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'A Criada' é uma obra-prima do cinema coreano que você pode ter deixado passar

Daora, você transou 'Parasita'! Aqui vai outro filme sobre luta de classes e vingança.
Bettina Makalintal
Brooklyn, United States
MS
Traduzido por Marina Schnoor
20.2.20
A Criada park chan wook the handmaiden filme coreano
Foto cortesia Amazon Studios / Magnolia Pictures.

Com uma vitória histórica no Oscar no começo do mês, Parasita de Bong Joon Ho finalmente fez o mundo olhar para o cinema coreano mais seriamente. Essa é uma categoria que vem rendendo filmes tão inteligentes e estilosos quanto Parasita há anos, com níveis similares de humor ácido e comentários sociais, uma categoria que vale a pena mergulhar para quem achou o trabalho de Bong no mínimo intrigante.

E enquanto Parasita ganha o reconhecimento muito merecido, o momento internacional atual da Coreia também pode ser uma chance de reexaminar um trabalho igualmente perfeito que foi criminalmente pouco comentado: um filme exuberante e provocador – cheio de reviravoltas inesperadas – que, pra mim, é um mistério como não fez mais sucesso e arrebatou a temporada de premiações de 2017. O filme é A Criada do famoso diretor Park Chan-wook, cuja brutalidade e humor pesado são as marcas registradas.

Baseado no romance da era vitoriana Fingersmith mas passado durante a ocupação japonesa da Coreia, A Criada é uma história de vingança enraizada em luta de classes e conflito político. Um golpista que se chama de “Conde Fujiwara” e Sook Hee, uma batedora de carteiras pobre, juntam forças para enganar um homem rico e sua sobrinha, Lady Hideko. Para fazer Hideko se casar com ele, Conde Fujiwara instala Sook Hee como a criada dela, o plano sendo roubar a grande herança de Hideko e interná-la involuntariamente numa instituição mental depois.

A categorização de A Criada como um thriller erótico deve te ajudar a entender o que esperar, mas esse dificilmente é um filme para resumir de maneira tão sucinta. O tom vai mudando para sombrio, violento, vingativo e até romântico, enquanto momentos de carinho entre Sook Hee e Hideko logo dão lugar a vários tipos de horror e manipulação.

Como outro trabalho de Park – o pesado Oldboy, por exemplo – A Criada é um filme que merece o aviso de conteúdo forte por seus retratos intensos de sexo e morte. Explicar exatamente por que ele merece esses avisos estragaria a experiência; em vez disso, você deve saber que A Criada, às vezes, é difícil de assistir mas ainda mais difícil de prever.

Se você começa A Criada achando que sabe como a coisa vai se desenrolar, você provavelmente está errado. O enredo tem três partes, e como Parasita, enquanto A Criada vai construindo a história, o filme subverte tudo que você achava que sabia. O que parece ser um golpe bem direto se torna algo muito mais horripilante e estratificado: cheio de perversão sexual, tensão e engano. Mas é fácil ver além da depravação, porque tudo é lindamente decadente.

Enquadrar o trabalho de Park apenas no contexto de Bong seria um desserviço aos dois diretores. Os dois dominam o cinema coreano, que o jornalista do Guardian Phil Hoad recentemente chamou de “o melhor do mundo”. Como ele escreveu antes dos prêmios de Bong, o cinema coreano “se tornou a indústria cinematográfica mais dinâmica e original do planeta” nas últimas duas décadas, e seu reconhecimento já estava atrasado.

Ainda assim, está claro que o sucesso de Parasita fez as pessoas falarem mais sobre o cinema coreano e ficarem imaginando que outros filmes deveriam explorar, o que torna esse o momento perfeito para revistar A Criada com toda a atenção que ele merece. A Amazon Video, onde o filme pode ser assistido atualmente, vem promovendo bastante o longa, para alegria do Twitter. A Criada foi bem mais comentado uns três anos atrás, mas agora talvez seja nossa chance de descobrir ou redescobrir quão bom ele é.

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