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Avante. A provocação desnecessária em dias de confinamento

Depois do “1º de Maio”, o evento na Quinta da Atalaia pode ser mais uma ofensa do PCP para com a população que se esforça por cumprir a quarentena.
12.5.20
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Com certas “rosas”, as aparências iludem. O PCP sabe, mas faz-se de parvo. (Imagem do filme American Beauty, de 1999, com Mena Suvari. Cortesia DreamWorks Pictures)

Passados dois meses após o primeiro caso oficial de Covid-19 em Portugal (2 de Março), há pessoas e instituições que parecem estar a leste da realidade.

Diariamente, se mergulhares nas notícias - cá ou lá fora - , surge quase sempre um elemento novo que aprendemos sobre o “agente desconhecido”. Dos sintomas às mutações, das incertezas às descobertas, a caixa de pandora parece ter um fundo ilimitado de surpresas.

Pelo perigo que encerra, não se pode facilitar e tomar decisões que possam abrir caminho ao aumento da praga.

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O partido macambúzio e o falso “idiota útil”

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Caso o Avante ocorra, alguém acredita no efectivo distanciamento social? (Imagem do filme You Instead, em 2011. Cortesia Sigma Films)

Quando o Estado - e bem - deixou cair os grandes festivais de música (dilatando a proibição deste tipo de acontecimentos até 30 de Setembro), pensou-se que a Festa do Avante! seria um dos contemplados.

Posteriormente, para que não restassem dúvidas, um comunicado do Conselho de Ministros frisava que outros "espectáculos similares” também teriam que esperar por melhores dias. De forma inesperada (ou não), no dia seguinte em entrevista concedida ao Porto Canal, António Costa admitiu a realização do evento no Seixal mediante “as regras” da Direcção Geral da Saúde. “Não há nada que permita na Constituição, na lei, onde quer que seja, a proibição do exercício de actividades políticas”, realça.

Ora, o Avante inclui concertos, iniciativas multidisciplinares e muitos indivíduos ávidos em apanhar uma valente tosga. A opinião zigue-zague do executivo ou chamar-lhe um simples “comício político” (sem dúvida, um dos maiores eufemismos de que há memória) não atenua a evidência.

Visto por outra perspectiva, desta vez há uma aparente troca no papel de “idiota útil”. Durante a “Geringonça” os comunistas rebaixaram-se a algumas jogadas torpes do governo. Agora, é o primeiro-ministro a pôr-se alegadamente no papel de facilitador, depois de ter um sido dos actores políticos que deu carta branca ao “1º de Maio” da CGTP (houve distanciamento entre os participantes, mas o antes e o depois da manifestação podem ter potenciado o contágio).

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Existe, contudo, uma diferença assinalável. Costa sabe que a romaria agendada para início de Setembro não tem pernas para andar e está à espera da indignação geral para afirmar, “Vês Jerónimo, eu tentei, mas a contestação é altíssima”. O líder socialista anda a virar frangos há demasiado tempo para se deixar levar por um partido macambúzio. O que ele gosta mesmo é de ter a garantia de que se Rui Rio não for o parceiro do tango da estabilidade, terá na esquerda quem dance em seu lugar.

O PCP parece que ainda não entendeu a gravidade desta pandemia e a imagem que passa é que as suas “parties” são imaculadas. Apesar da teimosia, há uma réstia de esperança para que a cautela vença e se evitem multidões.

Como Jerónimo de Sousa afirmou que os "comunistas são criativos”, espera-se um Avante organizado por intermédio de meios tecnológicos. As bandas portuguesas seriam na mesma contratadas (para actuações caseiras) e o discurso de encerramento era capaz de ter mais seguidores, caso os artistas concordem em acolhê-lo nas redes sociais.

Seja como for, há quem perca as jóias e fique com os dedos. O PCP é mais adeus às autarquias para os “camaradas” do Largo do Rato, enquanto se entretém com coreografias sindicais, possíveis “mijecas” e dissertações enfadonhas na Quinta da Atalaia.

O baile da provocação desnecessária segue dentro de momentos.


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