva a esta questão. Ele passou algum tempo em prisões do EI e insiste em sublinhar a seriedade da actual situação na Síria: "As pessoas na Síria preocupam-se mais com questões quotidianas — conseguir água, comida, ou saber que sítio foi bombardeado —, do que com jogar ou ver futebol". Os poucos campos de futebol ainda existentes foram transformados em abrigos pelos jihadistas. "O Estádio de Raqqa tornou-se uma das bases da polícia islâmica", conta Tim. "Chamam-lhe'Os 11 Pontos'. Ocuparam-no quando a coligação começou a bombardear a cidade. Ter um estádio é muito útil: tem um estacionamento, muitos quartos e é bem protegido".

A alguns quilómetros de Raqqa, nas áreas dominadas pelo Exército Livre da Síria (FSA, na sigla em inglês), o futebol é visto de outra forma. Ali, os jogos não terminam em tristeza ou agressões. Orwa Kanawati, fundador da equipa nacional do FSA, descreve orgulhosamente a decisão de jogar futebol nas áreas libertadas pelo FSA: "Aqui nós podemos jogar sem termos medo de morrer. Apesar da guerra, muitas pessoas jogam futebol nas áreas controladas pelas forças revolucionárias: em Homs, Idlib, Deraa, Aleppo e nas áreas em redor de Damasco — em estádios grandes e pequenos. Temos mais de 75 equipas nas nossas áreas e há uma liga com várias divisões e 40 tequipas em Idlib", conta.

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Apesar dos muitos desafios enfrentados pela região, está claro de que será preciso mais do que bombas e lâminas para matar o que a população do Médio Oriente chama de kurat alqadam. Afinal, o futebol é ainda uma poderosa linguagem universal.

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